quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

se segura, mallandro!

Cheguei em casa outro dia e minha mãe estava assistindo a um filme no Canal Brasil. O visual anos 80 me chamou a atenção e eu resolvi sentar pra ver do que se tratava: Garota Dourada, dirigido pelo Antônio Calmon. Logo nas primeiras cenas apareceu o Sérgio Mallandro como um rock star, figurino meio Elvis. Eis que o seguinte diálogo surreal se trava:

Mãe: Ué, o Sérgio Mallandro era cantor também?
Eu: Acho que era...ele cantava aquela música do capeta em forma de guri.
Mãe: Ah, tá. Achei que ele fosse só malandro mesmo.
Eu: Como assim?
Mãe: Ele não era palhaço, minha filha? Só lembro dele fazendo aquelas malandragens...

Malandragem=glu glu?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Contradições de uma cidade nova I - O Galinho

Quem mora em Brasília deve estar acompanhando, há um tempo, a polêmica em torno do desfile (ou não) do Galinho. Para os que não sabem que diabo de galo é esse que desfila, trata-se do Galinho de Brasília, versão local do Galo da Madrugada, de Recife. Trocando em miúdos: um bloco de frevo que pulsa, desde que eu me entendo por gente, na comercial da 203/204 Sul. Desde criança eu vou lá com minha mãe brincar carnaval. Lembro como hoje a minha primeira sombrinha de frevo, o encantamento diante das passistas, a camiseta azul com o desenho do Galinho de 1995, que até hoje resiste no fundo de uma gaveta...lembro-me de quando a gente saia da frevança e subia para o Pizzaiolo, para comer no fim da noite. Isso quando o Pizzaiolo ainda era uma pizzaria meio boteco ali na esquina da 312. Pois. Eu ficava do lado de fora, tentando lembrar de cabeça como as passistas dançavam. Ficava ali, insistentemente tentando fazer uma tesoura. Até que eu consegui.

Anos depois, já adulta, resolvi correr atrás dessas imagens de infância e fui fazer aula de frevo. A primeira aula foi fantástica: era como se eu já soubesse fazer os passos, como se o registro deles já morasse em mim de alguma forma. Coisas que talvez seu Jung explique. É forte isso pra mim porque eu sempre fui muito indisciplinada em questões de esporte. Já tentei natação, basquete, jazz, dança do ventre, ritmos, hidroginástica, kung fu, tai chi, etc, etc. E o frevo, quem diria, foi o único em que eu fiquei. Fiquei porque ele já estava em mim, sempre esteve, acredito muito nisso. Já são mais de cinco anos frevando. Não sou nenhuma passista pernambucana, vá lá, mas o que importa é que, quando danço, eu me sinto 100% conectada com alguma coisa muito forte e antiga, talvez aquilo que chamamos alma (continua...)

Contradições de uma cidade nova I - O Galinho

Ano passado, saí para frevar no Galinho, como de costume. Pra minha surpresa, quando estava voltando pra casa, passei por uma confusão entre policiais e foliões na 203/204. Com tiro, fumaça, garrafas quebradas, helicópteros e tudo. Parecia cena de guerra. Tudo porque, depois de um certo horário, os moradores da quadra exigiram que os foliões que insistiam em ficar lá depois da saída do Galo fossem embora. Eles não quiseram ir, a polícia usou métodos que a gente conhece, o povo retrucou com métodos que a gente também conhece, e aí já viu.

Esse ano, os moradores encasquetaram que o Galinho não poderia passar por lá de jeito nenhum. Disseram que incita a baderna. Depois de muita negociação e do Galinho ameaçar não desfilar em protesto, chegou-se a um acordo: o Galinho vai se concentrar em outro canto, mas poderá passar pela quadra (em intervalo não superior a 1 hora, cronometrado) e terão que cumprir uma série de exigências da vizinhança. Li hoje no Correio a argumentação de um morador, que dá sinais dessas exigências:

"Não queremos ambulantes, casais e conversas debaixo dos blocos, nem que foliões possam estacionar nas quadras. E se eles não respeitarem o tempo de passagem, o bloco não poderá passar nunca mais por aqui".

Eu fico triste toda vez em que escuto autoritarismos como esse. Triste mesmo, de coração cortado com o que querem fazer de Brasília. A cidade é nova e luta para manter suas poucas tradições culturais construídas por aqueles que se identificam com a cidade, que se sentem brasilienses. Como eu, filha de uma baiana com um paulista. Minha mãe sempre me levou para o Beirute, para o Psiu, para o Arabesque. Sei o que é comer pastel com caldo de cana na rodoviária, o que significa uma prosaica pizza "sabor único" da Dom Bosco. Entendo, intuitivamente desde criança, o simbolismo da passagem do Galinho pela superquadra - para quem não mora aqui, há mini-subidas na tesourinha que fazem o folião se sentir nas ladeiras de Olinda...

