segunda-feira, 16 de junho de 2014

em todo canto do mundo há alguém a chorar

Enquanto estou aqui em Brasília, tomando meu Nespresso sabor baunilha, há uma mulher trancada no quarto em Bangladesh lamentando uma escolha errada e incurável. Em Santorini, um jovem olha as casas cobertas de sol e pensa no movimento dos barcos. Assim em Canoa Quebrada e também no branco de Punta Ballena, esse branco que por vezes encobre o que parece felicidade mas é quase uma fuga.

Em Argel, uma moça mergulhou na banheira até sumir de si mesma. A carta, que ela pensou nunca chegar, aportou dois dias depois debaixo de sua porta. Em Bucareste, sei de uma senhora que, cansada dos dias, resolveu colocar sua melhor saia e sair em busca dos sons mais antigos que ouvisse.

No Iraque, uma jovem se apaixona por um soldado mas já não importa porque ele vai embora e a cidade está em ruínas e há tantas forças e tantos lados que já não vale mais a pena sonhar um sonho que morre. Na Asa Norte, uma mulher em construção toma um café na janela ao lado de dois gatos enquanto pensa que a vida não tem rascunho. Ela corta o seu braço pra raiva passar e os machucados abertos lhe mostram que não há fundura que dê conta da nossa imperfeição. No Tennessee, um adolescente magro chora no banheiro enquanto o barulho da água abafa sua inadaptação.

Somos todos inadaptados ao mundo onde não se pode errar. Em todo canto do mundo, há alguém a chorar.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Eles voltam

J.,

Estou aqui no trabalho pensando em como aquele filme pernambucano - Eles Voltam - ficou ecoando em mim. Em geral, me tocam as obras que falam das jornadas alma adentro, esses caminhos que se fazem ao caminhar. E me parece assim a jornada da Cris, que saiu do condomínio fechado na Recife de classe média alta, de um colégio cheio de grupinhos fechados, de uma família com pensamentos fechados, para cair na aventura da estrada.

A estrada é sempre uma bela metáfora, poderosa, não é? Gosto de todas as figuras arquetípicas que falam da estrada. Hermes. Exu. Os mensageiros. Porque nas asas que movimentam os pés reside a coragem de pertencer ao desconhecido.

Aí damos de cara com a Cris, enclausurada no Ipod, desconfiada, sem querer muito contato com o que lhe é diferente. Confesso que demorei a ter por ela alguma empatia. Acho que só aconteceu quando ela se sentou à beira da praia com a outra adolescente e trocou algumas ideias de forma mais desarmada. Mas, sobretudo, comecei a ter empatia por ela quando ela se deslocou. Vejo que este deslocamento aconteceu na cena em que ela vê o sexo despudorado do casal na piscina da casa. Ela não foge. Ela quer ver o que não quer ver. Lembra de como ela tinha um quase sorriso, um quase prazer? Um quase, não. Um prazer.

Houve uma cena em que ela mergulhou na piscina e a água ainda era um grande útero. Mais ao fim do filme, ela não mais mergulha. Ela boia. É que já nasceu. E agora está acima das águas, um outro organismo.

Não mais ela sendo o mundo. Mas sendo ela e o mundo, exterior.

Gostei de ver o nascimento desta menina, tão próxima de nós. Como nós tivemos que nascer, em algum momento. Em tantos momentos, e ainda nascemos, a cada dia. Um eterno e constante separarmo-nos.

Você se lembra de algum dia em que você nasceu?

Entre essas perguntas todas, me lembrei deste poema do grego Kaváfis. Um clichê até para falar das jornadas de autoconhecimento:

ÍTACA 
Konstantinos Kaváfis
(Trad. Haroldo de Campos)
Quando , de volta , viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os sucitar diante de si.
Roga que sua rota seja longa,
que, mútiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar sua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.



Assim é que vejo o filme: um grande caminho para Ítaca. Minimalista, sem grandes arroubos de estilo. Abusa dos planos longos, é bem verdade. No começo, isso me irritou. Mas agora penso que faz parte do olhar da protagonista, deste vagar que era estar ainda tateando outros lugares de estar.

A carta era pra compartilhar contigo as impressões.

A vida é pra compartilhar contigo os caminhos. As Ítacas.


Amor, 


D.

