terça-feira, 2 de setembro de 2014

Diário da saudade - Dia 07

Dia 07 - 02/09/14

*Para ler ao som de Swing de Campo Grande, dos Novos Baianos.




Hoje pela manhã nos falamos antes de eu sair para o pilates. Foi uma conversa breve, mas deu para matar um pouco da saudade. Temos nos desencontrado no fuso, não é? Lost in translation. Você ri da minha confusão e me faz rir da minha própria leseira. “Imagina quando for minha vez?”, penso eu. Melhor nem pensar.

Fico feliz em ver que seu organismo já está quase 100% adaptado. Você me disse que já sente sono durante a noite e fome nos horários “certos”. Bom sinal. Só fico chateada pela sua mala, que ainda não chegou. Combinamos que eu vou tentar te ajudar por aqui a resolver tudo. Gosto disso, desse nosso companheirismo. É tão natural: eu me sinto bem quando consigo te ajudar e vice-versa. Não há recompensas. O prêmio é só a satisfação de fazer bem ao outro.

Acho que esta é uma das coisas mais bonitas da nossa história, sabia? Sempre foi assim, desde que você, na nossa primeira semana de namoro, foi comigo até a rodoviária me ajudar a resolver o perrengue do passaporte para o México. Você lembra? O atendente perguntou se eu era sua filha. Eu quase morri de vergonha (e de ódio!), mas você levou tudo com tanta leveza que me restou rir da situação.

Não faltam lembranças do nosso companheirismo: a febre na Bahia, quando você cuidou de mim; a sua reação à vacina maluca, quando você foi lá pra casa e ganhou muito xodó; você comigo na fila do pronto-socorro quando eu torci o pé dançando um frevo apocalíptico. Lendo assim, parece até que somos um casal senil que só vive doente, né?

Mas talvez a imagem mais forte que tenho desta parceria é a sua mudança. Estivemos juntos, o tempo todo, a organizar os objetos, encaixotar, jogar coisas fora, ressignificar tantas outras. Assim fomos por vários dias, em várias viagens até a minha casa carregando coisas, até esvaziar por completo o seu apartamento. Foi um processo exaustivo, mas passamos juntos por tudo – a dor e a delícia.

A delícia vai ser estar aí em breve ao seu lado, exercitando todo esse companheirismo em terras filipinas. Não vejo a hora de chegar. Fico ansiosa imaginando as várias coisas que eu vou querer fazer, explorar, estudar, desvendar. Ao mesmo tempo, me dá ansiedade pensar em algumas coisas que vão ficar, temporariamente, para trás.

Como o carnaval. Vê só: a pessoa pode ficar sem feijão, sem os ipês amarelos, sem tapioca. Mas como é que fica sem carnaval?

Taí, essa é mais uma afinidade nossa das que eu mais gosto: o coração carnavalesco. Penso nisso e abro um sorriso instantâneo. Imagino o Lipe vestido de pirata no seu ombro, enquanto pulamos no Bloco da Tesourinha. Ele vai ter uma mini sombrinha de frevo e vai aprender a dançar. Também vai aprender a bater tambor e a amar as cirandas e os maracatus. Seguiremos nós três por muitos e muitos carnavais. Em Manila, em Brasília, no Rio. Em qualquer lugar.

Porque, onde estivermos, haverá carnaval.

E tenho dito.

Amo você,

Dany



Diário da saudade - Dias 04, 05 e 06

Dias 04, 05 e 06 - Fim de agosto e início de setembro

* Para ler ao som de All things must pass, do George Harrison. 







Agosto acabou e finalmente começa setembro. Esses dois últimos dias do mês passaram de forma confusa na minha cabeça. Acho que estou sofrendo de jet lag junto contigo. Misturo as datas, as horas, não sei se dormimos ou acordamos. Toda uma nova logística é necessária, mas ainda tateio. As melhores horas do dia são quando nos falamos no Skype. E, como foi fim de semana, pudemos falar com calma. Como é bom ouvir você, ver você no vídeo - mesmo que todo pixelado! Percebo que você já está mais ambientado no seu novo habitat. Já passeou, já se molhou com as chuvas da Ásia de Monções, que a gente estuda nas aulas de geografia...já até começou a trabalhar!

Fiquei muito feliz com as novidades e com a sua nomeação. Você merece todo o carinho e reconhecimento, João! Eu e seu filhote ficamos num orgulho danado.