Mas que valor têm todas essas coisas para uma pessoa que dá uma declaração como aquela ali de cima? Nenhum. Deve ser uma pessoa que se sinta muito à vontade morando num caixote numa cidade cartesiana, de siglas e números, com a ordem intacta. A essa pessoa, eu digo: a cidade não pode ser só isso!!! O que torna uma cidade única é a vida que pulsa de suas ruas, de seus foliões, de sua desordem. Brasília precisa se abrir para isso. Precisamos sim de pontos de encontro arborizados, de coretos em que múltiplos olhares possam brincar juntos, e não de uma Praça da Soberania com museu dos presidentes e estrutura de concreto, morta, no meio da Esplanada. Precisamos do Galinho de Brasília e das cores que resistem aqui no carnaval, já tão sem graça.

Para essa pessoa que deu essa infeliz declaração, eu dou me testemunho: moro em frente ao Libanus, um bar muito movimentado da cidade. Todos os dias, roubam as vagas do meu prédio e eu tenho que estacionar longe e andar, mesmo cansada do trabalho. À noite, muita gente passa conversando alto, gritando, falando besteira. Ah, Sr. Morador da 203, com certeza casais já ficaram embaixo do bloco e já treparam no estacionamento. Muita gente também já fez xixi por ali depois de beber. Isso acontece todos os dias. Muitas vezes eu maldigo os freqüentadores do Libanus, praguejo, xingo, peço para fazerem silêncio. Já passei muita raiva. Mas entendo que faz parte da dinâmica da cidade. Ou será que eu devo exigir um Termo de Ajustamento de Conduta? Devo procurar o Ministério Público, como vocês querem fazer, porque as pessoas conversam embaixo do meu bloco e podem estacionar na minha quadra? Aliás, o senhor me deu uma ideia: podiam fechar a minha quadra para os bebuns de fim de semana! Malditos bebuns!!

Seria tão sensato se todos os moradores de todas as quadras com bares resolvessem fazer isso, não? Acho que ficaria perfeito, aliás. Lei seca, bares fechando à meia-noite (isso se não começarem a te expulsar antes), pardais espalhados a cada 100m, praça de concreto na Esplanada e um Galinho silenciado. Eu prefiro uma cidade que respire. Aos que preferem o panóptico do Foucault, só me resta desejar um pouco de vida.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

cabra safado tem que morrer, já diria o jeremias!

Eu não falei aqui, mas desde o fim do ano passado eu estou de carrinho novo. Meu xodó é um mille way vermelho com cara de "adventure", praticamente um jipinho. Em poucos meses, já enfrentamos chuva no caminho pra chácara, já entramos no mato alto, já pegamos estrada esburacada...eu, que nunca tive lá muita afeição por carros, de repente me vejo toda boba com ele, verificando paranoicamente se está arranhado, querendo deixar sempre arrumadinho, enfim.

Eis que, esses dias, descobri por acaso que o carro estava sem o estepe. Não tenho a menor ideia há quanto tempo. O cara da concessionária disse que recebeu em média umas 15 reclamações do tipo só em janeiro, geralmente com milles e palios. Quem roubou meu estepe foi altamente ninja, coisa de MacGayver mesmo...não havia n-e-n-h-u-m sinal de arrombamento, nadica de nada. Segundo o gerente da concessionária, o malandro enfia um ferrinho pelo capô e abre tranquilamente, como se tivesse puxado a alavanca de dentro. Agora me expliquem, por favor, como alguém pega um estepe e sai andando por aí na cara dura?? O cara só pode estacionar do lado, já na maldade...isso não é coisa de ladrão xulé, não!

O pior de tudo é que eu não tenho ideia de onde foi. Fico refazendo minhas rotas mentalmente, tentando imaginar onde eu poderia ter dado bobeira, num processo de culpa que é inútil. Sim, porque eu poderia ter estacionado só nos lugares ditos super seguros e ainda assim ter sido roubada. Eu poderia checar o estepe com frequência e ainda assim ser surpreendida. Malandro não tem regra, não. Pode ser no estacionamento do shopping ou no do trabalho. Não dá pra saber. Agora que eu vou dançar em pelo menos trezentos legais, prometo verificar o estepe religiosamente depois de sair dos estacionamentos. Mas sintam o paradoxo: a gente é recomendado a entrar no carro e já sair logo, pra não correr o risco de ser abordado num sequestro relâmpago. E agora, com a nova modalidade de furto, também devemos parar, abrir o capô e sair pra olhar o estepe sempre antes de dar partida!

Qual a escolha certa? Sentar e chorar? Chamar o Capitão Nascimento? De resto, a gente já sabe o script: ficamos mais inseguros, investimos mais em alarmes e cadeados, deixamos de estacionar na rua e vamos encher os bolsos dos donos de estacionamentos, enquanto os nossos bolsos são esvaziados com impostos e impostos.

