Querida Clarice,
A hora mais triste do dia, para você, continua sendo 3 da tarde? Para mim, é difícil estabelecer. Todas as horas são um pouco tristes e um pouco felizes. Meu filho chega em algumas semanas. Meu primeiro filho. O que significa esta palavra "filho", Clarice? Eu só vislumbro. Ainda me sinto no meio do caminho desta trilha que é virar mãe. Será que a gente aprende? Eu tenho tanto a aprender. No fundo, acho que aprendo ouvindo a minha solidão. Mas nenhum homem é uma ilha, não é? Nem mesmo quando cercado de sete mil ilhas.
É que, aqui, tenho de aprender a ser outra. A ser, talvez, mais sóbria, mais apolínea. Há faces que já não me cabem. Não por eu não querer, mas por não haver espaço. Não encontro espaço, por exemplo, para o meu bloco de carnaval. Aquele que não liga se não é fevereiro. Que pinta os olhos de rosa e amarelo, coloca flor de retalho nos cabelos, lantejoulas, meia arrastão, cílios postiços. Uma boneca-fulô-drag-brincante. Eu era isso também, Clarice. Também. Dentro daquele turbante dos filhos de Gandhy. Neste apartamento (apartamento vem de apartar?), cavo o espaço para o meu turbante, minhas contas e mistérios. Finco as unhas nos tacos. Tudo isto que me é sagrado, para onde tem ido?
Leio suas cartas a Sabino e fiquei com vontade de me meter na conversa. Há tantos ecos que vocês mal sabem, e sou infinitamente grata por me deixarem entrar. No íntimo, também sou frágil, incerta, descontrolada. Fernando te disse algo tão bonito. Vou procurando os grifos. "A gente podia ser assim, Clarice, viver apenas, aceitar o momento como essencial e nascer de novo entre dois cigarros, entre o brinquedo e o edifício, entre a palavra e a curva."
Quem ler estas linhas corre o risco de pensar que ando triste por aqui. Não é que eu ande. É que estou trocando de pele a fórceps. Tudo me transforma. Sobretudo a falta tem me transformado, este aprender a ser de uma nova maneira, a compreender novos códigos. O tal relativismo.
Mas veja: eu estou absolutamente preenchida de uma nova vida. Então soa um paradoxo falar em falta, não é? Mas o que somos senão grandes paradoxos perambulantes por aí, cheios de alegria e dor? Vida e morte. Certa vez, tive uma epifania e me veio claro que tudo, absolutamente tudo, se resume a esta dupla, este par de opostos complementares. Todo o resto se constrói a partir.
Conte, Clarice, como anda a sua relação com Frau Hulda? Você parece gostar de quando ela esbarra na sua solidão e força um contato com o mundo real. O que teremos para o almoço? Você é tão fina, Clarice, que consegue pedir a Frau Hulda um almoço impecável. Eu não consigo. Não fui versada no Correio Feminino, embora nutra por ele genuíno interesse. Você tem um cardápio para a semana, Clarice? Adoraria poder compartilhá-lo. Acho que passaremos várias tardes juntas. Quem sabe um chá com Frau Hulda?
Nos seus intervalos de costurar para dentro, me escreva. Talvez quando sua missiva chegar, eu já esteja entre fraldas e cuidados que agora desconheço. Não haverá problema. Eu encontrarei um instante suspenso para ler você. Mande lembranças a Fernando, que sempre me diverte.
Meu carinho,
Dany
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Conscious birth - ou da importância dos afetos na gestação
Eu e João participamos hoje de um seminário aqui em Manila chamado Conscious Birth, conduzido pela doula russa Irina Otmakhova. O grupo era bem pequeno e pudemos aprender sobre as possibilidades de um parto humanizado - seja em casa, seja no hospital. A maioria das informações não era bem novidade, afinal a internet e os livros estão aí para aplacar a nossa avidez. O que mais me valeu, nessa experiência, foi a possibilidade do encontro.