Por falar nele, precisamos te contar que Lipe e eu passamos o domingo quase todo jogando videogame. Sim! Conseguimos instalar o Hi Top Game na casa da Di. Não vejo a hora de ensiná-lo a passar de fase no Super Mario 3. Mas tem que ser o jogo retrô do videogame velho da mamãe. Mamãe só sabe jogar esse. Só fita em que o boneco anda pra frente, pra trás e pula. Apenas isso. Nada de coisa 3D, de hiper-realismo. Ah, serão tempos muito divertidos com o nosso pequeno! Penso nisso e me dá uma saudade absurda de você.

No sábado, fui visitar a tia Julia e todos mandaram mil beijos. Luluca não estava lá, uma pena! Era o fim de semana dela ficar com o pai. Sabe, tenho passado mais tempo ao lado das meninas. Percebo que, nesses momentos de melancolia, estar perto da nossa base faz muito bem. E é isso o que tenho buscado, o amor da família e dos amigos.

Na segunda, voltei pra casa. É preciso enfrentar, não é mesmo? A bagunça, as lembranças suas, a minha solidão temporária. A rosa que eu te dei quando completamos 5 meses juntos já murchou, mas vou aproveitar uma brecha na semana para abastecer a casa de flores. Gosto disso. É uma forma minha de não me desconectar da beleza da vida, mesmo quando triste. Gérberas, astromélias, jasmins...cores para perfumar a casa de parede vermelha.

Esses dias têm sido, certamente, os mais quentes do ano. A umidade chega a 15%. Você se livrou, heim? A paisagem é de aridez, com muitas folhas secas. Mas os ipês estão por toda a cidade, preparando o terreno para a primavera. Acho que essa beleza de florir em meio à seca vai amenizando  o peso com que os dias passam neste calor. Fica difícil respirar, produzir normalmente, mas a graça da contemplação nos lembra que vai passar. All things must pass. 

Te falei em como a consciência desta frase me foi uma cura para a ansiedade crônica, né? Que Rivotril, que nada! Entender e assumir a impermanência foi uma virada de chave. Não querer, a todo custo, ditar o rumo das coisas. Não perder o chão quando tudo parece fora de controle. Porque também isso vai passar.

Percebo que estou repetitiva a falar sobre o tempo. Deve ser porque é a reflexão que me ocupa a alma desde que você viajou. O que é este tempo aqui, sozinha, este interlúdio? Não conseguimos viajar juntos, no mesmo tempo. Procuro compreender o que posso tirar desse aparente desencontro. Enquanto isso, arrumo a casa para o Felipe crescer bonito, entre flores e alegria.

Que o nosso sorriso de orgulho por suas conquistas e por tudo o que você é possa chegar até aí e adoçar o seu dia. Ou noite! Quem se importa a esta altura?

Todo o nosso amor,

Dany













segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Diário da saudade - Dia 03

Dia 03 - 29/08/14

*Para ler ao som de As coisas tão mais lindas, na voz da Cássia Eller.




Hoje, no meu fuso horário, você finalmente chegou a Manila. Após quase dois dias viajando, imagino o quanto você devia estar cansado. Uma lógica mental completamente diferente - quase uma volta completa no globo, no relógio, no organismo. Passei a tarde no trabalho pensando em como deve ter sido a sua chegada. Será que foram te buscar no aeroporto? Será que você achou fácil o hotel? Será que conseguiu comer? Será que conseguiu cochilar? A tarde, definitivamente, foi um momento de “serás”.

Saí do trabalho com aquela falta de rumo típica de quem está triste. A verdade é que eu não queria voltar pra casa e dar de cara com a minha solidão escancarada - as suas coisas ainda estavam por lá, resquícios da correria da mudança, algumas sacolas e objetos que você não quis levar. Tudo, absolutamente tudo, me lembra você. Fico assim, meio sem coragem de começar a organizar o espaço. Sem coragem para tirar você de vista.