Triste!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

presente do poetinha

Já que o blog andou quase temático esse ano, com meus lutos e perdas todas, divido com vocês aqui um presente que Vinícius de Moraes deixou para mim dentro de um livro verde:

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes. Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

então é natááááááál!

É, amigos, mais um Natal. Chuva em Brasília, pessoas enlouquecidas nas ruas atrás dos últimos presentes, crise econômica, famílias cada vez mais desanimadas com a festa - será só a minha? Não sei se é impressão ou se é a veiêra mesmo, mas sinto que o Natal perdeu muito do poder de mobilização aqui em casa e nas casas de muitos amigos. Aquela coisa de saber a data de montar a árvore, do ritual de tirar a caixa de enfeites da parte mais alta do armário, de pensar na "diagramação" das bolinhas para ficar bonito, de arrumar tudo, organizar amigo oculto, fazer adivinhaçõezinhas para ninguém descobrir quem havíamos tirado...enfim. Sinto que muito disso se perdeu.

Hoje a árvore aqui de casa é um vaso de comigo-ninguém-pode, poderosérrimo, todo enfeitado com luzes. Os presentes estão no chão, em volta da "árvore", mas não há n-e-n-h-u-m cartão de Natal junto. Os Correios nem passaram por aqui, a não ser para trazer contas, como faziam com o Vampiro Brasileiro. Muito ouvi coisas do tipo: "tenho de comprar o presente de fulano", antes da pessoa se lançar em uma cruzada nas ruas para voltar com "um presente", e não "o-presente-a-cara-do-presenteado".

Realmente, acho que a festa se voltou toda para a questão dos presentes e muito do ritual está se perdendo. E olha que, não vou mentir, eu gosto um bocado do ritual. Preciso dele para construir o sentido do Natal pra mim! Então fica combinado que eu vou desligar o computador e ler um livro comendo nozes com guaraná com o friozinho entrando na casa, como foi sempre! :)

Ah, sim! Eu estava prestes a escrever aqui o último e e grande sinal desse desânimo - o CD de Natal da Simone nem tocou! - quando minha mãe entra no quarto bradando: "Cadê meu CD? Onde você escondeu?". Esconder disco da Simone, eeeu?? Não sei de nada! Se escondi mesmo, foi há muitos anos e eu nem lembro onde! Thanks Santa Claus!

terça-feira, 24 de junho de 2008

apontamentos para a fotografia da saudade

Hoje discutimos o conto A Aventura de um Fotógrafo, do Calvino, que está no livro Os Amores Difíceis. Fala, essencialmente, sobre a fotografia e a vontade de fixar tudo, de reter para sempre na memória um traço passageiro por essência, de esgrimar com o tempo portando lentes e caixas escuras. Enquadros. A ponte era a história de Antonino Paraggi e seu fetiche por tornar válidos apenas os instantes fotografáveis da vida - ou fotografar todos os instantes, para que todos se tornassem válidos, um diário fiel de si mesmo e do mundo. Loucura ou estupidez?

Revi agora no arquivo do meu computador, aqui no trabalho, uma foto da Mel. Minha cachorrinha linda, que passou dez anos maravilhosos junto comigo. A Mel se foi em fevereiro e eu penso nela todos os dias. Não por querer mantê-la de forma egoísta na nossa companhia, mas pela saudade, por tudo o que eu vejo nos olhinhos dela e que nenhuma imagem do mundo poderia reter.

Fotografar a ausência da Melanie seria apontar minha objetiva para o tapete da sala (aquele canto exato, aquele ângulo de deitar), para o chão da cozinha perto do cesto de frutas, para a caminha embaixo da mesa (o "QG"). Seria fotografar o sorriso dela quando eu chegava do trabalho, mais os três sapateados com a patinha e o leve caminhar para trás, diante da porta. Congelar no tempo minhas mãos sobre o topete de poodle maluca, congelar o carinho dela nas minhas mãos, os olhares de dona absoluta da casa.

Eu fotografo a ausência da Mel todos os dias, em silêncio, sem mediações. Estupidez, loucura, saudade infinita. Meses se passaram e eu continuo a mesma criança diante da morte, um choro silencioso que por vezes se perde entre livros e escritas e angústias, mas que quando reencontro é como se tivesse passado o tempo todo em choro contínuo. Por dentro.

Fotografar o invisível é dar a ver o choro calado das nossas personagens? Chora para a câmera!, pede o diretor. O que é retido é a máscara, persona, a máscara da máscara? Como fotografar a sombra? Enfim, apontamentos para a fotografia da minha saudade. Ou do mundo agora, quando a Mel já é parte do meu olhar. Te amo, minha Melzinha!!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

da poética do cotidiano

Fechada, por tempo indeterminado, para todos os tipos de balanços possíveis.