Desde que cheguei aqui, tive contato com apenas uma grávida. Estar num círculo com outros casais que vivem a mesma jornada que você é mesmo da maior importância. Ao menos me foi. O fim do seminário foi super interessante, aliás. Porque a Irina começa a conversa pedindo para escrevemos num papelzinho quais noções sobre parto nós carregamos - heranças da sociedade, coisas que nos ensinaram e que crescemos tomando como verdades. Daí no fim do encontro, à luz das novas informações, ela pede para escrevermos o que gostaríamos que tivessem nos dito antes.
Cada mulher, então, vai para o centro de um pequeno círculo formado por pétalas de rosas. Em volta desse círculo, os outros participantes formam uma roda maior. O papelzinho com as frases que esta mulher escreveu vai passando e cada um lê para ela uma das afirmações.
Pode parecer uma coisa boba, mas o poder desta simples atividade é impressionante. Porque são outras mulheres te dizendo coisas como "por mais que doa, você dá conta", "o nascimento é sagrado e deve ser cheio de amor", "este é um novo começo" etc. Como eu disse, são coisas que a gente já sabe. Mas o poder do símbolo, deste círculo de mulheres, foi o que mais me impressionou. O gesto.
Irina leu para nós um texto atribuído a uma poetisa africana chamada Tolba Phanem, em que ela fala sobre como uma certa tribo na África encara a concepção, gravidez e a vida deste novo ser gerado. O texto é longo e está disponível em vários sites internet afora. Vou resumir aqui a ideia:
Nesta tribo, a idade de uma criança não começa a ser contada a partir da data do seu nascimento, mas a partir do primeiro momento em que a mãe desejou ter o filho. Enquanto ideia, enquanto presença, ele já nasceu e já habita a alma da mãe. Conectada com esta presença, com este desejo, ela vai para debaixo de uma árvore e escuta qual é a canção daquela criança. Ela volta para casa, canta esta canção com seu companheiro, e aí eles estão prontos para a concepção. A música é repetida várias vezes na gravidez, por diversas pessoas da tribo que formam uma espécie de rede em torno da mulher e seu filho. Quando ele nasce, já tem sua música. E essa música segue sendo a identidade daquele ser. Quando ele se esquece de seus valores, quando se sente menor ou inútil, as pessoas cantam sua música como forma de lembrá-lo de quem ele é. O mesmo vale quando ele fere as regras da tribo. Em vez da punição, as pessoas cantam sua música e o transformam pelo afeto e pela reconexão consigo.
Achei essa história tão linda, mas tão linda, que deixei de lado minha faceta controladora (a que perguntaria "mas que tribo é essa? ninguém nunca diz, então é porque não existe") e simplesmente me liguei com o que existe de mais simples nela. Como uma história de "era uma vez". Sem tempo, sem lugar. Isso não importa. O que importa é compreender a força que as redes de afeto têm na construção e fortalecimento da nossa identidade.
De repente, foi como se eu me sentisse ligada a todas as mulheres que passaram pela minha vida. Minha mãe, minha avó, minha tia...tantos umbigos antes do meu, como escreveu uma vez a Liziane Guazina, poeta radicada em Brasília e que também espera seu primeiro bebê. Fiquei pensando que tão importante quanto o ritual do chá de bebê, em que ganhamos coisas para o enxoval, seria um ritual em que as nossas mulheres próximas - gerações mais velhas, gerações mais novas - pudessem apenas estar ali e nos abraçar. Nos presentear com objetos que fossem um amuleto de sorte, um amuleto de boa jornada rumo ao desconhecido, um amuleto que conectasse os umbigos e nos tornasse todas uma. Eu colocaria todos esses amuletos juntos numa caixinha e teria um retrato de mim, porque eu sou o amor e a coragem de todas essas mulheres.
Assim talvez seguiríamos mais fortalecidas e com menos medo.
Saí deste pequeno seminário de duas horas com a sensação de estar mais conectada com o que interessa e menos com coisas externas, como as coisas que ainda preciso comprar, o berço que não chegou, o modelo de canguru que não consigo escolher...
Porque, no fundo, nosso bebê precisa mesmo é do nosso amor e do nosso colo. Que a gente cante sempre a sua música. Isso, Lipe, nunca há de faltar!
