terça-feira, 18 de agosto de 2015

A caixinha de música do Filipe

A música é um elemento muito presente na minha relação com o Lipe, desde que ele estava na barriga. Eu sempre lia que era importante conversar com o bebê, mas confesso que achava estranho e, sempre que tentava, batia aquela sensação de estar falando sozinha. Em vez de me sentir culpada, busquei perceber quais eram as nossas formas de conexão, independentemente do que era esperado.

E aí percebi que era a música.

Eu sempre cantei muito para ele. A primeira música que cantei muito quando descobri que estava grávida era Debaixo D' Água, do Arnaldo Antunes, na versão belíssima da Maria Bethânia. Imaginá-lo na minha barriga se formando como um feto, sereno, confortável, amado, completo era algo que me enchia de ternura e me emocionava demais a cada vez que a música tocava. Bom, eu tenho uma história com essa canção há muitos anos. Ela fala à minha alma de quem vive no embate entre o salto no abismo e o que me é protegido. Mas tinha que respirar...todo dia! A música assim me ensinou, e eu fazia questão de frisar esse trecho a cada vez que cantava para o filhote.



Por falar em Arnaldo Antunes, ele foi um dos primeiros arrebatamentos do Lipe. Sim, com apenas uma semana de vida o pequenino já demonstrava o que gostava de ouvir. Um dos discos favoritos dele para a hora de mamar era Qualquer. Embalados pela voz rouca e pela poesia, lá íamos nós madrugada afora, com meu celular do lado fazendo as vezes de caixinha de música. Sempre lembrarei desse álbum com muito carinho. Para mim, ele é sinônimo da construção do nosso vínculo, nós dois ainda desajeitados e nos conhecendo.



No fim da gravidez, me lembro de cantar muito Beautiful Boy, do John Lennon. Essa música me toca por muitos motivos. O mais óbvio é a levada lullaby fofinha, mas essa é só a primeira camada. O que me encanta mesmo é a letra. Acho que, no fundo, eu sempre quis ter um filho só para cantar essa música para ele. Eu cantava para o Lipe e me emocionava por ele ter um pai super presente, que o enchia de amor ainda na barriga. Quando Lennon falava the monster's gone and your daddy is here, eu não conseguia segurar o choro. A música também fala da ansiedade pelo que vai acontecer - e ansiedade era do que eu mais entendia naquela reta final de gravidez.  I can hardly wait to see you come of age but I guess we both just have to be patient 'cause it's a long way to go...! A letra fala da ansiedade, mas dá o antídoto: but in the meantime. Aproveitar o "enquanto isso", o "enquanto ele não nasce", o agora. Afinal - e agora vem o trecho mais incrível e mais certeiro - life is what happens to you while you're busy making other plans! Até hoje canto essa música para o Lipe e ele adora!




Ainda na leva Beatles, gosto de cantar Golden Slumbers na hora de dormir. Golden slumbers fill your eyes/ smiles await you when you rise/ Sleep little darling, do not cry/ I'll sing a lullaby.  Ele vai fechando os olhinhos devagar até adormecer. Beatles versão lullabies, aliás, é trilha obrigatória aqui em casa. Apesar de eu amar a versão original dos Beatles, gosto muito da do Ben Folds, que está na trilha sonora maravilhosa de I am Sam.




Se vocês estão pensando que só tem Beatles e Arnaldo Antunes na setlist do Lipe, estão enganados. Aqui rola muita cantiga de roda. Minha mãe trouxe um disco do Brasil com as cantigas clássicas da nossa infância. A favorita do Lipe nas primeiras semanas foi A Barata. Ele só dormia com essa! João teve que sacar essa música do repertório no primeiro dia em que resolveu descer com Filipe até a cafeteria aqui do lado. Lipe abriu o berreiro...e só a música da barata salvou! Aqui vai a versão do Palavra Cantada, que recomendo fortemente a todos com filhos pequenos - e a todos sem filhos que gostem do universo lúdico, por que não? Essa turma é incrível e ponto.



Depois Lipe enjoou da música da barata e o esquema infalível aqui passou a ser O Galinho. Só que aí começaram a surgir as variações. Eu e João amamos inventar letras em cima das músicas que já existem. Em geral, nada muito criativo...coisas como "O Filipe é bonito", "ele é muito pequenino" e por aí vai. São frases-valise que sempre se encaixam em qualquer letra de criança. Mas às vezes nós nos superamos. Como nesta versão de O Galinho. É que, aqui nas Filipinas, briga de galo é legalizada. E é muito comum as pessoas terem galos para colocá-los para lutar. Além disso, preciso explicar que o traje típico daqui para homens chama-se barong. Daí que a música ficou assim:

Mr. Xun tem um galinho, lalá
Ele é pequenininho, lalá
Mr. Xun lalalá, o galinho, lalá
Galinho Mr.  Xun

Ele usa um baronguinho, lalá
Todo desalinhadinho, lalá
Mr. Xun, lalalá
O galinho, lalá
Galinho Mr. Xun

Ele luta num ringuinho, lalá
E é muito fracotinho, lalá
Mr. Xun, lalalá
O galinho, lalá
Galinho Mr. Xun

Pronto, já registramos nossa pérola para a posteridade. Dever cumprido :P





Filipe é um bebê eclético e as versões vão das cantigas de roda ao reggae de raiz brasileiro. Por isso na hora de trocar a fralda a trilha sonora é Árvore, do Edson Gomes, que ficou assim:

Vem me trocar, mãe!
Vem me trocar!
Vem me trocar, mãe!

Todo santo dia, pois todo dia é santo
E eu...sou um bebê boniiiiiiiiito!
Que precisa ter os seus cuidados

Vem me trocar, mãe!
Vem me trocar!
Vem me trocar, mãe!

P.s.: Essa música tem variações e às vezes é cantada no banho, sob a forma de "vem me banhar, pai!"





Quem me conhece sabe que, quando eu era bebê, eu era ninada pela minha babá (alô, Irene!) ao embalo de Galeguinho dos Zói Azul, do Genival Lacerda. Acho que isso diz muito sobre a minha personalidade, rs. Minha mãe diz que ficava impressionada.  "Como a menina consegue dormir com essa música agitada?", ela se perguntava. Pois é. Eu conseguia. E aí, sem nem perceber, lá está a pessoa aos 31 anos de idade cantando um forró-frevo para Filipe dormir. Pagode Russo, com o mestre Gonzagão!




Daí eu me empolgo e emendo um medley com vários outros frevos e clássicos dos meus carnavais: Voltei, Recife; Vassourinhas; o Hino do Elefante de Olinda; Frevo e Ciranda; Lia de Itamaracá; alguns cocos e maracatus. No auge do baticum é que percebo que são músicas agitadas e que talvez eu devesse estar cantando algo mais calmo. Aí o que eu faço? Em vez de mudar o repertório, mexo no andamento das músicas e canto o frevo assim calminho, baixinho e bem devagarinho até virar canção de ninar.


Para fechar, tem Senhor Cidadão, do Tom Zé, que sempre cantamos na hora de mamar. A letra é bem punk, mas a versão do Lipe ficou assim:

Ó, senhor bebezão!
Eu quero saber, eu quero saber
Com quantos litros de leite
Com quantos litros de leite
Se faz o meu biberão


Inventar músicas e cantar junto com o João para o nosso filho é, sem dúvidas, um dos meus momentos favoritos. São letras que podem não fazer sentido algum para quem está de fora, mas que nos divertem por trazerem vários caquinhos de coisas que vivemos e recolhemos aqui e ali. Por isso são tão especiais! Assim que o Lipe estiver maior, vamos convidá-lo a inventar letras, inventar histórias, inventar o mundo! E assim vamos, juntos, ampliando nossa caixinha de música.




quarta-feira, 25 de março de 2015

Filipe com "i" - o processo

Nota: este texto foi escrito em setembro, como parte do Diário da Saudade - cartas que eu escrevia para o João quando ele já estava nas Filipinas.



*Para ler ouvindo Você é Doida Demais, do Lindomar Castilho.






