quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Set list afetiva da Bahia - Conto de Areia

Impossível ver os saveiros pousados nas águas e não me lembrar de Conto de Areia, com a saudosa Clara Nunes. Começa como um chamado: foi beira mar quem chamou. Só quem escuta o silêncio da beira da praia sabe que chamado é esse, o chamado silencioso e cadenciado das ondas. A música vai ao encontro do imaginário de Jorge Amado em Mar Morto, que eu estava lendo na viagem: olhos morenos molhados de mar; estrelas bordadas de prata; a lua refletindo no mar, espalhando os cabelos de dona Janaína; um peito cheio de promessas; amores aflitos no cais; o vento arrastando os veleiros pro meio das águas de Iemanjá. Era um peito só, cheio de promessas. Eram Guma e Lívia. Eram os marítimos das terras do sem fim. Conto de Areia. Indispensável na minha set list afetiva da Bahia.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Set list afetiva da Bahia - É doce morrer no mar

Voltei há pouco de viagem, depois de passar onze dias incríveis e intensos na Bahia. Como boa filha de baiana, sou apaixonada por aquela terra, tão rica em material cultural e sobretudo humano. A Bahia já nos deu e nos dá muito. Além de todas as cores e sabores que me alimentaram os sentidos, para mim foi impossível andar pelas ruas de Salvador ou pela areia da praia em Morro de São Paulo sem que algumas músicas invadissem meu pensamento. Parece que tudo é musica na Bahia.

É assim: você sobre uma ladeira e logo pensa na Ladeira da Preguiça ou na Ladeira do Curuzu. Você passa pelo Pelourinho, em frente à Fundação Casa de Jorge Amado, e logo pensa que o Haiti é aqui. Caminha pela beira do cais e se lembra de Caymmi ao ver os saveiros descansando nas águas - é doce morrer no mar, cantaria um velho marítimo. E por aí vai. Foram muitas as musicas que embalaram essa minha jornada. Compartilho então com vocês minha set list afetiva da Bahia. São muitas as músicas, então vou postando um pouquinho a cada dia.

Nada mais justo que começar com Dorival Caymmi, que foi trilha sonora enquanto eu lia Mar Morto, de Jorge Amado, na beira da praia:




segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

valsa verde # 2

Enquanto corria pelas superquadras, imaginei nós dois numa valsa flutuante em meio às árvores, ainda molhadas de chuva, ao som de La Mer. Dançar sem gravidade diante das copas verde-água, verde-chuva, ver-te valsa.

valsa verde # 1

Dançávamos de mãos dadas diante de crianças, todos os olhares atentos para o pulo que parecia um pato, dezenas de meninos nos imitavam por toda a rua, com as luzes dos postes projetando milhares de patos no chão. Andamos até a escada, quando você parou e me deu passagem. Continuei andando; valsava agora com as luzes e com o que sobrara de você. Eu girava e meninos brincavam embaixo da minha saia, cada um pendurado em um carrossel de tecido. Viramos uma sombrinha perdida a nos proteger de chuvas. Um guarda-chuva verde, esquecido, na rua de patos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

2012 e o fim do (meu) velho mundo

Hoje, ao acordar, senti uma leveza que há muito tempo não sentia. Como se o mundo todo estivesse em suspenso para que eu apenas respirasse, sem nenhum objetivo. Apenas abrir os olhos e respirar. Meu pescoço, que sempre ficou contraído e preparado para alguma guerra imaginária, finalmente relaxou. Meu maxilar também. Fechei os olhos e foi como se, pela primeira vez, eu entendesse o sentido de meditar. Meu corpo leve, nenhuma sombra sobre os olhos, nenhum peso. Eu estava acordada, mas parecia ainda dormir, ou acordar para outro estado.

Levantei, passei mentalmente os compromissos do dia, mas nada me fazia ter pressa. Nada me tirava o chão. No caminho para o trabalho, dirigindo meu carro, olhei o mundo e foi como se em um segundo eu compreendesse toda a filosofia do universo. Eu simplesmente sabia. Tudo estava dado, ali, diante dos meus olhos. A sensação era de ter uma cortina nos olhos, uma névoa que me colocava em outro estado de percepção. O mundo estava ali, as árvores, o chão, tudo, desde sempre, e sempre diferente.

Tem coisas que a gente tenta entender com o racional e passa anos achando que compreendeu. Aí, em um segundo de entendimento com o coração, a gente compreende. E vê que antes não sabia nada. Nessa manhã, entre acordar e dirigir até o trabalho, entendi o que era a impermanência de que o budismo tanto fala. E senti o que era a entrega, um estar no mundo sem esperar nada em troca, a não ser o mundo e as possibilidades infinitas que eles nos dá. Um caderno em branco, nós e o universo. Então só continuei em silêncio e agradeci por esse momento, com a consciência de que ele passaria tão rápido e intensamente quanto veio.