Desde que cheguei aqui, tive contato com apenas uma grávida. Estar num círculo com outros casais que vivem a mesma jornada que você é mesmo da maior importância. Ao menos me foi. O fim do seminário foi super interessante, aliás. Porque a Irina começa a conversa pedindo para escrevemos num papelzinho quais noções sobre parto nós carregamos - heranças da sociedade, coisas que nos ensinaram e que crescemos tomando como verdades. Daí no fim do encontro, à luz das novas informações, ela pede para escrevermos o que gostaríamos que tivessem nos dito antes.
Cada mulher, então, vai para o centro de um pequeno círculo formado por pétalas de rosas. Em volta desse círculo, os outros participantes formam uma roda maior. O papelzinho com as frases que esta mulher escreveu vai passando e cada um lê para ela uma das afirmações.
Pode parecer uma coisa boba, mas o poder desta simples atividade é impressionante. Porque são outras mulheres te dizendo coisas como "por mais que doa, você dá conta", "o nascimento é sagrado e deve ser cheio de amor", "este é um novo começo" etc. Como eu disse, são coisas que a gente já sabe. Mas o poder do símbolo, deste círculo de mulheres, foi o que mais me impressionou. O gesto.
| Eu, João e Lipe bem ali no canto direito. A doula é a de colar, no centro |
Irina leu para nós um texto atribuído a uma poetisa africana chamada Tolba Phanem, em que ela fala sobre como uma certa tribo na África encara a concepção, gravidez e a vida deste novo ser gerado. O texto é longo e está disponível em vários sites internet afora. Vou resumir aqui a ideia:
Nesta tribo, a idade de uma criança não começa a ser contada a partir da data do seu nascimento, mas a partir do primeiro momento em que a mãe desejou ter o filho. Enquanto ideia, enquanto presença, ele já nasceu e já habita a alma da mãe. Conectada com esta presença, com este desejo, ela vai para debaixo de uma árvore e escuta qual é a canção daquela criança. Ela volta para casa, canta esta canção com seu companheiro, e aí eles estão prontos para a concepção. A música é repetida várias vezes na gravidez, por diversas pessoas da tribo que formam uma espécie de rede em torno da mulher e seu filho. Quando ele nasce, já tem sua música. E essa música segue sendo a identidade daquele ser. Quando ele se esquece de seus valores, quando se sente menor ou inútil, as pessoas cantam sua música como forma de lembrá-lo de quem ele é. O mesmo vale quando ele fere as regras da tribo. Em vez da punição, as pessoas cantam sua música e o transformam pelo afeto e pela reconexão consigo.
Achei essa história tão linda, mas tão linda, que deixei de lado minha faceta controladora (a que perguntaria "mas que tribo é essa? ninguém nunca diz, então é porque não existe") e simplesmente me liguei com o que existe de mais simples nela. Como uma história de "era uma vez". Sem tempo, sem lugar. Isso não importa. O que importa é compreender a força que as redes de afeto têm na construção e fortalecimento da nossa identidade.
De repente, foi como se eu me sentisse ligada a todas as mulheres que passaram pela minha vida. Minha mãe, minha avó, minha tia...tantos umbigos antes do meu, como escreveu uma vez a Liziane Guazina, poeta radicada em Brasília e que também espera seu primeiro bebê. Fiquei pensando que tão importante quanto o ritual do chá de bebê, em que ganhamos coisas para o enxoval, seria um ritual em que as nossas mulheres próximas - gerações mais velhas, gerações mais novas - pudessem apenas estar ali e nos abraçar. Nos presentear com objetos que fossem um amuleto de sorte, um amuleto de boa jornada rumo ao desconhecido, um amuleto que conectasse os umbigos e nos tornasse todas uma. Eu colocaria todos esses amuletos juntos numa caixinha e teria um retrato de mim, porque eu sou o amor e a coragem de todas essas mulheres.
Assim talvez seguiríamos mais fortalecidas e com menos medo.
Saí deste pequeno seminário de duas horas com a sensação de estar mais conectada com o que interessa e menos com coisas externas, como as coisas que ainda preciso comprar, o berço que não chegou, o modelo de canguru que não consigo escolher...