Amor meu,

Depois que você levantou a lebre de escrevermos o nome do nosso filhote com "i", não consegui mais me desligar disso. Toda a minha natureza obsessiva-compulsiva se manifestou com força total e eu não consegui tirar esse pensamento da cabeça. A cada momento do meu drama, eu me sentia uma personagem de um filme do Almodóvar ou então de um seriado desses bem doidos. Sério, amor. Eu sofri. Sofri simplesmente porque você me tirou da zona de conforto de algo que já estava decidido. Aí começou a via-crucis, um longo processo até eu me acostumar com a nova ideia.

A sensação era a de um cachorro correndo atrás do rabo. Passei esses dois dias escrevendo o nome do pequeno com "i" e com "e" para ver qual batia melhor. Escrevi nos bloquinhos, escrevi no computador, criei até um contato fictício na agenda do meu celular pra visualizar assim com mais realidade. Virei a doida dos nomes.

Pesquisei toda a História. Fui até a Macedônia e outros cantos que nem existem mais no mapa. Como você disse, a origem parece ser mesmo com "i". Até na Bíblia eu fui parar e lá estava: Filipe. Mas algo ainda me arranhava nessa grafia. Passei o dia incomodada, tentando compreender qual era a minha agonia. Por que algo tão banal estava me causando tanta angústia?

Eu escrevia no computador e ficava longos minutos olhando para o monitor. Já sei! É que a palavra pesa mais pra esquerda, sabe, um bloco visual concentrado num canto da palavra. Veja: Filipe. Tudo é vertical. Agora, com Felipe é diferente. Olha como é harmônico. Começa vertical, desce, depois sobre, depois desce. Duas letras "e" quase simétricas, meio que equilibrando a palavra. Fiz todo esse percurso de pensamento para me achar louca logo em seguida. Ainda bem que consigo rir de mim mesma. Palavra pesando mais para um lado? Chega de viagem alucinógena, Danyella, foca no fato histórico. Mas quem disse que eu conseguia?

Resolvi escrever à mão pra ver se passava. Percebi que eu ficava ligeiramente sem ar a cada vez que ia pingar o i. Eu devia estar chegando perto do foco do problema, pensei! Havia de fato algo que me arranhava. Me dei conta de que eu tenho raiva da letra i! Mas por quê?

A conclusão veio ligeira: Danyella com ipsilon e dois eles, essa entidade que vos escreve, passou a vida inteira tendo que soletrar o nome. E vendo meu nome ser escrito com i! A cada vez que alguém escrevia Dani, algo me irritava. Eu só não tinha me dado conta disso ainda. Mas o que me irritava mesmo era o y com pingo. Aí era de lascar. Do tipo: a pessoa escrevia com "i", eu corrigia e aí o remendo era puxar uma perna no "i". Ipsilon com pingo. Criava-se aí um novo alfabeto.

Percebi que minha angústia toda era medo do filhote ter que passar a vida explicando o nome. Dizendo que é Filipe com "i". Você está passando por isso agora, sendo um João com til nas Filipinas, terra onde não existe til. E, somente a partir dessa perspectiva, você sugeriu Filipe com "i". Engraçado, né? No fundo eu e você estamos com a mesma preocupação: a dele ser diferente. Eu, preocupada com a diferença aqui. Você, com a diferença no exterior. É...acho que, de um jeito ou de outro, ele vai ter que explicar.

Mais conformada, passei a tarde hoje acarinhando o seu Filipe com "i". E aí que o incômodo foi se dissipando, até que eu achei bonita a combinação com o seu sobrenome: Filipe Schittini. Assim, bem cheio de "is" e pingos e tudo.

Então podemos afirmar:


Habemus Filipe.


P.s.: agora, depois de todo esse redemoinho mental que tive a falta de vergonha de compartilhar com você, vou ali tomar meu gazpacho com soníferos.

Te amo!

Dany com ipsilon, a Louca.







sábado, 21 de março de 2015

7 de março de 2015 - o dia em que nascemos

Meu filho Filipe nasceu às 8h52 do dia 7 de março de 2015, em Manila, nas Filipinas, após 9 horas de trabalho de parto. Este é quase um lide jornalístico. O quê. Quando. Como. Onde. É que tento me organizar há exatas duas semanas para escrever sobre a experiência do parto e nenhuma palavra me parece exata. Nenhuma linguagem parece dar conta desta experiência que só consigo descrever como espiritual. Ou transcendental. Ou metafísica. Escrevo como quem tateia e percebo que "ou" não se encaixa nesta linguagem. Cabe, sim, dizer "e". Porque o parto é soma, é tudo ao mesmo tempo, são várias nascituras. A do bebê, a da mãe, a do pai, a de uma família.

Lipe tinha algumas datas estimadas para nascer. Pelos cálculos do Brasil, seria dia 5. Pelos cálculos aqui, seria entre dia 9 e dia 11. No dia 6 pela manhã, fui a uma consulta de rotina para monitorar como ele estava na barriga. A médica disse que ele ainda estava um pouco alto e que ainda havia muito líquido. Ou seja: ele aparentemente não tinha pressa para sair de lá. Marcamos a próxima consulta para o dia 11 e ela disse que poderíamos esperar até a 41ª semana sem problemas.

Saí um pouco frustrada e ansiosa porque, afinal, a próxima consulta era depois da última data prevista para o parto. Meu filho ainda demoraria para chegar. Esses últimos dias pareciam passar de forma mais vagarosa que a gravidez inteira.

Fui para casa e, durante a tarde, saí para comprar algumas coisas que ainda faltavam para o enxoval. O que me afligia era não achar uma loja de móveis legais por aqui para encomendar um nicho retangular para o quartinho dele, onde pudéssemos colocar os brinquedos. Coisa simples, que em Brasília eu conseguiria resolver num pulo, aqui se tornava um desafio - não ter referência de lojas, de marceneiros e também não ter carro para sair pesquisando por aí. Eu tinha que resolver tudo previamente pela internet e só sair de casa quando a escolha já fosse certeira. Isso me angustiava um pouco - "isso", na verdade", era apenas uma roupagem para a sensação de estar longe de tudo que me é confortável e seguro, percebo.

À noite saí para jantar com João. Voltamos para casa, fomos deitar e eu comecei a pensar na vida. Me lembrei do livro A maternidade e o encontro com a própria sombra, que me acompanhou durante a gravidez. Pensei em como a autora defende que nos comuniquemos de forma clara com o bebê sobre o que estamos sentindo.

O que eu sentia: ansiedade por ele não chegar logo nas datas previstas. Aí comecei a pensar na mensagem que eu poderia estar passando para o meu filho: a de que eu não estava pronta para a chegada dele, por estar tão focada nessas coisas exteriores que eu supostamente ainda precisava resolver (como a tal estante).

Parei para pensar, listei mentalmente todas as pendências e vi que nenhuma delas era essencial. Respirei fundo e falei isso para ele. Falei: "Lipe, a hora que você quiser vir, pode vir, porque sua mãe e seu pai estão prontos para te receber com todo o amor do mundo. Não tem nada faltando para você. Você tem tudo o que precisa. Sobretudo amor. Isso nunca vai te faltar!". Conversei com ele e fui adormecendo.

Cerca de meia hora depois, senti uma espécie de cólica bem chatinha. Nem desconfiei que pudesse ser contração. Na minha cabeça, contração era uma coisa (que eu ainda não sabia o que era, mas que certamente iria descobrir quanto sentisse) e cólica tipo de menstruação era outra. Fiquei quieta tentando dormir e fazer a dor passar. Foi piorando. Resolvi ir ao banheiro e vi que estava com um sangramento. Acordei o João e ligamos para a minha obstetra. Isso era cerca de 0h30. Ela atendeu e disse que podia não ser nada de grave, já que havíamos nos visto pela manhã e estava tudo bem, com nenhum sinal de que o bebê iria nascer. Ela me aconselhou a tentar ver se passava e esperar até de manhã cedo para ir até o consultório dela. Ou então ir até a emergência do hospital se eu quisesse ficar mais tranquila.