Nessa fuga, achei que me faria bem ir ao cinema. Para minha sorte, começou nesta semana o Brasilia International Film Festival, o BIFF. Você me disse uma vez que, mesmo há poucos anos aqui, foi a todas as edições. Tenho certeza de que, caso você ainda não tivesse viajado, lá estaríamos, juntos, acompanhando tudo. Saí do ministério rumo ao Cine Brasília. Assisti a um filme da Letônia chamado Mãe, eu te amo. O diretor, um cara bem novo chamado Janis Nords, estava lá e ficou para o debate no fim da sessão. O filme é bacana. Conta a história de um menino de uns 11 anos bem travesso, uma pestinha que vive aprontando na escola e levando anotações na agenda. Ele começa a mentir para encobrir uma dessas anotações e vai se enredando na teia de mentiras, até que tem que cortar um dobrado pra resolver a confusão.

O interessante, pra mim, foi o pano de fundo da relação dele com a mãe. São só os dois. O pai não aparece, sequer é mencionado. Eles - o menino e ela - vivem num paradoxo de muita proximidade (são só os dois numa casa pequena) e, ao mesmo tempo, muita distância. Os diálogos às vezes parecem protocolares. Como foi o dia na escola? Bom. Ok. A mesma coisa de sempre. Levou anotações? Não. Que bom. Continue assim. Beijo na testa e a vida continua, cada um seguindo seu rumo. Interessante pensar no quanto as atitudes da mãe influenciam as atitudes do garoto. No fim, um jogo de espelhos.

Saí de lá empolgada, mas pensando em como eu queria que você estivesse comigo. As coisas lindas são mais lindas quando você está. Essa música faz todo o sentido do mundo. A vida continua por aqui, mas falta um bocadinho de cor. Os ipês amarelos estão cada dia mais deslumbrantes, mas eu gostava mesmo era de discutir com você qual era o ipê mais bonito da cidade! Gostava de rir junto contigo. Como faz falta!

Outro dia, me lembrei de alguma besteira sua enquanto estava esperando para atravessar o sinal. Comecei a gargalhar sozinha. O povo em volta não entendeu nada. E quem disse que eu lembro o que foi? Foi assim, algum lampejo de marmota sua. E isso, esse simples lampejo, me fez rir no meio da rua e esquecer a melancolia. Assim vou indo.

Depois do filme, fui para casa e consegui falar com você pelo Skype. Era manhã de sábado aí e você estava bem cansado. Contou que o café da manhã era esquisito e que sua mala foi extraviada - justamente a que tinha chinelo e tênis - e que você estava de sapato social em pleno fim de semana. Dei uma de Bandido da Luz Vermelha e mandei um “quem estiver de sapato não sobra!”, mas você não riu da minha piada boba. Senti que você queria sair logo para comprar um chinelo, dar uma volta, reconhecer o terreno. Tudo te agoniava.

Nos despedimos e eu fui dormir. Com o pensamento firme no fato de que, quando eu acordasse, seria noite aí e você já estaria mais calmo. Eu, que sou super coruja, me senti como uma criança em véspera de Natal: querendo dormir logo pro tempo passar e logo já ser amanhã.

(na verdade, eu queria fechar os olhos e acordar em outubro)

O tempo, João. O tempo! O tempo vai fazer seu cansaço passar, sua mala chegar, você se acostumar com o café da manhã, seu organismo se adaptar ao fuso. Vai fazer os ipês de Brasília florescerem, os dias mais secos do ano ficarem pra trás, a chuva chegar, o Lipe crescer, setembro voar.

Oxalá!

Amo você, bem muito,
Dany.



P.s.: A tela aqui de cima é de um cara super talentoso, o Rodrigo Nardotto. Ele tem vários quadros que são a cara de Brasília. Guarda esse ipê com você, pra matar a saudade :)

domingo, 31 de agosto de 2014

Diário da saudade - Dia 02

Dia 02 - 28/08/14

*Para ler ao som de Minhas Lágrimas, do Caetano Veloso, e depois Here Comes The Sun, na voz da Nina Simone.








Primeiro dia sem você aqui. Tive muita dificuldade para dormir só de imaginar você 15 horas dentro de um avião sobrevoando o oceano na madrugada escura. Eu sou paranóica com aviões, eu sei. Falamos sobre isso na primeira vez em que saímos, lembra? Eu te contei que fiquei com trauma depois de cobrir a queda do avião da Gol quando fazia estágio na Globo. Lembro de ter desembestado a falar de grooving na pista, reverso pinado, tubos de pitot e outros detalhes que devem ter feito eu parecer uma doida aos seus olhos. Mas você resistiu. Lembro de você falar com doçura que voar, para você, era muito tranquilo. Então tentei ficar tranquila também, o que só aconteceu, de fato, depois que você mandou a primeira mensagem do aeroporto de Doha.