Florbela

Às vezes penso que gostaria de morrer para renascer outra. Mas a verdade é que a gente nunca renasce, por mais que existam as grandes e profundas transformações. Carregamos sempre a condição de sermos aquilo que somos. Morremos, mas continuamos sempre um pouco dos mesmos. Há algo de dor que nunca se vai. Este é o grande peso a carregar. Como Sísifo com sua pedra, a rolar, a rolar, eternamente. Prisão perpétua.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Querô


Não entendo de análise literária, mas Querô, do Plínio Marcos, tem uma estrutura super interessante. Fiquei pensando em termos de montagem cinematográfica não-linear o tempo todo.

Dá vontade de jogar a peça numa timeline do Premiere e ir montando os planos. Na verdade, Querô já vem montado numa ordem delírica. Nesse sentido, achei o texto mais radical que o outro que li dele, O Abajur Lilás.

Gosto também das imagens que Plínio Marcos nos apresenta nas rubricas. Por exemplo, quando descreve as personagens cercando Querô "num grande balé obsessor". Que imagem mais bela e forte! Quanto de vida cabe neste "balé"...!

Por fim, me arrebata o texto terminar com uma repetição da fala do Repórter. Pungente, em tempos de justiceiros:

"Era de tardezinha, quando os homens, com suas armas, encontraram o Querô. Mas já não era necessário despejarem o veneno de suas metralhadoras no corpo inanimado. Querô já estava caído pra sempre. Assim mesmo, despejaram ódios no pequeno bandido. E ele ficou lá caído para sempre. Ou caído até o dia em que, animado pela virilidade espiritual transformadora, ele e outros como ele se ergam das cinzas onde se sufocam, das chamas onde se ardem, das fomes onde se desesperam, dos cubículos onde são empilhados, espremidos, esmagados de corpo e alma, nos sórdidos recantos onde se degeneram e venham cobrar de nós, cidadãos contribuintes, as ofensas todas que em nome de nossos tesouros, de nossos privilégios, de nosso conforto, fizemos à dignidade humana".

domingo, 26 de janeiro de 2014

Epifania - ou reflexões sobre ansiedade, pânico e o medo da morte

Era como se eu estivesse fora do meu corpo, fora da realidade como a conhecemos. Era isso: eu estava em estado bruto, antes da linguagem - uma super consciência do mundo. De repente entendi tudo, a essência das coisas, e ficou claro que tudo se resume à oposição entre viver e morrer. E eis que voltei ao  momento do meu nascimento. Eu nasci. Eu nasço. Mas sabendo que morreria em instantes. Ou eu já estava morta? Morta e não vi? Morta e nasci.

Eu habitava o espaço entre uma coisa e outra, um lugar tão tênue que era entre a linguagem. E, num momento, desaprendi a falar. Inventei uma nova língua, feita de memórias. E ela me impregnava a pele. Cada sílaba era uma imagem.

Cortar o fio quase invisível que ainda me mantinha presa à vida, um fio que saia da minha nuca (e que era o tecer do tempo). De modo que permanecer viva era exercitar a entrega.

[ Isso tudo foi uma epifania seguida de uma crise de pânico.]

Entendi: é que, quando pareço tocar a totalidade do mundo, tento voltar ao controle.

E não há como voltar ao controle.

Por isso, morro.

O medo de morrer é o medo do prazer que há nesse lugar onde não sabemos, onde não há proteção.

A floresta de Pan. A travessia noturna, solitária. Faunos, sombras, assombros.

O pânico fala de tudo o que nos assusta, mas que é nosso. Vida e morte. Vida e morte. Vida e morte.

A angústia de não conseguir respirar é o medo desse ar, de deixar conter. Eu vou morrer, porque, se eu permanecer viva, não vou dar conta de todo esse conteúdo, dessa vida, desse turbilhão - que sou eu! Então travo, endureço, fecho o caminho do fluir dos ares.

A revelação é que a gente não morre. Só nos resta a vida - a travessia. Caminhos de floresta. Peço licença a esse deus Pan. Teremos que caminhar juntos. Da próxima vez, dançaremos. Com as musas, no equilíbrio entre o terror e a leveza.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Do amor e da fotografia

Há dois amores que nasceram simultaneamente na minha vida: a fotografia e a Luisa, minha afilhada. Luluca nasceu quando entrei na universidade, em 2002. Foi lá também que comecei a ter aulas de fotografia. Enquanto eu aprendia a perceber as nuances da luz e a operar uma câmera analógica, aprendia também muito sobre as possibilidades de amor que uma criança traz. A chegada da Luluca iluminou tudo. E essa luz foi fundamental para me ensinar a fotografar.