João optou por irmos de manhã - afinal, ele estava dormindo; a dor não estava assim de outro planeta; a própria médica havia sugerido isso. Okêi. Tentei deitar e voltar a dormir. A dor foi piorando. Eu respirava fundo, me contorcia, mas pensava: é normal, não há nada de errado, é só uma cólica. Vai passar. Não, não passava. Só piorava. A cada pontada eu me sentia sem ar. Quase não conseguia me mover. Aí passava, ficava cerca de 1 ou 2 minutos em trégua, e depois vinha com tudo. Tentei andar pelo quarto, tentei sentar na cadeira, tentei mil coisas.Até então eu estava sofrendo sozinha, pois tinha medo de incomodar todo mundo na casa e não ser nada de grave. Mas o negócio estava tão brabo que  resolvi acordar o João e dizer que estava doendo MUITO.

Ele, ainda meio zonzo, falou um "vamos pro hospital agora". Lá fomos nós. Acordei minha mãe, disse a ela que "ia ali rapidinho na emergência ver o que era, mas que não devia ser nada" e que, qualquer coisa, ligava pra ela. Pegamos um taxi no meio da madrugada rumo ao Makati Med.

Chegando lá, não lembro mais de muita coisa. Sei que me colocaram numa cadeira de rodas, seguimos para o delivery room, as cólicas aumentavam de intensidade, me mandaram tirar meu colar da sorte, me levaram para uma sala de exames e tcharã: eu já estava com 3 cm de dilatação e as tais cólicas eram, sim, as famosas contrações. Em outras palavras: eu havia entrado em trabalho de parto.

João ficou preenchendo formulários enquanto as enfermeiras monitoravam as contrações e a dilatação. De repente, minha percepção espaço-temporal ficou totalmente alterada. Não sei mais em que momento me levaram para a sala de parto. Sei que me sentaram numa maca e disseram que o anestesista já havia chegado e que eu iria tomar a peridural. Neste momento, as contrações estavam  muito fortes e eu achava que não ia aguentar. Eu me sentia uma figura barroca, toda contorcida. Eis que chega o anestesista e, sem dizer uma palavra, começou a preparar umas injeçõezinhas para colocar no meu braço. Eu: "peraí, o que é isso que vão me dar? Eu quero saber!" e ele me deixou no vácuo. Sério. Me ignorou completamente. Mas o negócio doía tanto que eu baixei a guarda. A orientação era que eu não fizesse nenhum movimento brusco durante a anestesia. O que é obviamente muito difícil, porque, diante de uma contração, a natureza te leva a se contorcer para segurar a dor. Acho que este foi o momento mais tenso para mim. Administrar a dor e ter o sangue frio para não me mexer nenhum milímetro.

Depois que a anestesia começa a fazer efeito, é tudo lindo. Comecei a entrar num êxtase metafísico. Senti a presença das minhas avós já desencarnadas ao meu lado. Me senti conectada com todas as mulheres do mundo que já pariram antes de mim. Senti que a Moema e a Cristina estavam ao meu lado segurando a minha mão - essas duas com quem divido os caminhos do humano e do profundo. Senti muitas coisas. Mas nada cabe em palavras. Nada que eu escrever aqui vai dar conta da transformação profunda que se passou comigo naquelas horas enquanto a dilatação aumentava.

Quando a dilatação passou de 8, me lembro da minha obstetra dizendo que estava chegando a hora do "push", ou expulsivo, como dizem no Brasil. Ela e a equipe de auxiliares me ensinaram como fazer a força para empurrar o bebê, seguindo a contagem que elas fariam. Praticamos algumas vezes. De repente, era para valer. Enquanto elas contavam até dez, eu fazia força para empurrar meu filho. Uma vez. Duas. Várias vezes. Nas últimas, as enfermeiras fizeram uma pressão na minha barriga. Mais uma contagem. Ela tirou o Lipe e começaram a fazer massagem nele, a aspirar o nariz, até que ele chorou. Esse hiato deve ter durado coisa de um minuto. Mas, para mim, pareceu uma eternidade. Eu não entendia o que estava acontecendo com meu filho. Se ele estava bem. Se não estava. Eu só via que ele estava roxo e em silêncio, sendo massageado por ao menos 5 pessoas. Na minha cabeça, passou a ideia de que ele estava morrendo.

Perguntei, com a voz em fiapo: " is he ok?"

A médica disse que sim.

Ele não estava morrendo. Ele estava nascendo. E nascer tem um tanto de morte, como morrer é também nascer. Pensei na música do Arnaldo Antunes que nos acompanhou na gravidez e falei pra ele, em silêncio: "mas tinha que respirar, Lipe! Todo dia!".

Ele chorou e veio para o meu colo. No vídeo que minha mãe fez, escuto minha voz dizendo: "Você é a cara do seu pai!" e "Deus te abençoe, meu filho!". João me fazia carinho o tempo todo. Não lembro de ouvir a voz dele. Mas me lembro do quanto aquele silêncio tinha força. Vendo o vídeo, percebo que ele estava paralisado, quase que sem reação. Só ele pode dizer o que se passou pela cabeça dele durante o nascimento do Filipe. Mas tenho certeza de que foi algo forte e igualmente transformador. Um pai também nascia, ali.

Dar à luz meu filho foi uma experiência tão forte que eu me sentia, de fato, um corpo só junto com ele. Sentia as sensações dele.

A médica me perguntou se eu queria que ele fosse para a enfermaria enquanto eu iria para o quarto descansar. De pronto respondi que não, que eu queria meu bebê junto comigo o tempo todo, mesmo cansada. Ficamos abraçadinhos até que vieram nos levar para o quarto. Acho que tentei amamentar. Exaustos, dormimos. Não me lembro mais o que se passou até o dia seguinte. Só sei que nasci junto com ele no dia 7 de março de 2015. Meu pequeno valente, que já desbrava a alteridade do mundo. Meu anjinho, que me mostrou a força da nossa comunicação ao iniciar o trabalho de parto horas depois de eu dizer a ele: estou pronta.

Estamos prontos, Lipe, para aprendermos juntos a cada dia.

Respiremos!

Amo você, infinito e além! Bem-vindo a este planeta que tanto precisa de doçura.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Perto do coração - Cartas para Clarice

Querida Clarice,

A hora mais triste do dia, para você, continua sendo 3 da tarde? Para mim, é difícil estabelecer. Todas as horas são um pouco tristes e um pouco felizes. Meu filho chega em algumas semanas. Meu primeiro filho. O que significa esta palavra "filho", Clarice? Eu só vislumbro. Ainda me sinto no meio do caminho desta trilha que é virar mãe. Será que a gente aprende? Eu tenho tanto a aprender. No fundo, acho que aprendo ouvindo a minha solidão. Mas nenhum homem é uma ilha, não é? Nem mesmo quando cercado de sete mil ilhas.

É que, aqui, tenho de aprender a ser outra. A ser, talvez, mais sóbria, mais apolínea. Há faces que já não me cabem. Não por eu não querer, mas por não haver espaço. Não encontro espaço, por exemplo, para o meu bloco de carnaval. Aquele que não liga se não é fevereiro. Que pinta os olhos de rosa e amarelo, coloca flor de retalho nos cabelos, lantejoulas, meia arrastão, cílios postiços. Uma boneca-fulô-drag-brincante. Eu era isso também, Clarice. Também. Dentro daquele turbante dos filhos de Gandhy. Neste apartamento (apartamento vem de apartar?), cavo o espaço para o meu turbante, minhas contas e mistérios. Finco as unhas nos tacos. Tudo isto que me é sagrado, para onde tem ido?

Leio suas cartas a Sabino e fiquei com vontade de me meter na conversa. Há tantos ecos que vocês mal sabem, e sou infinitamente grata por me deixarem entrar. No íntimo, também sou frágil, incerta, descontrolada. Fernando te disse algo tão bonito. Vou procurando os grifos. "A gente podia ser assim, Clarice, viver apenas, aceitar o momento como essencial e nascer de novo entre dois cigarros, entre o brinquedo e o edifício, entre a palavra e a curva."

Quem ler estas linhas corre o risco de pensar que ando triste por aqui. Não é que eu ande. É que estou trocando de pele a fórceps. Tudo me transforma. Sobretudo a falta tem me transformado, este aprender a ser de uma nova maneira, a compreender novos códigos. O tal relativismo.