Porque, no fundo, nosso bebê precisa mesmo é do nosso amor e do nosso colo. Que a gente cante sempre a sua música. Isso, Lipe, nunca há de faltar!
domingo, 25 de janeiro de 2015
A vida em Manila #4 - Diários de uma grávida
Estar grávida é uma experiência única. A frase é o maior clichê do universo, mas é totalmente verdadeira. O corpo muda, o humor muda, as necessidades mudam. Às vezes, tudo o que precisamos são coisas que dêem conforto emocional. Portanto, posso dizer que estar grávida longe de casa, do outro lado do mundo, torna o processo ainda mais sui generis.
Passei metade da gestação no Brasil e metade aqui nas Filipinas. Agora, quase na reta final (já se vão 33 semanas!), posso compartilhar com vocês as principais diferenças que tenho notado.
1) Aqui, as grávidas são intocáveis - mas nem tanto
Explico: desde que cheguei, qualquer atividade diferente precisou ser devidamente negociada. De uma simples massagem no pé até a prática de esportes. No Brasil, é muito comum encontrar massagens para gestantes, que costumam misturar manobras de drenagem linfática com técnicas de relaxamento. A drenagem (feita por especialistas em gestantes) é inclusive recomendada pelos obstetras, já que nós grávidas sofremos muito com retenção de líquido.
Já aqui nas Filipinas, drenagem linfática para grávidas parece uma heresia. Fora de cogitação. Nos vários estúdios de massagem espalhados por Makati, onde moro, só me aceitaram para fazer uma levíssima massagem nos pés. Eles alegam que a massagem pode ativar pontos de reflexologia perigosos na gravidez. A real, na minha humilde opinião, é que ninguém quer arriscar que você tenha algum problema e depois diga que foi por causa da massagem.
Outro ritual em que fui barrada por estar grávida foi a depilação. Terror e pânico! Como assim, ficar sem depilar??? Eu venho do Brasil, terra que inclusive dá nome às técnicas utilizadas mundo afora, minha gente! Diante da minha perplexidade, eles justificaram que a cera pode fazer mal ao bebê. Okêi.
Todo esse cenário leva a crer que aqui o esquema é mais prudente e cuidadoso com as grávidas, certo? Não necessariamente. Aí entra um paradoxo que até hoje não entendo bem.
Na hora das situações desgastantes do dia-a-dia (pegar metrô lotado, enfrentar fila de taxi, fila de banheiro, fila de banco etc), as grávidas entram no vale-tudo junto com todos os outros mortais. Esqueça conceitos como fila preferencial e gentileza. A vida é dura para todos. Embora haja plaquinhas de fila preferencial nos lugares, as grávidas raramente estão representadas nela. Há menções apenas a idosos e portadores de necessidades especiais.
João pondera que é porque na Ásia tem muita gente e há um certo espírito de sobrevivência, do tipo "farinha pouca, meu pirão primeiro". Bom, eu até entendo, mas continuo achando estranho. Fila do banheiro enorme, você apertada-quase-morrendo-com-a-bexiga-do-tamanho-de-uma-ervilha, e ninguém dá a vez. Ninguém nem olha pra você, na real. Você fica lá em vigésimo lugar da fila e espera, espera, espera.
Sobre banheiros, ainda tem um detalhe cruel: aqui, as filas se formam atrás de cada cabine, em vez de uma fila "geral" para entrar nas cabines que forem desocupando, como costuma acontecer no Brasil. Então várias vezes eu fiquei lá, em pé, esperando minha vez e puf, uma pessoa passa na frente na maior cara de pau. Demorei a entender. É que eu não estava "em frente" à cabine que desocupou. Não parece muito justo, né?
Depois de enfrentar filas gigantescas, de ficar em pé porque ninguém cede lugar e de ainda ficar sem massagem, o que aprendi é: para manter a sanidade, é preciso deixar de mimimi e aceitar que a lógica é simplesmente outra. Não importa seu cansaço, desconforto, enjôo ou qualquer outra coisa. Você é só mais uma na multidão, onde cada um circula com suas dores e delícias.