Lembro que eu fugia para a casa dela a cada intervalo entre as aulas. Como eu não tinha carro, ia de ônibus, com minha câmera a tiracolo. Ficava lá, observando cada gesto da minha pequena, sem pressa. Descobri assim que as boas fotografias se dão pela relação estabelecida com o objeto fotografado. Quando esse objeto se desdobra em afeto, entra na alquimia outro ingrediente que talvez, no meu caso, me mostre o caminho para o tal punctum de que fala Barthes. O que nos punge. No caso, o que me pungia era o que havia de solar no meu amor pela Luisa. A nossa cumplicidade.


Eu a fotografava e era como se eu pudesse tocar a pele dela com a câmera, acarinhar. Ela se mostrava a mim como quem estava em casa. Assim fomos experimentando, tateando, aprendendo novas linguagens juntas. Perdi as contas de quantos filmes destinei a ela. Aprendi o que era baixa velocidade ao borrar seus movimentos engatinhados. O que era profundidade de campo ao destacar seus dedos equilibrando meus anéis de adolescente hippie, os cabelos ruivos diante de uma paisagem qualquer.


Meu projeto final de fotografia, na faculdade, foi sobre a infância. Mas o que eu queria era fotografar Luisa. Eternizar cada segundo ao lado dela. Fotografar o invisível das brincadeiras que inventamos, a dona aranha subindo pela parede e sendo derrubada pela chuva forte, fotografar as primeiras palavras, as danças.


Se eu pudesse fotografar minha alma fotografando Luluca, ela seria o sol.



Porque assim é Luisa para mim.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Um esboço sobre a questão das cotas

Sobre cotas para negros, vou tentar esboçar aqui o que eu penso:

Quando o assunto começou a surgir na minha vida, lá atrás, eu estava no ensino médio prestes a fazer o vestibular e minha primeira reação foi ser contrária. Porque tudo o que a gente pensa é na concorrência. Meritocracia! Afinal, eu estudava feito um cão, sempre fui ultra CDF e tirava as melhores notas. Imagina alguém entrar sem o mesmo esforço e pegar a vaga que poderia ser minha?

Fiquei um tempo em cima do muro em relação ao assunto até entrar na UnB, em 2002. Passei pelo PAS para o curso de jornalismo. Se me lembro bem, não havia um negro sequer na minha turma.

Aliás, os abismos eram bem mais do que sociais – me lembro que foi ali que senti, pela primeira vez, que era diferente por morar no Guará, andar de ônibus e nunca ter feito intercâmbio para o exterior nem uma super viagem bacana pra gringa.

Senti o baque, por exemplo, ao ter que negociar com minha mãe a compra de uma régua de metal para a disciplina Planejamento Gráfico. Também ao ter que entrar no revezamento para usar uma das raríssimas câmeras coletivas na aula de fotografia. 

Devo dizer que eu estava longe de me considerar classe baixa. Com todo o sacrifício da minha mãe, estudei em escolas particulares (sempre com bolsa), fiz curso de inglês, viajei nas férias. Eu, que já estava numa parcela privilegiada, senti o baque da desigualdade ao entrar na UnB. Ali, sim, foi o meu microcosmos do universo.

E como foi estranho perceber que, nas aulas na Ala Norte, eu não via negros - a não ser os intercambistas da África! Mas, quando pegava disciplinas mais para os rumos da Ala Sul (Letras, Artes, Pedagogia), eu os via. E via também muita gente que, como eu, morava em cidades satélites e andava de ônibus. 

Mudei minha concepção sobre as cotas aí, por querer ver uma composição mais próxima da realidade em todos os cursos. As cotas começaram a ser implementadas enquanto eu estava na faculdade, acho que em 2003 ou 2004. Me formei em 2006, então tive pouco tempo para sentir as mudanças na prática.

Em 2007, passei num concurso público para Comunicação Social num órgão do Executivo. Aqui na assessoria de imprensa, há apenas um jornalista negro. Não me lembro de ter visto nenhum negro aqui no meu andar, em todos esses anos de ministério. Ah, claro: tirando os garçons, o pessoal da limpeza e de serviços gerais.