Mas veja: eu estou absolutamente preenchida de uma nova vida. Então soa um paradoxo falar em falta, não é? Mas o que somos senão grandes paradoxos perambulantes por aí, cheios de alegria e dor? Vida e morte. Certa vez, tive uma epifania e me veio claro que tudo, absolutamente tudo, se resume a esta dupla, este par de opostos complementares. Todo o resto se constrói a partir.

Conte, Clarice, como anda a sua relação com Frau Hulda? Você parece gostar de quando ela esbarra na sua solidão e força um contato com o mundo real. O que teremos para o almoço? Você é tão fina, Clarice, que consegue pedir a Frau Hulda um almoço impecável. Eu não consigo. Não fui versada no Correio Feminino, embora nutra por ele genuíno interesse. Você tem um cardápio para a semana, Clarice? Adoraria poder compartilhá-lo. Acho que passaremos várias tardes juntas. Quem sabe um chá com Frau Hulda?

Nos seus intervalos de costurar para dentro, me escreva. Talvez quando sua missiva chegar, eu já esteja  entre fraldas e cuidados que agora desconheço. Não haverá problema. Eu encontrarei um instante suspenso para ler você. Mande lembranças a Fernando, que sempre me diverte.

Meu carinho,

Dany

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Conscious birth - ou da importância dos afetos na gestação

Eu e João participamos hoje de um seminário aqui em Manila chamado Conscious Birth, conduzido pela doula russa Irina Otmakhova. O grupo era bem pequeno e pudemos aprender sobre as possibilidades de um parto humanizado - seja em casa, seja no hospital. A maioria das informações não era bem novidade, afinal a internet e os livros estão aí para aplacar a nossa avidez. O que mais me valeu, nessa experiência, foi a possibilidade do encontro. 

Desde que cheguei aqui, tive contato com apenas uma grávida. Estar num círculo com outros casais que vivem a mesma jornada que você é mesmo da maior importância. Ao menos me foi. O fim do seminário foi super interessante, aliás. Porque a Irina começa a conversa pedindo para escrevemos num papelzinho quais noções sobre parto nós carregamos - heranças da sociedade, coisas que nos ensinaram e que crescemos tomando como verdades.  Daí no fim do encontro, à luz das novas informações, ela pede para escrevermos o que gostaríamos que tivessem nos dito antes.

Cada mulher, então, vai para o centro de um pequeno círculo formado por pétalas de rosas. Em volta desse círculo, os outros participantes formam uma roda maior. O papelzinho com as frases que esta mulher escreveu vai passando e cada um lê para ela uma das afirmações.

Pode parecer uma coisa boba, mas o poder desta simples atividade é impressionante. Porque são outras mulheres te dizendo coisas como "por mais que doa, você dá conta", "o nascimento é sagrado e deve ser cheio de amor", "este é um novo começo" etc. Como eu disse, são coisas que a gente já sabe. Mas o poder do símbolo, deste círculo de mulheres, foi o que mais me impressionou. O gesto. 



Eu, João e Lipe bem ali no canto direito. A doula é a de colar, no centro


Irina leu para nós um texto atribuído a uma poetisa africana chamada Tolba Phanem, em que ela fala sobre como uma certa tribo na África encara a concepção, gravidez e a vida deste novo ser gerado. O texto é longo e está disponível em vários sites internet afora. Vou resumir aqui a ideia:

Nesta tribo, a idade de uma criança não começa a ser contada a partir da data do seu nascimento, mas a partir do primeiro momento em que a mãe desejou ter o filho. Enquanto ideia, enquanto presença, ele já nasceu e já habita a alma da mãe. Conectada com esta presença, com este desejo, ela vai para debaixo de uma árvore e escuta qual é a canção daquela criança. Ela volta para casa, canta esta canção com seu companheiro, e aí eles estão prontos para a concepção. A música é repetida várias vezes na gravidez, por diversas pessoas da tribo que formam uma espécie de rede em torno da mulher  e seu filho. Quando ele nasce, já tem sua música. E essa música segue sendo a identidade daquele ser. Quando ele se esquece de seus valores, quando se sente menor ou inútil, as pessoas cantam sua música como forma de lembrá-lo de quem ele é. O mesmo vale quando ele fere as regras da tribo. Em vez da punição, as pessoas cantam sua música e o transformam pelo afeto e pela reconexão consigo.

Achei essa história tão linda, mas tão linda, que deixei de lado minha faceta controladora (a que perguntaria "mas que tribo é essa? ninguém nunca diz, então é porque não existe") e simplesmente me liguei com o que existe de mais simples nela. Como uma história de "era uma vez". Sem tempo, sem lugar. Isso não importa. O que importa é compreender a força que as redes de afeto têm na construção e fortalecimento da nossa identidade.

De repente, foi como se eu me sentisse ligada a todas as mulheres que passaram pela minha vida. Minha mãe, minha avó, minha tia...tantos umbigos antes do meu, como escreveu uma vez a Liziane Guazina, poeta radicada em Brasília e que também espera seu primeiro bebê. Fiquei pensando que tão importante quanto o ritual do chá de bebê, em que ganhamos coisas para o enxoval, seria um ritual em que as nossas mulheres próximas - gerações mais velhas, gerações mais novas - pudessem apenas estar ali e nos abraçar. Nos presentear com objetos que fossem um amuleto de sorte, um amuleto de boa jornada rumo ao desconhecido, um amuleto que conectasse os umbigos e nos tornasse todas uma. Eu colocaria todos esses amuletos juntos numa caixinha e teria um retrato de mim, porque eu sou o amor e a coragem de todas essas mulheres.

Assim talvez seguiríamos mais fortalecidas e com menos medo.

Saí deste pequeno seminário de duas horas com a sensação de estar mais conectada com o que interessa e menos com coisas externas, como as coisas que ainda preciso comprar, o berço que não chegou, o modelo de canguru que não consigo escolher...

Porque, no fundo, nosso bebê precisa mesmo é do nosso amor e do nosso colo. Que a gente cante sempre a sua música. Isso, Lipe, nunca há de faltar!







domingo, 25 de janeiro de 2015

A vida em Manila #4 - Diários de uma grávida

Estar grávida é uma experiência única. A frase é o maior clichê do universo, mas é totalmente verdadeira. O corpo muda, o humor muda, as necessidades mudam. Às vezes, tudo o que precisamos são coisas que dêem conforto emocional. Portanto, posso dizer que estar grávida longe de casa, do outro lado do mundo, torna o processo ainda mais sui generis.

Passei metade da gestação no Brasil e metade aqui nas Filipinas. Agora, quase na reta final (já se vão 33 semanas!), posso compartilhar com vocês as principais diferenças que tenho notado.

1) Aqui, as grávidas são intocáveis - mas nem tanto

Explico: desde que cheguei, qualquer atividade diferente precisou ser devidamente negociada. De uma simples massagem no pé até a prática de esportes. No Brasil, é muito comum encontrar massagens para gestantes, que costumam misturar manobras de drenagem linfática com técnicas de relaxamento. A drenagem (feita por especialistas em gestantes) é inclusive recomendada pelos obstetras, já que nós grávidas sofremos muito com retenção de líquido.

Já aqui nas Filipinas, drenagem linfática para grávidas parece uma heresia. Fora de cogitação. Nos vários estúdios de massagem espalhados por Makati, onde moro, só me aceitaram para fazer uma levíssima massagem nos pés.  Eles alegam que a massagem pode ativar pontos de reflexologia perigosos na gravidez. A real, na minha humilde opinião, é que ninguém quer arriscar que você tenha algum problema e depois diga que foi por causa da massagem.

Outro ritual em que fui barrada por estar grávida foi a depilação. Terror e pânico! Como assim, ficar sem depilar??? Eu venho do Brasil, terra que inclusive dá nome às técnicas utilizadas mundo afora, minha gente! Diante da minha perplexidade, eles justificaram que a cera pode fazer mal ao bebê. Okêi.

Todo esse cenário leva a crer que aqui o esquema é mais prudente e cuidadoso com as grávidas, certo? Não necessariamente. Aí entra um paradoxo que até hoje não entendo bem.