Acordei cedo sem a ajuda do despertador. Acho que o convívio com você tem me dado esse condicionamento - logo eu, que sempre odiei as manhãs e que acordava ao meio-dia se deixassem. Fiquei um longo tempo ainda na cama, sem energia para levantar. O sentimento era de uma falta de motivação tremenda. Tristeza mesmo. Olhei em volta, fiz uma festinha sem graça com o Orfeu e voltei a fechar os olhos.

Me senti como o Caetano Veloso na música: nada serve de chão onde caiam minhas lágrimas.

Uns desertos ilhados por um Pacífico turvo. Todas as imagens dessa música me cabiam. Todas cabiam em mim. Foi quase uma hora em que fiquei deitada, pensando, pensando, acarinhando a tristeza em vez de brigar com ela. Soledad, aqui están mis credenciales - como naquela outra música, do Drexler.

Foi assim, entre músicas e recuerdos, que vi um filete de sol ultrapassar a barreira da cortina. O quarto estava ainda bastante escuro, eu havia fechado todo o blackout, mas o sol já impunha sua força. Pensei imediatamente em como você, para mim, é associado ao Sol - com maiúscula mesmo. O cara que gosta de acordar cedo para correr, de caminhar no Eixão, de pegar praia, de ir para a rua... para a vida!

O Sol, João, representa toda essa sua energia yang, para mim. Alegre, divertido, luminoso. E então, guiada por esse insight, resolvi sair do mergulho lunar em que eu estava. Achei que você ficaria feliz vendo que eu e Lipe fomos para o Sol. Abri a cortina, deixei a luz entrar, tomei um café da manhã cheio de frutas e, pasme, fui malhar. É isso mesmo que você leu: ma-lhar. De manhã. Dá pra acreditar?

Percebi que o melhor antídoto para a melancolia é me aproximar das imagens que me são você.

Feito o Sol.

Ao lado dele, seguimos.





sábado, 30 de agosto de 2014

Diário da saudade - Dia 01






Dia 01 - 27/08/14

*Para ler ao som de Mother, John Lennon.

Pela manhã, te ajudei com as malas e os últimos preparativos para a viagem. De tarde fui trabalhar e tentei mergulhar nas demandas de imprensa para não pensar que, dali a algumas horas, eu precisaria me despedir de você. Fomos juntos até o aeroporto. Você falava sobre sua ansiedade e também sobre a coragem necessária para ir até o outro lado do mundo. Eu ouvia tudo do banco do carona, fazia sinal com a cabeça de que sim, você é muito corajoso, e mais corajosos somos nós dois juntos de irmos dar à luz nosso filhote nas Filipinas.

Serão dois meses até irmos te encontrar. Eu pensava nisso o tempo todo, mas evitava verbalizar para não transparecer minha tristeza adiantada. Vamos falar das coisas boas, das novidades que você vai ver, do trabalho, das pessoas, das paisagens! Ah, não adiantou. Você me conhece muito bem. Eu tentei disfarçar o choro enquanto via você tomar o Manhattan mais mal servido da sua vida no bar do aeroporto. Eu e Lipe não podemos beber, você sabe. Então ficamos ali, olhando você, sua ansiedade, sua preocupação em baixar as últimas músicas e carregar o telefone. Eu não podia me mexer direito, porque encostava o pé na tomada e dava mal contato. Você ficava bravo. Eu entendia: não é comigo; ele também está sofrendo, e essa é a maneira dele de botar pra fora. Sempre foi assim, não foi? Eu choro, canceriana que sou. Você explode, tão escorpiano. Aprendi a ter leveza nessa dança.

Tentei disfarçar o choro e tiramos uma última foto juntos antes de você embarcar. Faltavam 15 minutos. Você me beijou com saudade, com tristeza, com amor, com coragem, com sede de pertencermos juntos ao desconhecido. Nos levantamos e seguimos até o seu portão de embarque. Um silêncio cheio de palavras, essas coisas que falamos para encobrir os momentos em que só um abraço bastaria. Caminhamos. É, havia chegado a hora.