Este é o problema, na minha opinião, que faz meu alerta vermelho acender: quando os negros aparecem apenas em posições subalternas, é sinal de que algo está errado.

Fiquei chocada ao visitar Morro de São Paulo, na Bahia, pela primeira vez. Fui pra lá em 2012, depois de passar alguns dias em Salvador. A capital baiana tem, sabidamente, a maior população negra do país. Morro de São Paulo também tem uma grande população negra. Mas ali, diferentemente de Salvador, eu só vi negros na posição de servir os turistas. Algo do tipo: todos os nativos que conheci eram negros e todos trabalhavam como carregadores de mala, garçons etc.

Dentro do resort em que fiquei hospedada, só havia hóspedes brancos. E negros trabalhando para nos servir. Chegou um ponto em que isso começou a me doer demais, a incomodar mesmo. Porque eu queria vê-los desfrutando aquele lugar, que é deles! Conversando com um rapaz, ele me falou que todos os resorts são de estrangeiros. Eles compram as propriedades dos nativos por uma bagatela, mas que é dinheiro suficiente pra mudar a realidade imediata das famílias. As famílias vendem. E acabam trabalhando no mesmo local que antes pertencia a eles, vendo os novos proprietários lucrarem absurdamente enquanto trabalham por uma ninharia.

Isso não é nenhuma novidade. Acontece o tempo todo no nordeste, é a roda do capitalismo girando, a vida é dura e tal - podem dizer alguns. Mas, para mim, foi difícil ver isso e ficar numa boa. Assim como é difícil ver que quase não tive colegas negros na escola, na faculdade e continuo não tendo no trabalho.

Onde estão essas pessoas?


Eu quero que elas estejam ao meu lado, e não me servindo. Por isso sou a favor das cotas. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Carta de aniversário para Fulô





12 de outubro é um dia triplamente especial para mim. Dia das Crianças, dia de Nossa Senhora Aparecida e aniversário da minha amiga-irmã-comparsa Moema Dourado. Penso que não é por acaso que todas essas celebrações caiam no mesmo dia. Porque a nossa amizade, Fulô, perpassa todas essas dimensões. É a base dela. Percebe isso? Nos amamos pela criança que há em nós, pela fé, pelo sagrado, o mistério. É como se fosse uma constelação. Se alguém desenhasse nossas estrelas, ligasse os pontos, tenho certeza de que haveria um para o lúdico, outro para o sagrado.

E veja: é Nossa Senhora Aparecida que enfeita o seu dia. Não é uma santa qualquer. É a padroeira do Brasil, a santa do povo, negra, encontrada por pescadores no fundo de um rio. Sua bondade infinita foi capaz de multiplicar os peixes. Desde então, ela olha pelo povo. Não do alto. Mas do fundo do rio, da alma, das águas. E dentro de nós passa um rio...tanto!

Uma vez escrevi que o que define minha família, os Neves, é o amor por pássaros, oratórios e pequenezas. Somos feitos de rio, de pés no chão, dos afetos bordados na relação com o outro. Hoje vejo, Fulô, que você é parte da minha família. Dizem isso, não é? Que os amigos são a família que a gente escolhe. Você é a família que sempre foi e eu pude reencontrar nessa jornada. Nos encontramos dançando frevo, vejo só! Dança colorida, com a alegria explosiva e genuína das crianças, frevo dos pés no chão, da capoeira dos escravos...olha o nosso universo se conectando de novo.

Estou certa de que viemos juntas desde antes, antes da barriga, antes do tempo, de outros abismos. Juntas para compartilhar a alma de Fulô, para adorar essa Nossa Senhora colorida do Galeno, sem rosto, envolta por pipas e carretéis coloridos.

Estou escrevendo tudo isso no meio de um shopping, enquanto espero meu horário na terapia. Escrevo e meus olhos se enchem de água. Tentei te ligar para dar os parabéns e dizer que te amo, mas você não atendeu. Deve estar aí em Piri, curtindo seu dia na paz das cachoeiras. Está em boas mãos, minha amiga, no abraço da sua mãe Oxum. Pedi a ela para te abraçar ainda mais forte por mim. Hoje e todos os dias.