Na hora das situações desgastantes do dia-a-dia (pegar metrô lotado, enfrentar fila de taxi, fila de banheiro, fila de banco etc), as grávidas entram no vale-tudo junto com todos os outros mortais. Esqueça conceitos como fila preferencial e gentileza. A vida é dura para todos. Embora haja plaquinhas de fila preferencial nos lugares, as grávidas raramente estão representadas nela. Há menções apenas a idosos e portadores de necessidades especiais.

João pondera que é porque na Ásia tem muita gente e há um certo espírito de sobrevivência, do tipo "farinha pouca, meu pirão primeiro". Bom, eu até entendo, mas continuo achando estranho. Fila do banheiro enorme, você apertada-quase-morrendo-com-a-bexiga-do-tamanho-de-uma-ervilha, e ninguém dá a vez. Ninguém nem olha pra você, na real. Você fica lá em vigésimo lugar da fila e espera, espera, espera.

Sobre banheiros, ainda tem um detalhe cruel: aqui, as filas se formam atrás de cada cabine, em vez de uma fila "geral" para entrar nas cabines que forem desocupando, como costuma acontecer no Brasil. Então várias vezes eu fiquei lá, em pé, esperando minha vez e puf, uma pessoa passa na frente na maior cara de pau. Demorei a entender. É que eu não estava "em frente" à cabine que desocupou. Não parece muito justo, né?

Depois de enfrentar filas gigantescas, de ficar em pé porque ninguém cede lugar e de ainda ficar sem massagem, o que aprendi é: para manter a sanidade, é preciso deixar de mimimi e aceitar que a lógica é simplesmente outra. Não importa seu cansaço, desconforto, enjôo ou qualquer outra coisa. Você é só mais uma na multidão, onde cada um circula com suas dores e delícias.

2) Mostrar a barriga pode ser estranho e inconveniente

Na reta final da gravidez, a barriga começa a pesar bastante. Ainda mais neste calor brabo de Manila. Tudo incomoda. Certa vez, estávamos andando no Rizal Park (mal comparando, seria algo próximo do nosso Parque da Cidade) e eu levantei a blusa, que estava apertando. Todo mundo me olhou como se eu estivesse fazendo a coisa mais estranha e absurda do universo. Captei o estranhamento e desisti de fazer a Leila Diniz por mais tempo.

Um dia, no estúdio de massagem, também deixei a barriga de fora enquanto tentava me conectar com o cosmos. A massagista mandou um "ma'am, you're too sexy!". Demorei alguns segundos para entender se era uma cantada, mas acho que foi uma forma simpática de me mandar tampar a barriga. Assim o fiz e a moça não falou mais nada.

Por via das dúvidas, melhor mostrar a barriga apenas na praia ou na piscina do prédio.

3) Ma'am é diferente de mom

Ma'am é uma abreviação para madam, bastante usada em inglês. Se você for mulher, todos os vendedores vão te chamar de ma'am. O problema é que só fui descobrir isso de forma traumática.

Nas minhas primeiras semanas aqui, a barriga deu uma crescida brusca e todas as minhas roupas começaram a apertar. Precisei comprar vestidos de grávida e aquelas calças com elástico, tudo meio na emergência. Daí fomos ao Landmark, que é uma loja popular num shopping aqui perto de casa, onde você encontra de tudo.

Na seção de "maternidade", fui metralhada por umas cinco vendedoras de uma só vez, todas me chamando de ma'am e me dando peças para experimentar. Logo eu, uma inadaptada convicta, que odeio vendedores me abordando em lojas! Aquilo me deu muito desespero. Meu humor foi desaparecendo até que, num momento de fúria Scooby-Loo, eu virei pro João:

- Que droga!!! Será que dá para essas vendedoras pararem de forçar amizade e me chamar de "mamãezinha"??? Só porque eu estou comprando coisa de grávida? Não precisa disso! Odeio esse povo que chama grávida de "mãezinha"!

João apenas me olhou, caiu na risada, e me explicou que elas estavam me chamando de madame. Senhora. Coisa fina.  Até hoje, de vez em quando, ele pega no meu pé com essa minha primeira gafe, dizendo que a cidade inteira me chama de mamãe. Tipo da coisa que será sempre usada contra mim. Já aceitei para a vida.

Resumo da história: 

Tenho a sorte de morar num lugar ótimo, onde não preciso de carro e posso fazer quase tudo caminhando. Encontrei uma obstetra maravilhosa, com muita experiência com expatriados. O hospital onde será o parto é aqui pertinho. Está tudo ótimo comigo e com o Lipe e ele deve chegar na primeira semana de março.

Ainda assim, tem dias em que esses pequenos ruídos chateiam e tudo o que eu queria era fechar os olhos e me teletransportar para o Brasil. Mas aí penso que seria uma fuga. As diferenças culturais estão aí para nos engrandecer, das grandes às pequenas coisas.

O importante é ter paciência para passar por elas com graça e leveza!


Scooby-Loo, meu alter-ego, pronto pra briga! :P
















segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A vida em Manila # 3 - Uma alérgica nas Filipinas

Quem me conhece sabe: sofro com rinite alérgica desde que nasci. Lá se vão 30 anos de todo o tipo de tratamento, incluindo alopatia, homeopatia, vacinas em forma de injeção, loratadina, desloratadina, nebulizador, sterilair e por aí caminha meu brainstorm alérgico. Minha vida, portanto, sempre foi cheia de "cuidados", qual o Thomas J., do Meu Primeiro Amor.

Se viajava e ficava hospedada numa pousada mais rústica, logo o nariz começava a coçar loucamente, o olho lacrimejava e tinha início a sessão de espirros intermináveis. Tudo me sensibilizava: mofo, poeira, lençol um pouco mais antigo, jornal, mosquiteiros, carpete, pelo de gato, perfume floral, mudança de temperatura. Mudar de ambiente, por sinal, era sempre tenso. Era sair da sombra e ir pro sol para começar a espirrar. Já cheguei a parar o caro no acostamento para ter minha sessão de espirros em segurança.

Na infância, a lembrança que tenho é a da minha mãe dando como primeiras instruções para as diaristas: tirar a poeira do quarto da Dany. Não sei dizer em que momento a coisa começou a melhorar. Acho que foi na vida adulta mesmo, saindo de casa, quando a gente começa a não conseguir limpar tudo com o mesmo cuidado de mãe, risos. Acho que meu organismo teve que criar vergonha na cara na marra. Aí resolvi barbarizar e arrumei dois gatos. Numa kit. O primeiro mês foi o inferno. Tomei Desalex todo santo dia, até que um dia eu melhorei.

Brinco que apostei na medicina medieval de insistir no contato até o organismo parar de entrar em colapso. Mas claro que busquei outras coisas. Fiz, por exemplo, a cirurgia de desvio de septo, que melhorou bastante minha respiração, sobre a qual eu já falei aqui. Não foi só esperar a cura cair do céu.

Tudo estava lindo, até eu me mudar para as Filipinas. O combo poluição + ar condicionado me nocauteou. Aqui faz muito calor e todo lugar tem ar condicionado sapecando no máximo. Ou mínimo. Sei lá. Só sei que você sai de um bafo de calor na rua e entra no Pólo Norte a cada ambiente interno em que resolva entrar. O ar é onipresente, inclusive em casa. Às vezes, só é possível dormir com o bicho ligado. E aí, sem perceber, comecei a desenvolver uma alergia sobrenatural nesses dois meses aqui.

A primeira crise na Ásia

No início, parecia uma gripe com muita irritação na garganta e tosse. Só que a suposta gripe não ia embora nunca e eu passei a desconfiar que a rinite poderia estar de volta. Diante dessa suspeita, o que fazer? Tomar antialérgico na gravidez me parecia um sacrilégio. Resolvi, antes, tentar a vida sem ar condicionado (eu já desconfiava que ele fosse o vilão).

Capitulei no primeiro dia. Quer dizer, na primeira noite. Dormi com a janela aberta e fui atacada por pernilongos asiáticos indóceis. E, eu asseguro, eles são da pior espécie. Deve ter sido a noite mais mal dormida dos últimos tempos. Tive de escolher entre morrer de calor ou devorada pelos mosquitos. Como também tenho alergia a picada de pernilongo, fechei a porta da varanda e escolhi morrer de calor.