Cansada dessa correria besta, leituras fordistas em que não se consegue nem parar para ruminar o que se lê, muita informação na cachola sem tempo pra dar algum sentido ou mesmo não-sentido ao caos.

Okêi, fui eu quem procurei essa nova situação, porque eu sou uma maluca que não consegue ficar "parada" mesmo quando já tem 6.10²³ atividades. Então talvez eu devesse só respirar fundo, repetir o mantra "a vida é dura", passar a primeira marcha e caminhar mais um pouquinho. Mas eu não consigo passar de olhos fechados pelo sagrado do mundo. Diminuir essa dimensão no meu cotidiano é diminuir o que quer que se chame de "alma". E sem alma não vai, não mesmo.

O problema é que eu resisto, busco sentido, um melindre talvez, em vez de me mimetizar nas coisas que passam por mim. Falar do corpo do receptor/leitor/fruidor/ator, sentido, experiência estética por uma poética do cotidiano ao mesmo tempo em que se fala dos meios espiral do silêncio métodos de pesquisa lógica em uso reconstruída objetos discurso da perda níveis semânticos adaptação ou diálogo intertextualidades. É preciso um respiro entre tudo isso, um respiro em que se possa ter o tempo de cada imagem, em que se possa viver seus lutos, enterrar seus mortos, elaborar sua saudade, ouvir os sinais do seu corpo que não, não passa inatingível e forte por tudo.

Para tentar escutar tudo isso, ao menos aqui me permito um pouco de silêncio.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

ser, imagens e escrituras

O escritor argentino Manuel Puig disse que, quando menino, seu maior desejo era ser um filme.

Fiquei com essa imagem na cabeça, movimento interessante na cabeça de uma criança encantada diante da plasticidade do "real" na tela.

Ser um filme, eterna passagem congelada do tempo.

terça-feira, 6 de maio de 2008

são paulo, meu amor

De nenhuma viagem se volta.

Estamos sempre voltando para casa.

De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.

Misturo imagens de Juarroz, Heidegger, Raduan Nassar, Calvino. Já nem sei quanto de um existe no outro, tanto...! Voltei de São Paulo ontem, uma curta estada de quatro dias, e transito agora em todos esses quadros. Eterno retorno. Sei que, dessa vez, trouxe a cidade em mim, já me fiz um pouco daquela dureza. Transformo minha linguagem pela transformação das paisagens em mim? Transformo as paisagens pelo meu novo olhar, desencantado para que nasça outro encanto?

Muitas perguntas me ocorreram durante as caminhadas em ruas cinza, chuva, frio, multiplicidade de direções. Porque a placa dentro do metrô, com o itinerário do trem, dessa vez me foi só a placa dentro do metrô. A camada de algum sentido sobreposto a ela pela minha euforia simplesmente não estava mais lá. A estação era uma estação, as ruas eram ruas com a necessidade de uma escolha de caminho, até as distâncias pareceram menores. Me senti como alguém que volta a um lugar da infância e percebe como tudo é menor do que na memória.

É que eu me misturei a São Paulo. Pela primeira vez me vi feita de concreto, chuva, frio, toda a minha ânsia de me impregnar da cidade materializada no meu caminhar sereno. Recebi uma carta em envelope laranjado um dia antes de partir. Meu encanto de quem se vê diante do infinito, ingênuo e apaixonado até, ficou em algum lugar da linha vermelha. Eu precisava entender que a vida também é feita de som e de fúria. Nesse lapso de tempo do envelope laranja, carrego em mim talvez aquilo que buscava de forma tão desajeitada, sem saber. Mas continuo voltando para casa. E, como diz Juarroz, mudando minhas palavras pela roda das mutações.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Bachelard

Logo, toda cultura científica deve começar, como será longamente explicado, por uma catarse intelectual e afetiva.

Gaston Bachelard, em A Formação do Espírito Científico.

Nada como ver, em uma frase, todo o seu processo interior passando feito filme curto. Desapaixonar-se, matar o objeto para afastar-se dele e haver uma nova nascitura, ser o próprio objeto, embeber-se dele, transformar uma garrafa mundana em uma garrafa já Garrafa pelo simples recorte-problema.

E eu querendo viver, estar na poesia, olhar a poesia, estar na própria verticalidade do mundo. Como Jano, entre dois rostos, a vigiar passagens tão antigas de mim. Diante do novo, a reorganização não se faz sem crise. Sigo, um olho para janelas, o outro para o caminho do pensamento científico. O coração ainda pendendo para a ausência de molduras do mundo.

18 dias no Japão

Foram 18 dias de sonho e muitas caminhadas pelo Japão. Começamos por Tokyo, onde ficamos por 4 dias. A ideia era entrarmos em contato com c...