Te amo!

Da sua Fulô,

Dany


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Quando tudo é certeiro e fatal

Tem dias em que o mundo todo me dói. Não me cabe. Tudo me atravessa e é muito: o vendedor de balas no sinal, as crianças da rodoviária, o sol duro das mesmas manhãs, o trânsito, os vazios nossos de cada dia. O abandono dos lugares. As paredes descascadas, o mato alto, as histórias que já foram e as que nunca ou ainda serão. Tudo está aí o tempo todo. Há dias em que simplesmente passo. As coisas passam, de raspão. Há outros em que tudo é certeiro e fatal.

Você se arrepende de ter feito jornalismo?

Outro dia, minha amiga e companheira de trabalho Andréa Xavier me perguntou se eu me arrependia de ter feito jornalismo. Eu parei pra pensar e disse que não. Minha resposta, segundo ela, foi bem "fantástico mundo de Dany". Mas juro que é sincera!

Apesar do mercado ser uma merda, de quase não haver concurso para jornalistas, de trabalharmos feito o cão nas redações sem muitas garantias, sem vida pessoal direito, com plantões e sujeitos a "cortes" o tempo todo, eu digo que adoro ter feito jornalismo.

Porque é uma profissão que me deu ferramentas para fazer o que eu mais gosto: contar histórias. E outra coisa fundamental: estar perto de gente. O jornalismo perpassa todas as minhas outras atividades: o documentário, o cinema, a literatura, a escrita de roteiros, a fotografia....assim como essas atividades me atravessam como jornalista.

Quando eu entrei na UnB, eu tinha pavor de pedir uma informação, mesmo que por telefone. Fui até fazer teatro pra perder a timidez. Mas o que me deu mesmo o jogo de cintura necessário para a vida foi o dia-a-dia do jornalismo.

Gosto disso, de estar em contato com todo tipo de gente, de poder olhar para essas pessoas, da conversa, da entrevista. O ruim do dia-a-dia é a falta de tempo para aprofundar esses encontros, na correria de mil pautas por dia. Mas o gosto pelo "outro", pela alteridade, é algo que eu já tinha e que sem dúvidas o jornalismo me ajudou a exercitar.

Até hoje, quando vou me apresentar, digo primeiro que sou jornalista. As outras coisas que sou, também, de certa forma vêm daí. Ou talvez eu tenha buscado o jornalismo justamente por caberem em mim também todas essas coisas. Sabe-se lá. Ambos os caminhos me fazem sentido : )

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sobre a cirurgia de desvio de septo


 Se você caiu aqui no meu blog por acaso, provavelmente estava pesquisando no Google sobre cirurgia de desvio de septo. Sim, eu também fiz isso antes de decidir fazer a minha. E é por isso mesmo que resolvi compartilhar a experiência aqui, porque achei cada coisa assustadora na internet que quase desisti da cirurgia. Então, amigos, calma: a coisa não é tão feia quanto parece.

Antes de falar da operação, vou falar um pouco do meu histórico de problemas respiratórios. Eu sempre tive rinite alérgica e já passei por todos os tratamentos possíveis e imaginários (vacinas, alopatia, homeopatia, terapia, bombinhas de corticóide nasal, loratadina, desloratadina e tudo mais). Alguma dessas coisas deve ter melhorado, mas o fato é que continuo alérgica.

Além disso, eu também sofri boa parte da vida com crises crônicas de amigdalite, que me garantiam sempre febre altíssima e algumas semanas de molho em casa, faltando aula e vendo Sessão da Tarde (adorava!). Sério, essa era a parte boa. A parte ruim foi passar a infância sem poder tomar nada gelado. Meu sonho era um picolé ou sorvete. Aí sabem o que minha mãe dizia?? “Ok, pode comprar, mas tem que deixar esquentar”. Deixar esquentar!!! E lá ia meu picolé para o fundo de um copo até virar suco de uva.

Aos 10 anos de idade, minha mãe resolveu considerar a cirurgia para tirar as amígdalas, porque elas eram mesmo muito grandes e viviam infeccionando.  Nessa cirurgia se foram as adenóides também. Resultado: meus problemas de dor de garganta acabaram e eu pude tomar sorvete e gelado para o resto da vida. Final feliz parte 1.