Mas é claro que a coisa sempre pode ficar pior: um pernilongo maledetto ficou preso no quarto e, só de raiva, não parou de zumbizar no meu ouvido. A solução, no desespero, foi cobrir meu corpo todo, inclusive a cabeça. No calor de rachar sem ar condicionado, lá estava eu, feito uma múmia, toda enrolada a me proteger no pernilongo. E tossindo. E espirrando. João, é claro, já havia ido dormir no outro quarto há muito tempo, que ele não é besta.

Acordei decidida a marcar uma consulta com a obstetra. Eu precisava de ajuda. Ela me examinou e disse que tinha toda a cara de ser mesmo uma crise alérgica. Começou a preencher o receituário e, de repente, eu reconheci: loratadine! Não contive meu sorriso. Ela não só estava permitindo que eu tomasse remédio, como estava indicando o que eu já conheço e sei que funciona! Perguntei se era seguro para o bebê e ela disse que sim, que era um remédio baby friendly.

Bom, acho que nenhum remédio deve ser 100% baby friendly, mas a gente precisa deixar os radicalismos de lado e pensar no que é melhor. Eu já estava há mais de duas semanas sofrendo, sem querer tomar remédio. Havia chegado no meu limite. Acho que meu filho prefere me ver bem e feliz, dormindo bem, de bom humor, do que tossindo e espirrando o dia todo.

Vi que não adiantaria brigar com todo o sistema de ar condicionado das Filipinas e resolvi aceitar a medicação. Combinei com a médica de fazermos o teste por uma semana. Se os sintomas sumirem, teremos certeza de que é realmente só uma crise alérgica.

Tudo isso me faz pensar que o processo de se mudar, além de toda a questão emocional/cultural da adaptação, envolve também a parte corporal, fisiológica. Adaptar o corpo a novos ares, novos hábitos, adquirir outros anticorpos. O processo é muito mais complexo do que a gente imagina. A regência do verbo diz muito. Não é "mudar", apenas. É "se mudar". Mudar a si mesmo, o tempo todo, diante do contato com o outro - seja o outro um espaço ou uma pessoa.

Penso que fazer isso grávida é duplamente desafiador. Amplia a outridade. Enquanto espero o almoço no restaurante que fica dentro do hospital, peço desculpas ao meu filhote por não ser valente o suficiente para aguentar sem remédios. Depois penso que valentia é encarar esse duplo twist carpado cultural com ele na barriga. Você já nascerá sob este signo, meu gatinho. O da tolerância e dos mergulhos no desconhecido. Para além do grande mergulho que já é nascer.

Penso sempre em você, a cada segundo do meu dia. Agora vou deixar o café onde escrevo essas linhas para fazer um ultrassom e ver sua carinha. Dra. Henson, toda vez que escuta seu coração, diz que você é um bebê muito alegre. Eu sinto gratidão por você manter sua alegria mesmo quando eu estou um caco. Sinto gratidão simplesmente porque você existe!

Vamos nos curar da alergia, porque cada tosse deve ser um terremoto aí para você. E eu quero você bem bonitinho e faceiro!

Amo você, coisa miúda!


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A vida em Manila #2

Passado o susto inicial, começo a transitar pela cidade com mais leveza.  Olhando para trás, vejo como fiquei intimidada pela nova paisagem de Manila. Minha postura corporal, outrora de defensiva, vai dando lugar a um corpo de quem mora na cidade. De quem, aos poucos, vai se sentindo em casa. Para isso, foi importante controlar a afobação e, sem pressa, encontrar pequenos respiros, confortos. Como o parque aqui perto de casa. O mercadinho de sábado. O restaurante italiano com manjericão colhido na hora e forno a lenha. O café, a mesa-de-que-mais-gosto, o salão de beleza para fazer as unhas. Lugares onde eu não sentisse medo, enfim, e pudesse simplesmente baixar a guarda.

Cada vez mais penso que parte importante do processo é sair da vibe turista e entrar no ritmo do lugar. O turista tem uma sede absurda de conhecer tudo, de apreender tudo, tem um ritmo frenético de capturar as coisas. Eu carrego comigo essa sede. Foi assim em quase todas as minhas viagens. Mas, aqui, senti diferente.

Demorei para conseguir tirar fotos e fiquei pensando o que poderia estar por trás dessa minha falta de intimidade com a câmera aqui - logo eu, que amo fotografar tudo! Percebi que eu me sentia invadindo um espaço - qual espaço? -, "roubando" momentos de algo que eu não havia ainda compreendido bem na alma. A fotografia, neste sentido, é uma arte tão relacional, não é? Não existe objeto que não exponha o fotógrafo, que não escancare esta relação que se estabelece. Claro, acho que tem gente que fotografa no automático e nem pensa nisso. Mas eu não dou conta. Achei péssimas todas as minhas fotos das primeiras semanas aqui. E é engraçado. São fotos feitas de longe, de quem não se coloca na cena.

Me lembrei de quando participei de uma vivência com os Kayapó, em 2006. As primeiras fotos que tirei, ainda sob o olhar do exótico, também traziam essa distância. Eram crianças brincando, e eu ainda tímida, de longe, sem saber como me colocar. O olhar delas para mim era de desconfiança. Ainda não havia se estabelecido a relação de que falo. Num dado momento, deixei a câmera de lado e passei a brincar com elas. De roda, de desenhar, de um bocado de coisas. Só depois, bem mais tarde, voltei a fotografar. As fotos ganharam outra potência. Ganharam proximidade, não no sentido de lente, zoom, nada disso. No sentido de afeto mesmo. Era como se eu pudesse me aproximar da pele daquelas crianças, pudesse dançar com elas. Elas deram abertura para que eu fosse uma delas. E eu dei abertura para vê-las, de fato, como crianças.

É neste sentido que ainda encontro alguma dificuldade para fotografar pessoas por aqui. Ainda estamos tateando. Nos olhando neste jogo de espelhos, de alteridades. Acho que é uma questão de tempo. E que bom, que privilégio, ter este tempo!

Buscando essa aproximação, achei que já era tempo e me matriculei num curso de travel and cultural documentary photography. As aulas começam nesta quinta-feira. Na verdade, é um workshop de três dias, com aula teórica, saída de campo para uma cidade próxima a ser escolhida pelo professor e posterior análise da nossa produção. Estou na maior ansiedade. Depois conto aqui como foi o curso.

Escrevo e Felipe chuta forte na barriga. Ele sempre chuta em sessões de cinema, escritos, programas culturais. Fico achando lindo. Na verdade, quem faz essa projeção sou eu, claro, rsrs. O bichinho está apenas crescendo. Logo entraremos no sétimo mês. O que me deixa especialmente emotiva, porque nasci prematura de 7 meses.

Como eu reagiria se ele nascesse agora? Falta tanto chão! Como eu construí, ao longo da minha vida, este chão que me faltou, este restinho de caminhada? Fico divagando, nessa jornada intensa e doida que é a maternidade, enquanto busco minhas maneiras de pertencer ao novo país que nos acolhe.

Eu, que sempre tive como temas obsessivos a tal coragem de pertencer ao desconhecido, a poética dos abismos, do salto no vazio...vejo que, sem perceber, me lancei exatamente na corporificação destas ideias.

Gerar e carregar um filho é pertencer ao desconhecido. O medo do parto é pertencer ao desconhecido. Parir é pertencer ao desconhecido. Criar um ser humano, com todos os seus melhores valores e suas sombras, é pertencer ao desconhecido. Tudo isso fisicamente longe da sua rede de afetos, daqueles que sempre foram o abrigo-quando-o-peito-aperta...isso é duplamente pertencer ao desconhecido! É descobrir novos caminhos, novos sentidos, a cada dia.

Sobretudo, é ver crescer o amor pelo companheiro que hoje é meu grande suporte. Porque somos só nos três aqui nesse arquipélago de sete mil ilhas, este punhado de terra cercado de água, tantas águas, um lar de câncer, escorpião e peixes. Como diz meu amigo Adriano Godoi: isso não é uma casa, é um tsunami! Verbo: eu sinto. Um explode, a outra guarda e remói, o outro ainda nos é mistério. Mas mergulhamos todos no grande mistério que é nascermos, juntos, desta nova experiência.