Mas não. A sensação persistiu. E eu achando que havia algo errado comigo, essa letargia não podia ser normal. Cadê a Dany que estava sempre pronta, na defensiva, sempre antecipando coisas, preocupada, no controle? Essa Dany que conheci essa manhã não controlava absolutamente nada. Tomei um café pra ver se voltava ao “normal”, mas fiquei pensando que talvez meu normal esteja finalmente mudando, e a vida me apresente uma outra possibilidade.

Quem sabe seja finda essa memória corporal de maxilar travado, dores de cabeça, pescoço travado, o corpo como um soldado pronto para a batalha, pés firmes no chão, nenhum vento me move? Quem sabe esses não sejam tempos de entrega, de tirar os pés do chão como quem aceita uma dança?

2012, eu aceito. Bailemos de mãos dadas. Porque não é o mundo que vai acabar. É esse meu mundo, que acreditei o único, mas que precisa ir. Ele foi importante, 2012. Então nos despeçamos dele com respeito e reverência, deixemos que ele passe pelo salão. Agora somos nós dois, no centro da pista, a nos reinventar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

das idades

Tentando compreender minha respiração curta e corpo em defesa numa simples manhã, sem nenhuma ameaça concreta, percebi: é que vivo sempre à espera de ser surpreendida. A cada segundo, acho que algo vai acontecer e virar minha vida de ponta cabeça - para o bem ou para o mal.

O nome disso pode ser ansiedade. Ou intensidade. Ambas trazem consigo a palavra "idade". O modo de reagir é também uma forma de construir o tempo e, como já diria Renato Russo em uma das canções da Legião Urbana, o tempo é tudo que somos. Nossa construção.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Onde eu nasci passa um rio e uma caravana de ciganos...

Os ciganos fazem parte do meu imaginário desde sempre – tenho recordações deles passando na minha rua, no Guará; do parque de diversões montado por eles em Posse (GO); da mistura de fascínio e medo diante das histórias de que eles “roubavam menino”. Acho que, de certa forma, eles fazem parte do meu olhar. Tanto que eu me descrevo no Facebook como “zingarina” – a incrível personagem da Asia Argento em Transylvania, cujo nome quer dizer “ciganinha”.

Hoje, conversando com a minha mãe, tive um entendimento muito forte sobre a origem desse universo. Ela me disse que tinha verdadeira fascinação pelos ciganos quando era criança, em Canápolis, na Bahia. Disse que queria ser cigana e que dizia para todo mundo que era filha de ciganos que tinha sido “dada” pra família dela.

Fiquei arrepiada quando ela me contou essa história, porque era uma fascinação que nós nunca compartilhamos conscientemente – nunca se falou sobre isso em minha casa. Fico sempre impressionada com o poder do não-dito, daquelas referências transpessoais que nós captamos via alma, via gestos e memórias. Minha mãe me disse que gostava de brincar perto do acampamento dos ciganos e ficava olhando como eles eram bonitos e como gostavam de dançar!

Fiquei pensando em todas essas relações transmitidas em silêncio. Minha mãe se criou no sertão da Bahia, próxima ao Rio São Francisco. Eu sou apaixonada por rios. Meu tio Manoel, quando fez sua passagem, teve no retrato distribuído à família sua imagem contemplando o Velho Chico. Atrás, a letra de Caetano: “Onde eu nasci passa um rio”. Foi a forma como os filhos, esposa e netos encontraram para eternizá-lo, a síntese de todo seu afeto e infinitude.

Pensando em Tio Manoel, na conversa com minha mãe e na minha conexão com o cosmos ao passear pelas águas da Amazônia nesse fim de semana, entendi aí do que somos feitos, o que une nossa família: a liberdade e a leveza das águas.

O rio e o mundo dos ciganos são do tamanho do nosso coração.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

sonho branco

Sonhei que estava em Goiânia e nevava (deve ser meu desejo pelo frio). Eu e toda a cidade íamos pra rua ver os flocos. Uma mulher anunciou que iria chover logo mais. Eu perguntei se a neve, então, iria acabar. Ela disse que não, que já tinha programado a música para a chuva virar neve.

Me ocorreu isso: quando neva, sãos os pingos de chuva numa valsa, vestidos com seus melhores casacos brancos.

Brasília fria

Ô, Brasília...quando eu estava ficando feliz com os dias nublados e friozinhos, você logo vem e me abre esse sol? Deixa o frio um pouco mais, deixa os casacos espreguiçarem fora da gaveta, deixa os pés dos amantes se enroscarem à noitinha, deixa o edredom servir de cabana nas brincadeiras das crianças.

Ô, Brasília! O sol já arde o ano inteiro, queima inclemente...deixa a chuva lavar o concreto, alimentar a terra! Deixa a poeira brincar na água, embotar outros chãos.

Brinca você, Brasília, de ter outro rosto: deixa o vento frio te corar a face!

don de fluir

Desapegar, deixar coisas pra trás, deixar vir, deixar sair, ser a própria noite silente no deserto (e tão cheia de sons, subterrâneos, ventos...!)

Ouve: lá passa o tempo, sem que nos roube nada - apenas passa e se vai.