Só que os problemas respiratórios continuaram e meio que o diagnóstico era sempre rinite e é isso aí, a vida é dura, tem que conviver. Eu nunca nem tinha ouvido falar em desvio de septo. Mas uma coisa me incomodava profundamente sempre que eu tirava fotos 3x4 para as carteirinhas do colégio: meu nariz não ficava alinhado com aquele fundinho que tem em cima do lábio! Sempre ficava meio pro lado e tinha uma narina mais fechada que a outra. Bom, eu achava que era paranóia de adolescente e nunca comentei com ninguém. Fora isso, ia convivendo com meu nariz sempre entupido, achando que era normal, da alergia...

Até que, depois de velha (tipo aos 26 anos), fui a um otorrino achando que estava ficando surda porque meu ouvido entupia do nada constantemente. Achei que devia ter umas ceras ancestrais lá dentro, sei lá, qualquer coisa! A primeira coisa que a medica fez foi um teste de audição. Ouvi tudinho, até pensamento. Laudo: audição 100%!

Aí ela fez um exame chamado videonasoendoscopia, em que enfia um canudo com uma câmera dentro do seu nariz. Deu desvio de septo e hipertrofia dos cornetos. É, saí de lá com uma indicação de cirurgia. E esclarecendo: o ouvido entupia justamente por conta da comunicação falha com o nariz...

Procurei mais dois otorrinos, repeti os exames e todos eles foram unânimes em indicar a operação.  Por outro lado, procurei meu alergista e ele foi contra, disse que eu não precisava mexer com isso e podia continuar respirando com 50% da capacidade, já que cheguei até aqui.

Cheia de dúvidas, sempre ia adiando, com medo. Até que resolvi conversar com um amigo médico, o Aristótenis, que é sempre muito pragmático e sensato. Ele me indicou o dr. Jaime Siqueira, otorrino amigo dele e cirurgião. Fui lá e pela primeira vez senti a segurança em considerar a operação. Sério, confiança no médico é o primeiro quesito fundamental!

Ele me esclareceu tudo, disse que realmente eu poderia continuar respirando com 50% da capacidade, mas que essa outra metade me faria muita falta lá pra frente, quando eu estivesse mais velha. Explicou direitinho que a cirurgia não mudaria o formato do meu nariz se eu não quisesse, que era tudo feito internamente, apenas no septo e nos cornetos.  O que acontece é que geralmente as pessoas aproveitam e fazem a rinoplastia também, que é a cirurgia estética. Não seria o meu caso.

Escolhido o médico, partimos para a novela dos planos de saúde da classe média brasileira.  Ah, delícia! Para a minha alegria, a Amil cobriu tudo. Então foi só conciliar a agenda do dr. Jaime com a data em que teria vaga no hospital do plano.

Nesse intervalo eu comecei a surtar, a ter medo de morrer com a anestesia geral e a ler todos os blogs sobre desvio de septo, em que as pessoas dizem que saem aliens do nariz e muitas outras coisas assustadoras, rsrs. Minha amiga Moema disse para eu parar de pesquisar na internet e falou a coisa mais sábia do mundo naquele momento: “Fulô, confia. As vezes é melhor se manter na ignorância”.

E foi com esse espírito que eu segui para a faca na manhã friazinha do dia 3 de junho. Chegamos lá e ficamos mais de uma hora esperando um quarto vagar. Depois fui para o leito, dormi um pouco e vieram me buscar. Esse foi um momento estranho. Eu, uma legítima mulher de Almodóvar (dramática), achei que fossem me colocar na maca e me levar pelos corredores do hospital. Que nada. A enfermeira me deu uma camisola, uma touca, umas meinhas e falou para eu segui-la até o Centro Cirúrgico. Gente, cadê o glamour??

Minha mãe só pôde entrar até aí. Momento ternura, muitos abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. Até que eu entrei e a porta se fechou. Aí deu medo, muito medo. Me deitaram numa maca na tal sala de recuperação, onde eu fiquei mais de duas horas esperando minha vez. 

Nessas horas eu ligo minha audição 100% (lembram dela?) e começo exercitar a arte da observação. Então prestei atenção nas intrigas entre enfermeiras, nas caras feias que faziam para determinadas pessoas  - quem seriam os vilões e mocinhos daquele hospital? - , em como tratavam os doentes, nas fofocas, o gestual, tudo. Vi e ouvi muita coisa interessante, matéria-prima para histórias e histórias. Mas me chamou a atenção mesmo o tanto que o Centro Cirúrgico fica parecendo a Feira de Acari às vezes. E eu tentando meditar sobre o sentido da vida e morte...é, tava difícil.