2) Mostrar a barriga pode ser estranho e inconveniente
Na reta final da gravidez, a barriga começa a pesar bastante. Ainda mais neste calor brabo de Manila. Tudo incomoda. Certa vez, estávamos andando no Rizal Park (mal comparando, seria algo próximo do nosso Parque da Cidade) e eu levantei a blusa, que estava apertando. Todo mundo me olhou como se eu estivesse fazendo a coisa mais estranha e absurda do universo. Captei o estranhamento e desisti de fazer a Leila Diniz por mais tempo.
Um dia, no estúdio de massagem, também deixei a barriga de fora enquanto tentava me conectar com o cosmos. A massagista mandou um "ma'am, you're too sexy!". Demorei alguns segundos para entender se era uma cantada, mas acho que foi uma forma simpática de me mandar tampar a barriga. Assim o fiz e a moça não falou mais nada.
Por via das dúvidas, melhor mostrar a barriga apenas na praia ou na piscina do prédio.
3) Ma'am é diferente de mom
Ma'am é uma abreviação para madam, bastante usada em inglês. Se você for mulher, todos os vendedores vão te chamar de ma'am. O problema é que só fui descobrir isso de forma traumática.
Nas minhas primeiras semanas aqui, a barriga deu uma crescida brusca e todas as minhas roupas começaram a apertar. Precisei comprar vestidos de grávida e aquelas calças com elástico, tudo meio na emergência. Daí fomos ao Landmark, que é uma loja popular num shopping aqui perto de casa, onde você encontra de tudo.
Na seção de "maternidade", fui metralhada por umas cinco vendedoras de uma só vez, todas me chamando de ma'am e me dando peças para experimentar. Logo eu, uma inadaptada convicta, que odeio vendedores me abordando em lojas! Aquilo me deu muito desespero. Meu humor foi desaparecendo até que, num momento de fúria Scooby-Loo, eu virei pro João:
- Que droga!!! Será que dá para essas vendedoras pararem de forçar amizade e me chamar de "mamãezinha"??? Só porque eu estou comprando coisa de grávida? Não precisa disso! Odeio esse povo que chama grávida de "mãezinha"!
João apenas me olhou, caiu na risada, e me explicou que elas estavam me chamando de madame. Senhora. Coisa fina. Até hoje, de vez em quando, ele pega no meu pé com essa minha primeira gafe, dizendo que a cidade inteira me chama de mamãe. Tipo da coisa que será sempre usada contra mim. Já aceitei para a vida.
Resumo da história:
Tenho a sorte de morar num lugar ótimo, onde não preciso de carro e posso fazer quase tudo caminhando. Encontrei uma obstetra maravilhosa, com muita experiência com expatriados. O hospital onde será o parto é aqui pertinho. Está tudo ótimo comigo e com o Lipe e ele deve chegar na primeira semana de março.
Ainda assim, tem dias em que esses pequenos ruídos chateiam e tudo o que eu queria era fechar os olhos e me teletransportar para o Brasil. Mas aí penso que seria uma fuga. As diferenças culturais estão aí para nos engrandecer, das grandes às pequenas coisas.
O importante é ter paciência para passar por elas com graça e leveza!
Passei metade da gestação no Brasil e metade aqui nas Filipinas. Agora, quase na reta final (já se vão 33 semanas!), posso compartilhar com vocês as principais diferenças que tenho notado.
1) Aqui, as grávidas são intocáveis - mas nem tanto
Explico: desde que cheguei, qualquer atividade diferente precisou ser devidamente negociada. De uma simples massagem no pé até a prática de esportes. No Brasil, é muito comum encontrar massagens para gestantes, que costumam misturar manobras de drenagem linfática com técnicas de relaxamento. A drenagem (feita por especialistas em gestantes) é inclusive recomendada pelos obstetras, já que nós grávidas sofremos muito com retenção de líquido.
Já aqui nas Filipinas, drenagem linfática para grávidas parece uma heresia. Fora de cogitação. Nos vários estúdios de massagem espalhados por Makati, onde moro, só me aceitaram para fazer uma levíssima massagem nos pés. Eles alegam que a massagem pode ativar pontos de reflexologia perigosos na gravidez. A real, na minha humilde opinião, é que ninguém quer arriscar que você tenha algum problema e depois diga que foi por causa da massagem.