Frangipanis em Manila: flores perto das quais me sinto em casa



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Vida em Manila #1

Nesta semana, completarei quase um mês em terras filipinas, precisamente na capital, Manila. Parece bastante tempo, mas não é nada quando se trata de dar um duplo twist carpado geográfico e cultural. Sim, porque a pessoa aqui só tinha saído do Guará para o Plano Piloto - cria fortíssima e arraigada de Brasília! De modo que viver na Ásia me tem sido, sem dúvidas, uma grande aventura. Vou tentar compartilhar com vocês um pouco do que tenho visto por aqui.

A primeira impressão - Família Buscapé vai à cidade grande

Cheguei num sábado, dia 25 de outubro. Logo na descida do avião, uma placa enorme avisava: "it's more fun in the Philippines!". Este é o slogan oficial do Departamento de Turismo deles, então prepare-se para encontrar o mote aqui e ali :) João foi me buscar no aeroporto e, no caminho pra casa, me chamou a atenção como a paisagem muda rapidamente - bairros que me lembravam as cidades-satélites no início dos anos 90 logo davam lugar a um grande centro comercial, no melhor estilo Avenida Paulista. É neste centrão com cara de cidade-a-mil-por-hora que moramos.

João ri da minha cara e diz que eu não vi nada ainda do que é uma cidade-a-mil-por-hora, que eu preciso ir a Hong Kong e tal. Eu sei da minha experiência: para quem tinha uma palmeira com passarinhos bem diante da janela, com um grande campo verde onde descansar os olhos, estar diante de arranha-céus e morar num prédio de 40 andares é realmente uma grande mudança.

Ayala Avenue, a minha nova Avenida Paulista

Passei os primeiros dias meio assustada com o trânsito caótico e com a grande quantidade de gente andando nas ruas. Sobre o trânsito, cabem mais algumas palavras. O engarrafamento nosso de cada dia de Brasília não é nada perto do que rola por aqui. São muitos carros na rua e eles parecem gostar de dirigir perigosamente. Buzinar é coisa corriqueira. Sabe aquele orgulho brasiliense de "aqui evitamos buzinar", estampado em placas na entrada da cidade? Pois esqueçam. Aqui buzinar é o esquema. Os carros viram de todos os lados, tem triciclo, tem jeepneys com luzes piscando (o meio de transporte mais popular, que nada mais é do que um jeep herdado da 2a Guerra Mundial e adaptado para virar meio de transporte coletivo), tem taxis fechando uns aos outros. Uma coisa de louco para quem chega. Nós optamos por não termos carro aqui e fazermos, na medida do possível, tudo a pé. Neste sentido, temos sorte, pois a nossa vizinhança é super bem servida!

Com esse tanto de carro, é de imaginar que a poluição seja um problema. Eu estranhei bastante. É comum ver pessoas de máscaras andando pela rua ao fim do dia, na hora do rush - ainda não sei em qual medida é por causa da poluição ou pela preocupação com contaminação (gripe etc) em lugares de grande movimento. Talvez um pouco dos dois. Eu, com minha rinite, sou a rainha dos espirros quando saio na rua. O povo falta pular da escada no metrô!

Agora, um mês depois, já estou mais habituada a esse cenário de cidade grande. Mas confesso que a falta de horizonte e de céu ainda me incomoda. O que dá um conforto é você ir encontrando seus pequenos oásis no meio do caos - como o Salcedo Market, vulgo mercadinho de sábado bem em frente a nossa casa, onde produtores de toda a cidade vêm vender frutas, verduras, hortaliças e afins - tudo fresquinho, muita coisa orgânica e saudável :)

Jeepney, carro e triciclo: tudo ao mesmo tempo agora

O pitoresco jeepney, uma verdadeira instituição filipina


O povo filipino

O que torna a adaptação mais fácil é, sem dúvidas, a cordialidade das pessoas. Os filipinos são muito amáveis. Fazem questão de cumprimentar com bom dia, boa tarde, boa noite e um sorrisão. Nos primeiros dias, também estranhei um pouco isso de todo mundo falar com você, mas logo me acostumei.

Aqui onde moramos, todo mundo fala inglês, além do tagalog (filipino). Pegar o sotaque deles também exige um pouco de tempo. De fato, o American accent é o mais comum por aqui - eles foram colônia dos Estados Unidos, o que se reflete na influência cultural notada em praticamente tudo. Antes, as Filipinas também foram colônia da Espanha, daí o nome das ruas em espanhol (Tordesillas, San Augustin, Dela Costa, Villar etc) e sobrenomes como Garcia, Miranda e Reyes. Apesar disso, eles não falam espanhol. Falam o inglês, língua franca ensinada na escola.

O que percebi até agora sobre a questão do idioma (impressões, ok? Nem de longe tenho a pretensão de qualquer análise mais aprofundada): as gerações mais antigas falam um inglês bem ruim, em geral. Às vezes, sinto que eles estão sofrendo para se fazerem entender. Já para os mais jovens, é algo natural. Aqui, o fator sócio-econômico também pesa: quanto mais caminhamos para os rumos de Makati (onde moramos), mais o inglês flui com sotaque americano. Vi que algumas escolas de inglês por aqui, inclusive, têm cursos específicos para trabalhar o sotaque. Ou seja: American accent é sinal de status.

Essa influência está em toda parte e fica muito clara quando olhamos a quantidade de shoppings espalhados pela cidade. É uma coisa de maluco. Aqui perto de casa, fica o complexo Greenbelt-Glorietta. Cada um deve ter uns cinco prédios. Para dar uma dimensão, é como se todos os shoppings de Brasília ficassem juntos, colados, formando um complexo só. E esse é apenas UM dos malls da região. As grandes marcas internacionais estão todas por aqui. Em termos de comida, dá-lhe Burger King, Wendy's, KFC, Mc Donald's, Donuts e outras redes. Franquias de café como Starbucks e The Coffee Bean estão em cada esquina.

Nessa lógica, a maioria dos cinemas está, é claro, nos multiplex dentro dos shoppings. Aparentemente, não há cinemas de arte por aqui - se há, estão muito bem escondidos! Então a experiência de ir ao cinema aqui não tem sido muito rica. Em cartaz, sempre há filmes em inglês e outros em tagalog, sem legenda. Daqueles em inglês, 100% são blockbusters. Já vimos John Wick, Insterstellar e Fury. Isso garimpando o que de melhor havia na programação. Tem muita coisa de terror também, mas eu passo longe, porque sou medrosa mesmo e odeio filme de gente possuída :P

Massagens baratas 

Aqui é muito fácil encontrar massagens boas e bem em conta. Somente aqui pertinho de casa, já encontrei uns três espaços. Há todo tipo de técnicas, com preponderância, pelo que notei, para a thai massage. Meia hora de massagem nos pés, por exemplo, sai pela bagatela de 200 pesos filipinos, o que corresponde a mais ou menos R$ 11, 00. Além disso, o conceito de pé, aqui, é bastante flexível: a massagem começa na mão, vai para os pés, passa pela canela até o joelho e termina nas costas. Uma delícia! Sem contar que a massagista coloca uma toalha quente em volta do seu pescoço, com algumas sementes aquecidas (pelo cheirinho, parece camomila). Aromaterapia de brinde, rapaz!

Para terem uma ideia do quanto é em conta, um café invocadinho na Starbucks daqui custa 170 pesos. Ou seja: toda vez que penso em tomar um vanilla latte ou meu chai, imediatamente converto no fator massagem e concluo que o café, na verdade, é que está caro.

Comida

Vocês devem estar se perguntando onde entra a cozinha asiática, certo? Se olharmos só para as grandes redes, é quase possível esquecer que estamos na Ásia. Mas nós estamos. E aí um novo mundo se abre, com cozinha filipina, tailandesa, vietnamita, coreana, japonesa, chinesa e por aí vai. Confesso que a gastronomia filipina ainda não conquistou meu coração, rs. Estamos nos aproximando. Os pratos mais comuns que vi por aqui são o lechon, o pancit (macarrão que é sempre servido nos aniversários, como o nosso brigadeiro!) e o tal do frango adobo. Nada que tenha me enchido os olhos. Ainda não provei a sobremesa típica deles, o halo-halo, mas conto assim que experimentar.



