segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A vida em Manila # 3 - Uma alérgica nas Filipinas

Quem me conhece sabe: sofro com rinite alérgica desde que nasci. Lá se vão 30 anos de todo o tipo de tratamento, incluindo alopatia, homeopatia, vacinas em forma de injeção, loratadina, desloratadina, nebulizador, sterilair e por aí caminha meu brainstorm alérgico. Minha vida, portanto, sempre foi cheia de "cuidados", qual o Thomas J., do Meu Primeiro Amor.

Se viajava e ficava hospedada numa pousada mais rústica, logo o nariz começava a coçar loucamente, o olho lacrimejava e tinha início a sessão de espirros intermináveis. Tudo me sensibilizava: mofo, poeira, lençol um pouco mais antigo, jornal, mosquiteiros, carpete, pelo de gato, perfume floral, mudança de temperatura. Mudar de ambiente, por sinal, era sempre tenso. Era sair da sombra e ir pro sol para começar a espirrar. Já cheguei a parar o caro no acostamento para ter minha sessão de espirros em segurança.

Na infância, a lembrança que tenho é a da minha mãe dando como primeiras instruções para as diaristas: tirar a poeira do quarto da Dany. Não sei dizer em que momento a coisa começou a melhorar. Acho que foi na vida adulta mesmo, saindo de casa, quando a gente começa a não conseguir limpar tudo com o mesmo cuidado de mãe, risos. Acho que meu organismo teve que criar vergonha na cara na marra. Aí resolvi barbarizar e arrumei dois gatos. Numa kit. O primeiro mês foi o inferno. Tomei Desalex todo santo dia, até que um dia eu melhorei.

Brinco que apostei na medicina medieval de insistir no contato até o organismo parar de entrar em colapso. Mas claro que busquei outras coisas. Fiz, por exemplo, a cirurgia de desvio de septo, que melhorou bastante minha respiração, sobre a qual eu já falei aqui. Não foi só esperar a cura cair do céu.

Tudo estava lindo, até eu me mudar para as Filipinas. O combo poluição + ar condicionado me nocauteou. Aqui faz muito calor e todo lugar tem ar condicionado sapecando no máximo. Ou mínimo. Sei lá. Só sei que você sai de um bafo de calor na rua e entra no Pólo Norte a cada ambiente interno em que resolva entrar. O ar é onipresente, inclusive em casa. Às vezes, só é possível dormir com o bicho ligado. E aí, sem perceber, comecei a desenvolver uma alergia sobrenatural nesses dois meses aqui.

A primeira crise na Ásia

No início, parecia uma gripe com muita irritação na garganta e tosse. Só que a suposta gripe não ia embora nunca e eu passei a desconfiar que a rinite poderia estar de volta. Diante dessa suspeita, o que fazer? Tomar antialérgico na gravidez me parecia um sacrilégio. Resolvi, antes, tentar a vida sem ar condicionado (eu já desconfiava que ele fosse o vilão).

Capitulei no primeiro dia. Quer dizer, na primeira noite. Dormi com a janela aberta e fui atacada por pernilongos asiáticos indóceis. E, eu asseguro, eles são da pior espécie. Deve ter sido a noite mais mal dormida dos últimos tempos. Tive de escolher entre morrer de calor ou devorada pelos mosquitos. Como também tenho alergia a picada de pernilongo, fechei a porta da varanda e escolhi morrer de calor.

Mas é claro que a coisa sempre pode ficar pior: um pernilongo maledetto ficou preso no quarto e, só de raiva, não parou de zumbizar no meu ouvido. A solução, no desespero, foi cobrir meu corpo todo, inclusive a cabeça. No calor de rachar sem ar condicionado, lá estava eu, feito uma múmia, toda enrolada a me proteger no pernilongo. E tossindo. E espirrando. João, é claro, já havia ido dormir no outro quarto há muito tempo, que ele não é besta.

Acordei decidida a marcar uma consulta com a obstetra. Eu precisava de ajuda. Ela me examinou e disse que tinha toda a cara de ser mesmo uma crise alérgica. Começou a preencher o receituário e, de repente, eu reconheci: loratadine! Não contive meu sorriso. Ela não só estava permitindo que eu tomasse remédio, como estava indicando o que eu já conheço e sei que funciona! Perguntei se era seguro para o bebê e ela disse que sim, que era um remédio baby friendly.

Bom, acho que nenhum remédio deve ser 100% baby friendly, mas a gente precisa deixar os radicalismos de lado e pensar no que é melhor. Eu já estava há mais de duas semanas sofrendo, sem querer tomar remédio. Havia chegado no meu limite. Acho que meu filho prefere me ver bem e feliz, dormindo bem, de bom humor, do que tossindo e espirrando o dia todo.

Vi que não adiantaria brigar com todo o sistema de ar condicionado das Filipinas e resolvi aceitar a medicação. Combinei com a médica de fazermos o teste por uma semana. Se os sintomas sumirem, teremos certeza de que é realmente só uma crise alérgica.

Tudo isso me faz pensar que o processo de se mudar, além de toda a questão emocional/cultural da adaptação, envolve também a parte corporal, fisiológica. Adaptar o corpo a novos ares, novos hábitos, adquirir outros anticorpos. O processo é muito mais complexo do que a gente imagina. A regência do verbo diz muito. Não é "mudar", apenas. É "se mudar". Mudar a si mesmo, o tempo todo, diante do contato com o outro - seja o outro um espaço ou uma pessoa.

Penso que fazer isso grávida é duplamente desafiador. Amplia a outridade. Enquanto espero o almoço no restaurante que fica dentro do hospital, peço desculpas ao meu filhote por não ser valente o suficiente para aguentar sem remédios. Depois penso que valentia é encarar esse duplo twist carpado cultural com ele na barriga. Você já nascerá sob este signo, meu gatinho. O da tolerância e dos mergulhos no desconhecido. Para além do grande mergulho que já é nascer.

Penso sempre em você, a cada segundo do meu dia. Agora vou deixar o café onde escrevo essas linhas para fazer um ultrassom e ver sua carinha. Dra. Henson, toda vez que escuta seu coração, diz que você é um bebê muito alegre. Eu sinto gratidão por você manter sua alegria mesmo quando eu estou um caco. Sinto gratidão simplesmente porque você existe!

Vamos nos curar da alergia, porque cada tosse deve ser um terremoto aí para você. E eu quero você bem bonitinho e faceiro!

Amo você, coisa miúda!


2 comentários:

De disse...

Emocionante!

Carol Soares disse...

E eu que já amo essa coisinha que nem dentro de mim tá e a milhas de distância? faz como? Kd skype pra eu te ver????

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