Outro ritual em que fui barrada por estar grávida foi a depilação. Terror e pânico! Como assim, ficar sem depilar??? Eu venho do Brasil, terra que inclusive dá nome às técnicas utilizadas mundo afora, minha gente! Diante da minha perplexidade, eles justificaram que a cera pode fazer mal ao bebê. Okêi.
Todo esse cenário leva a crer que aqui o esquema é mais prudente e cuidadoso com as grávidas, certo? Não necessariamente. Aí entra um paradoxo que até hoje não entendo bem.
Na hora das situações desgastantes do dia-a-dia (pegar metrô lotado, enfrentar fila de taxi, fila de banheiro, fila de banco etc), as grávidas entram no vale-tudo junto com todos os outros mortais. Esqueça conceitos como fila preferencial e gentileza. A vida é dura para todos. Embora haja plaquinhas de fila preferencial nos lugares, as grávidas raramente estão representadas nela. Há menções apenas a idosos e portadores de necessidades especiais.
João pondera que é porque na Ásia tem muita gente e há um certo espírito de sobrevivência, do tipo "farinha pouca, meu pirão primeiro". Bom, eu até entendo, mas continuo achando estranho. Fila do banheiro enorme, você apertada-quase-morrendo-com-a-bexiga-do-tamanho-de-uma-ervilha, e ninguém dá a vez. Ninguém nem olha pra você, na real. Você fica lá em vigésimo lugar da fila e espera, espera, espera.
Sobre banheiros, ainda tem um detalhe cruel: aqui, as filas se formam atrás de cada cabine, em vez de uma fila "geral" para entrar nas cabines que forem desocupando, como costuma acontecer no Brasil. Então várias vezes eu fiquei lá, em pé, esperando minha vez e puf, uma pessoa passa na frente na maior cara de pau. Demorei a entender. É que eu não estava "em frente" à cabine que desocupou. Não parece muito justo, né?
Depois de enfrentar filas gigantescas, de ficar em pé porque ninguém cede lugar e de ainda ficar sem massagem, o que aprendi é: para manter a sanidade, é preciso deixar de mimimi e aceitar que a lógica é simplesmente outra. Não importa seu cansaço, desconforto, enjôo ou qualquer outra coisa. Você é só mais uma na multidão, onde cada um circula com suas dores e delícias.
2) Mostrar a barriga pode ser estranho e inconveniente
Na reta final da gravidez, a barriga começa a pesar bastante. Ainda mais neste calor brabo de Manila. Tudo incomoda. Certa vez, estávamos andando no Rizal Park (mal comparando, seria algo próximo do nosso Parque da Cidade) e eu levantei a blusa, que estava apertando. Todo mundo me olhou como se eu estivesse fazendo a coisa mais estranha e absurda do universo. Captei o estranhamento e desisti de fazer a Leila Diniz por mais tempo.
Um dia, no estúdio de massagem, também deixei a barriga de fora enquanto tentava me conectar com o cosmos. A massagista mandou um "ma'am, you're too sexy!". Demorei alguns segundos para entender se era uma cantada, mas acho que foi uma forma simpática de me mandar tampar a barriga. Assim o fiz e a moça não falou mais nada.
Por via das dúvidas, melhor mostrar a barriga apenas na praia ou na piscina do prédio.
3) Ma'am é diferente de mom
Ma'am é uma abreviação para madam, bastante usada em inglês. Se você for mulher, todos os vendedores vão te chamar de ma'am. O problema é que só fui descobrir isso de forma traumática.
Nas minhas primeiras semanas aqui, a barriga deu uma crescida brusca e todas as minhas roupas começaram a apertar. Precisei comprar vestidos de grávida e aquelas calças com elástico, tudo meio na emergência. Daí fomos ao Landmark, que é uma loja popular num shopping aqui perto de casa, onde você encontra de tudo.