Pancit (primeira foto) e o famoso lechon: tipicamente filipinos

O interessante é que há um acesso muito fácil à cozinha internacional, de modo que restaurantes espanhóis, árabes e italianos estão a um pulo. De toda a oferta por aqui, tenho curtido especialmente o indiano, o persa e o tailandês :)

Ainda sobre a influência estadunidense, confesso que esse paladar meio bagaceira me incomoda um pouco. Pizza, hamburguer, cookies, frango frito, donuts, nutella. Se bobear, lá está você comendo besteira com a maior facilidade, pois são as coisas mais fáceis de encontrar.

Outro fenômeno curioso aqui são os comerciais de comida. Tem um do Mc Donald's que me faz morrer de rir toda vez. Uma mulher lindíssima vem andando em câmera lenta, com os cabelos esvoaçantes. Num primeiro momento, achei que fosse propaganda de xampoo. Pois que a câmera revela uma caixinha de Mc Chicken, na direção da qual a modelo segue toda faceira. Quando você acha que já viu tudo nessa vida, vem uma modelo sensualizar enquanto come uma coxa de frango frita! Surreal. Ah, e tem também uma supermodel fazendo propaganda dum sanduíche chamado "baconator" (imaginem a bomba). Do tipo: "esse é meu sanduíche favorito; só como baconator!". Sim, daquele mesmo jeito que a Xuxa usa Monange e a Sandy a-d-o-r-a  o óleo de amêndoas Paixão.




Para não dizer que não há coisas saudáveis, as frutas aqui são uma beleza. Os filipinos adoram manga e a deles é mesmo incrível! Descobri um novo amor, o calamansi, que é um limãozinho miúdo delícia! João apareceu aqui para fazer um adendo e dizer que também descobriu um novo amor: o mangostim. Estamos quites, então, nos amores frugais.

Suco de calamansi e omelete feita por João: jantar perfeito
Mangostim, a nova fruta favorita do João


A média de altura - uma terra onde sou maioria :P

Os filipinos são baixinhos. Bem baixinhos. Tipo eu. De forma que eu ando na multidão e fico na média de altura das mulheres. Várias são mais baixas. Sério. Nunca antes na minha história, rs! Estou encantada com isso, porque, vejam bem, há várias vantagens: pela primeira vez na vida, eu encontro roupas com facilidade, sem precisar de ajustes. Fazer barra, punho e afins eram coisas corriqueiras, quase uma extensão do ato de comprar roupas. Agora a mágica se fez: é bater o olho, vestir e ficar certinha! Com a grande diferença de que elas são mais franzinas (trocando em miúdos, não têm muito peito nem bunda), então tenho sempre que comprar um tamanho maior. Fora isso, tudo lindo!

Outra vantagem, para ilustrar. Dia desses, andei de jeepney pela primeira vez. O João ficou todo encurvado lá dentro, coitado. Já eu fui linda e faceira, sem nenhum desconforto por causa da altura. Ah, finalmente ter vantagens! Não tem preço! Tudo bem que a parte obscura da viagem foi que pegamos o jeepney errado e fomos parar numa quebrada que até hoje não sabemos onde era, mas tudo bem. Esses percalços fazem parte da aventura :)

Eu e os ancestrais filipinos no Ayala Museum













quinta-feira, 6 de novembro de 2014

hoje eu quero fazer tudo por você

Chega trompete, chega tripé. A câmera veio antes. O sons são da cidade. Seus livros de história e relações internacionais ganham a estante que outrora abrigava minhas pequenezas e enfeites de viagens. Meus orixás, patuás, minha proteção. Meus livros de cinema ganham a estante central da sala, onde eu sempre imaginei suas coisas. Na verdade, tudo se entrelaça, agora que aprendemos o verdadeiro sentido de compartilhar.
Não são só os seus livros que abraçam os meus – economia ao lado dos quadrinhos do Liniers e Mafalda. É você que me acolhe nesta vida nômade, e eu acolho você ao deixar minha quietude brasiliense para aquietar você em todos os momentos de destempero.
Enquanto escrevo, você confere se todas as caixas foram entregues, conversa algo em inglês com os funcionários filipinos e dá uma última assinatura. Eu sou tomada por uma súbita doçura e penso como é bom poder alternar também os papeis na vida – poder baixar a guarda de quando em vez, enquanto você assume as providências práticas, sendo que momentos atrás era eu quem cuidava da parte chata enquanto você fazia outra coisa que precisava ser feita. Alternamos o passo tranquilamente nessa dança, sem fazer disso uma questão, e isso é lindo.
Os filipinos recolhem as caixas vazias e vão embora. O apartamento torna-se subitamente vazio e cheio de objetos e sonhos. Você me abraça, orgulhoso, e me chama para um café. Eu te chamo para um cafuné. E assim Manila nos dá, definitivamente, as boas-vindas numa manhã ensolarada de quinta-feira.


C

sábado, 20 de setembro de 2014

Diário da saudade - Dias 24 e 25


Dias 24 e 25 - 19 e 20/09


Para ler ouvindo o silêncio.






Minha saudade é tanta que me sinto monotemática. Me sinto também um pouco triste e um pouco assustada com a perspectiva de ir embora. Outubro vai chegando. Metade da nossa jornada longe um do outro já foi. Enfrentamos. Falta a outra metade. Agora acabou o ensaio e é pra fazer valendo: arrumar as coisas, desocupar a minha casa, dar até logo para os amigos, a família, os meus gatos. Eu deixarei em Brasília tudo o que foi minha referência e minha identidade ao longo de uma vida. Você já é mais acostumado a mudanças. Minha máxima mudança foi sair da casa da minha mãe.

Agora, atravessar um oceano por amor. Com algumas coisas identitárias na bagagem. Um quadro da Giulietta Masina, minha câmera fotográfica, uma Nossa Senhora Aparecida feita de palha, minhas guias, talvez uma das minhas bonecas. Roupas, minhas e do bebê. O que levar para uma nova vida? O que já não cabe mais? O que ainda faz sentido, mas não é possível e prático levar? Como se desfazer desses objetos que nos denotam?

Há coisas das quais não nos desfazemos. Que seguem conosco seja lá qual for o destino. Quais são as suas coisas identitárias? O exercício que tenho feito, e que é bonito, é desconstruir esses objetos até perceber qual é a essência que eles carregam, até ver que essa essência é minha. Que teve a forma de uma boneca negra, de um espírito-santo de fuxico e chita, de um quadro. Os objetos são o que são pela carga de afeto que depositamos neles, não é?

A cada processo de mudança em que tenho que entrar em contato com o apego, revisito Bacherlard e sua poética. Juntos, passeamos pela casa. Os cantos, as miniaturas, as imagens do profundo. O que há nesses objetos que eu amo? Arrisco: fé, cultura popular, poesia, brasilidade. Amor, oratórios, passarinhos e pequenezas. 

Um coração feito de rio e da leveza (e força) das águas.

Escrevo para você e, pensando agora em identidade, me lembrei de um poema maravilhoso da Viviane Mosé. Acho que li para você um dia, quando acordamos. Acho, até, que reforcei que era um poema que falava muito de mim. Diz assim:

Eu poderia chorar coisas assim:
Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.

Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber.

Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso, pensei
Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,
Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.

Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,
Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados
Em minha pele.

Meu rosto tem muita simpatia por ventos,
Reconhece certos humores próprios a vento.
Gosto de coisas que se movem.

Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.
E árvores.
Se bem que tenho enorme ternura por bois
Fincados no pasto como palavras no papel.

Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso. 



Entender cada imagem desse poema é entender quem eu sou. Para além do retrato, sabe? O más alla, alma adentro. E eu quero que você acesse este lugar.

Sejam sempre bem-vindo, J., a esse coração de rio.



Um beijo com todo o amor que houver nessa vida,

D.










18 dias no Japão

Foram 18 dias de sonho e muitas caminhadas pelo Japão. Começamos por Tokyo, onde ficamos por 4 dias. A ideia era entrarmos em contato com c...