Chegou minha vez e eu fui andando para a sala de cirurgia. Deitei na cama, me ajeitei, conversei com o Dr. Jaime, fiz amizade com o anestesista e comecei a falar mais que a nêga do leite. Acho que eu falo demais quando estou nervosa. Quer dizer, acho que falo demais sempre mesmo. Perguntei se ele conhecia o dr. Ricardo Carranza, falei que a filha do dr. Ricardo era minha amiga da infância e tinha virado médica também, contei de quando ele chegava cansado do trabalho e ainda ia estudar matemática com a gente, que ele era um modelo de pai e...ai! cacete de agulha! Me espetaram com uma agulha gigante na veia da mão, sério, aquilo doeu demais! 

Só deu tempo de ouvir o anestesista cantando: “roda, roda, roda e avisa...alô, Terezinha!”. Lembro de ter pensando: “ih, olha o meu encosto de Chacrete!” e depois “O Adriano vai adorar essa!”.

Aí proferi minhas últimas palavras: “acho que tá dando um barato. Num tô tintindo nada”. E apaguei.

Não lembro de mais nada. Mas diz o dr. Jaime que eu já acordei falando e segurando a mão de todo mundo no Centro Cirúrgico, agradecendo “pelo carinho”. Gente, sou filha de Relações Públicas, né? ;)

Depois subi para o quarto com um curativo no nariz, tipo um bigode de esparadrapo para estancar o sangue. E com dois canudos nas narinas, para ajudar na respiração. Essa é a parte deprê. A gente fica muito feio com esses canudos e eles incomodam bastante. Mas não é nada de outro planeta.

Tive alta no dia seguinte. Não senti dor, meu nariz não ficou muito inchado nem roxo nem nada do tipo. O pós-operatório é mesmo a parte mais chatinha. Não porque dói muito. Mas porque incomoda mesmo. Esse esparadrapo de que eu falei tampa um pouco a respiração e a gente acaba tendo que respirar quase o tempo todo pela boca, o que seca muito a garganta.

A rotina de cuidados é simples: tem que lavar bastante com soro dentro dos canudos até o dia de tirá-los (cerca de 3 dias depois da cirurgia). Também estou tomando um remédio para diminuir o sangramento e o Desalex, que eu já tomava para rinite. Isso porque dá para imaginar a tragédia que é uma sessão interminável de espirros nessas condições, né? Melhor evitar.

O mais chato, para mim, é achar uma posição para dormir. O ideal é ficar com a cabeça um pouco inclinada, para evitar sangramentos. Outra coisa incômoda é a sensibilidade nos dois dentes da frente. Parece que eles ficam dormentes! Eu achei que fosse paranóia, mas o medico me disse que é normal, porque o trauma do nariz na cirurgia passa perto dos nervos desses dentes. Enfim: tempo, tempo, tempo, tempo.

Ah, sim: nada de exercícios físicos por pelo menos três semanas. É difícil, mas tem que ficar de repouso mesmo, porque os pontos ainda não foram absorvidos pelo organismo.

Falando em tempo, na segunda-feira vou tirar os splints do nariz. São umas estruturas plásticas que o médico coloca depois da cirurgia para segurar o septo no lugar certo. A gente sente que existe um “corpo estranho”, mas não dói. Deve incomodar só para tirar mesmo, mas aí eu conto em outro post!

Quanto aos tão falados “aliens” que saem do nariz, eles ainda não vieram me visitar. Sinceramente, espero que nem venham! ;)

No mais, é isso: busquem mais de uma opinião, escolham um ótimo médico, tirem todas as dúvidas e...coragem! É um incômodo que vale a pena! Três dias depois da cirurgia, eu já consigo sentir um arzinho passando pela minha narina que era constantemente obstruída. Indescritível! Parece que a gente fica tonto de tanto ar! Muito, muito bom! 

18 dias no Japão

Foram 18 dias de sonho e muitas caminhadas pelo Japão. Começamos por Tokyo, onde ficamos por 4 dias. A ideia era entrarmos em contato com c...