Você me disse para eu ficar bem e cuidar do nosso filho. “Cuida do meu filho”: foi exatamente o que você me disse. Você me abraçou e disse que logo estaríamos juntos, que você ia na frente para preparar o terreno para nós e que seríamos, nós três, muito felizes lá. Você pediu que eu prometesse que seríamos felizes. Eu, que quase não gosto de prometer nada, prometi.

Sempre acho que as promessas são um peso, porque o mundo é cheio de mistérios e parece uma prepotência prometer porque nada está totalmente sob o nosso controle.

Mas, ali, percebi: a beleza da promessa não é ter a garantia, mas empenhar todo o nosso desejo para que algo aconteça. Prometer é dizer: no que depender de mim, eu farei tudo para que isso aconteça.

Então prometemos, juntos, que seremos muito felizes em Manila.

Que assim seja, João.

Você respirou fundo, me deu um último beijo, um até daqui a pouco, entregou o bilhete para o rapaz do embarque e seguiu sem olhar pra trás. Quando você dobrou a esquina e saiu do meu campo de visão, não aguentei e chorei tudo o que estava guardado. Eu, a soluçar no aeroporto numa quarta-feira à noite, entre tantas chegadas e partidas. Senti vergonha por estar com o rosto totalmente inchado a esta altura. Aí me lembrei do que a Cristina me diria: deixa vir.

Minha tristeza era tanta naquele momento que virou uma dor física, aquele tal aperto no peito que nos acompanha nessas horas. Em vez de tentar controlar, resolvi me conectar a essa dor e comecei a olhar em volta. Não, não havia só pessoas segurando o choro no aeroporto. Em vários cantos vi pessoas com os olhos cheios de lágrimas. Sentadas num café com os olhos distantes, em pé na fila do estacionamento, ganhando um abraço de algum familiar. Lá estavam elas, as pessoas que ficam, lidando com sua saudade. Um aeroporto é mesmo um lugar peculiar: lá cabe a euforia da chegada e o coração apertado da partida.

E somos, afinal, feitos desses dois extremos. Conhecemos os dois estados, humanos que somos. O bom de sentir a tristeza é saber que ela passa e que a alegria do reencontro há de ser a próxima parada.

Até daqui a pouco, meu amor.

Infinito e além,

Dany

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Meditação diante do mar



As palavras têm sentido quando nos habitam.

Pensamento que me veio com a brisa do mar da Bahia, na chegada de carro até Trancoso. Sentada em frente ao mar, escrevi assim:

Por que eu voltei a Trancoso querendo encontrar o mar da minha infância? A mesma cor, as mesmas ondas (a mesma onda que eu furava com a minha mãe e não tinha medo). Só que a cor é outra. O mar é mexido. As ondas fazem outro movimento. Menos doce, mais agitado. E eu me agito junto porque esta não é a Trancoso que eu procurava. Falta o sol; falta a cachorra Xuxa correndo atrás dos caranguejos que se escondiam na areia; falta a ponte que era a travessia da casa para o infinito.

A ponte passava sobre o mangue. O mangue era feio e sujo, mas era passagem necessária, diária.

Certa vez, a chave do vizinho caiu dentro do mangue. O Raizero, que trabalhava na pousada, teve que mergulhar para procurar. Um homem na lama não em procura de caranguejos, mas de uma chave que não era dele.

Que é isso, procurar uma chave na sujeira infinita e pastosa do mangue? Que me foi isso?

O mangue é sujo ou é o ecossistema mais puro e sujo somos nós? Que não damos conta da travessia (a ponte!) e temos que deixar cair sobre ela a chave da nossa alma? Eu ia escrever "alma" e duvidei da palavra. Casa e alma se me confundem.

Diante do mar, vou perdendo o medo do ridículo, de baixar a guarda e, por um segundo, fazer uma escolha errada que vai me expor ao pra sempre do ridículo.  Um gesto, uma fala, um riso sem medida de uma coisa sem graça mas que pra mim é engraçada e eu posso rir mesmo que ninguém ria.

Eu senti falta da Trancoso da minha infância e me sentei de frente ao mar para meditar. Meus pés doeram, não encontrei conforto para minhas memórias tão caras e, então, resolvi escrever.

Ao fim desta página, percebo que meditei mais do que se tivesse apenas meditado como acho que devo achar que é meditar.

Chove. As palavras começam a borrar. Penso em levantar e voltar para o seco, o protegido. Mas também penso que é disso que estou falando aqui e pra onde esta meditação me chamou:

Deixar borrar

Então fico.




segunda-feira, 16 de junho de 2014

em todo canto do mundo há alguém a chorar

Enquanto estou aqui em Brasília, tomando meu Nespresso sabor baunilha, há uma mulher trancada no quarto em Bangladesh lamentando uma escolha errada e incurável. Em Santorini, um jovem olha as casas cobertas de sol e pensa no movimento dos barcos. Assim em Canoa Quebrada e também no branco de Punta Ballena, esse branco que por vezes encobre o que parece felicidade mas é quase uma fuga.

Em Argel, uma moça mergulhou na banheira até sumir de si mesma. A carta, que ela pensou nunca chegar, aportou dois dias depois debaixo de sua porta. Em Bucareste, sei de uma senhora que, cansada dos dias, resolveu colocar sua melhor saia e sair em busca dos sons mais antigos que ouvisse.

No Iraque, uma jovem se apaixona por um soldado mas já não importa porque ele vai embora e a cidade está em ruínas e há tantas forças e tantos lados que já não vale mais a pena sonhar um sonho que morre. Na Asa Norte, uma mulher em construção toma um café na janela ao lado de dois gatos enquanto pensa que a vida não tem rascunho. Ela corta o seu braço pra raiva passar e os machucados abertos lhe mostram que não há fundura que dê conta da nossa imperfeição. No Tennessee, um adolescente magro chora no banheiro enquanto o barulho da água abafa sua inadaptação.

Somos todos inadaptados ao mundo onde não se pode errar. Em todo canto do mundo, há alguém a chorar.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Eles voltam

J.,

Estou aqui no trabalho pensando em como aquele filme pernambucano - Eles Voltam - ficou ecoando em mim. Em geral, me tocam as obras que falam das jornadas alma adentro, esses caminhos que se fazem ao caminhar. E me parece assim a jornada da Cris, que saiu do condomínio fechado na Recife de classe média alta, de um colégio cheio de grupinhos fechados, de uma família com pensamentos fechados, para cair na aventura da estrada.

A estrada é sempre uma bela metáfora, poderosa, não é? Gosto de todas as figuras arquetípicas que falam da estrada. Hermes. Exu. Os mensageiros. Porque nas asas que movimentam os pés reside a coragem de pertencer ao desconhecido.

Aí damos de cara com a Cris, enclausurada no Ipod, desconfiada, sem querer muito contato com o que lhe é diferente. Confesso que demorei a ter por ela alguma empatia. Acho que só aconteceu quando ela se sentou à beira da praia com a outra adolescente e trocou algumas ideias de forma mais desarmada. Mas, sobretudo, comecei a ter empatia por ela quando ela se deslocou. Vejo que este deslocamento aconteceu na cena em que ela vê o sexo despudorado do casal na piscina da casa. Ela não foge. Ela quer ver o que não quer ver. Lembra de como ela tinha um quase sorriso, um quase prazer? Um quase, não. Um prazer.

Houve uma cena em que ela mergulhou na piscina e a água ainda era um grande útero. Mais ao fim do filme, ela não mais mergulha. Ela boia. É que já nasceu. E agora está acima das águas, um outro organismo.

Não mais ela sendo o mundo. Mas sendo ela e o mundo, exterior.

Gostei de ver o nascimento desta menina, tão próxima de nós. Como nós tivemos que nascer, em algum momento. Em tantos momentos, e ainda nascemos, a cada dia. Um eterno e constante separarmo-nos.

Você se lembra de algum dia em que você nasceu?

Entre essas perguntas todas, me lembrei deste poema do grego Kaváfis. Um clichê até para falar das jornadas de autoconhecimento:

ÍTACA 
Konstantinos Kaváfis
(Trad. Haroldo de Campos)
Quando , de volta , viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os sucitar diante de si.
Roga que sua rota seja longa,
que, mútiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar sua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.



Assim é que vejo o filme: um grande caminho para Ítaca. Minimalista, sem grandes arroubos de estilo. Abusa dos planos longos, é bem verdade. No começo, isso me irritou. Mas agora penso que faz parte do olhar da protagonista, deste vagar que era estar ainda tateando outros lugares de estar.

A carta era pra compartilhar contigo as impressões.

A vida é pra compartilhar contigo os caminhos. As Ítacas.


Amor, 


D.

Florbela

Às vezes penso que gostaria de morrer para renascer outra. Mas a verdade é que a gente nunca renasce, por mais que existam as grandes e profundas transformações. Carregamos sempre a condição de sermos aquilo que somos. Morremos, mas continuamos sempre um pouco dos mesmos. Há algo de dor que nunca se vai. Este é o grande peso a carregar. Como Sísifo com sua pedra, a rolar, a rolar, eternamente. Prisão perpétua.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Querô


Não entendo de análise literária, mas Querô, do Plínio Marcos, tem uma estrutura super interessante. Fiquei pensando em termos de montagem cinematográfica não-linear o tempo todo.

Dá vontade de jogar a peça numa timeline do Premiere e ir montando os planos. Na verdade, Querô já vem montado numa ordem delírica. Nesse sentido, achei o texto mais radical que o outro que li dele, O Abajur Lilás.

Gosto também das imagens que Plínio Marcos nos apresenta nas rubricas. Por exemplo, quando descreve as personagens cercando Querô "num grande balé obsessor". Que imagem mais bela e forte! Quanto de vida cabe neste "balé"...!

Por fim, me arrebata o texto terminar com uma repetição da fala do Repórter. Pungente, em tempos de justiceiros:

"Era de tardezinha, quando os homens, com suas armas, encontraram o Querô. Mas já não era necessário despejarem o veneno de suas metralhadoras no corpo inanimado. Querô já estava caído pra sempre. Assim mesmo, despejaram ódios no pequeno bandido. E ele ficou lá caído para sempre. Ou caído até o dia em que, animado pela virilidade espiritual transformadora, ele e outros como ele se ergam das cinzas onde se sufocam, das chamas onde se ardem, das fomes onde se desesperam, dos cubículos onde são empilhados, espremidos, esmagados de corpo e alma, nos sórdidos recantos onde se degeneram e venham cobrar de nós, cidadãos contribuintes, as ofensas todas que em nome de nossos tesouros, de nossos privilégios, de nosso conforto, fizemos à dignidade humana".

domingo, 26 de janeiro de 2014

Epifania - ou reflexões sobre ansiedade, pânico e o medo da morte

Era como se eu estivesse fora do meu corpo, fora da realidade como a conhecemos. Era isso: eu estava em estado bruto, antes da linguagem - uma super consciência do mundo. De repente entendi tudo, a essência das coisas, e ficou claro que tudo se resume à oposição entre viver e morrer. E eis que voltei ao  momento do meu nascimento. Eu nasci. Eu nasço. Mas sabendo que morreria em instantes. Ou eu já estava morta? Morta e não vi? Morta e nasci.

Eu habitava o espaço entre uma coisa e outra, um lugar tão tênue que era entre a linguagem. E, num momento, desaprendi a falar. Inventei uma nova língua, feita de memórias. E ela me impregnava a pele. Cada sílaba era uma imagem.

Cortar o fio quase invisível que ainda me mantinha presa à vida, um fio que saia da minha nuca (e que era o tecer do tempo). De modo que permanecer viva era exercitar a entrega.

[ Isso tudo foi uma epifania seguida de uma crise de pânico.]

Entendi: é que, quando pareço tocar a totalidade do mundo, tento voltar ao controle.

E não há como voltar ao controle.

Por isso, morro.

O medo de morrer é o medo do prazer que há nesse lugar onde não sabemos, onde não há proteção.

A floresta de Pan. A travessia noturna, solitária. Faunos, sombras, assombros.

O pânico fala de tudo o que nos assusta, mas que é nosso. Vida e morte. Vida e morte. Vida e morte.

A angústia de não conseguir respirar é o medo desse ar, de deixar conter. Eu vou morrer, porque, se eu permanecer viva, não vou dar conta de todo esse conteúdo, dessa vida, desse turbilhão - que sou eu! Então travo, endureço, fecho o caminho do fluir dos ares.

A revelação é que a gente não morre. Só nos resta a vida - a travessia. Caminhos de floresta. Peço licença a esse deus Pan. Teremos que caminhar juntos. Da próxima vez, dançaremos. Com as musas, no equilíbrio entre o terror e a leveza.

18 dias no Japão

Foram 18 dias de sonho e muitas caminhadas pelo Japão. Começamos por Tokyo, onde ficamos por 4 dias. A ideia era entrarmos em contato com c...