Na seção de "maternidade", fui metralhada por umas cinco vendedoras de uma só vez, todas me chamando de ma'am e me dando peças para experimentar. Logo eu, uma inadaptada convicta, que odeio vendedores me abordando em lojas! Aquilo me deu muito desespero. Meu humor foi desaparecendo até que, num momento de fúria Scooby-Loo, eu virei pro João:
- Que droga!!! Será que dá para essas vendedoras pararem de forçar amizade e me chamar de "mamãezinha"??? Só porque eu estou comprando coisa de grávida? Não precisa disso! Odeio esse povo que chama grávida de "mãezinha"!
João apenas me olhou, caiu na risada, e me explicou que elas estavam me chamando de madame. Senhora. Coisa fina. Até hoje, de vez em quando, ele pega no meu pé com essa minha primeira gafe, dizendo que a cidade inteira me chama de mamãe. Tipo da coisa que será sempre usada contra mim. Já aceitei para a vida.
Resumo da história:
Tenho a sorte de morar num lugar ótimo, onde não preciso de carro e posso fazer quase tudo caminhando. Encontrei uma obstetra maravilhosa, com muita experiência com expatriados. O hospital onde será o parto é aqui pertinho. Está tudo ótimo comigo e com o Lipe e ele deve chegar na primeira semana de março.
Ainda assim, tem dias em que esses pequenos ruídos chateiam e tudo o que eu queria era fechar os olhos e me teletransportar para o Brasil. Mas aí penso que seria uma fuga. As diferenças culturais estão aí para nos engrandecer, das grandes às pequenas coisas.
O importante é ter paciência para passar por elas com graça e leveza!
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| Scooby-Loo, meu alter-ego, pronto pra briga! :P |
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
A vida em Manila # 3 - Uma alérgica nas Filipinas
Quem me conhece sabe: sofro com rinite alérgica desde que nasci. Lá se vão 30 anos de todo o tipo de tratamento, incluindo alopatia, homeopatia, vacinas em forma de injeção, loratadina, desloratadina, nebulizador, sterilair e por aí caminha meu brainstorm alérgico. Minha vida, portanto, sempre foi cheia de "cuidados", qual o Thomas J., do Meu Primeiro Amor.
Se viajava e ficava hospedada numa pousada mais rústica, logo o nariz começava a coçar loucamente, o olho lacrimejava e tinha início a sessão de espirros intermináveis. Tudo me sensibilizava: mofo, poeira, lençol um pouco mais antigo, jornal, mosquiteiros, carpete, pelo de gato, perfume floral, mudança de temperatura. Mudar de ambiente, por sinal, era sempre tenso. Era sair da sombra e ir pro sol para começar a espirrar. Já cheguei a parar o caro no acostamento para ter minha sessão de espirros em segurança.
Na infância, a lembrança que tenho é a da minha mãe dando como primeiras instruções para as diaristas: tirar a poeira do quarto da Dany. Não sei dizer em que momento a coisa começou a melhorar. Acho que foi na vida adulta mesmo, saindo de casa, quando a gente começa a não conseguir limpar tudo com o mesmo cuidado de mãe, risos. Acho que meu organismo teve que criar vergonha na cara na marra. Aí resolvi barbarizar e arrumei dois gatos. Numa kit. O primeiro mês foi o inferno. Tomei Desalex todo santo dia, até que um dia eu melhorei.
Brinco que apostei na medicina medieval de insistir no contato até o organismo parar de entrar em colapso. Mas claro que busquei outras coisas. Fiz, por exemplo, a cirurgia de desvio de septo, que melhorou bastante minha respiração, sobre a qual eu já falei aqui. Não foi só esperar a cura cair do céu.
Tudo estava lindo, até eu me mudar para as Filipinas. O combo poluição + ar condicionado me nocauteou. Aqui faz muito calor e todo lugar tem ar condicionado sapecando no máximo. Ou mínimo. Sei lá. Só sei que você sai de um bafo de calor na rua e entra no Pólo Norte a cada ambiente interno em que resolva entrar. O ar é onipresente, inclusive em casa. Às vezes, só é possível dormir com o bicho ligado. E aí, sem perceber, comecei a desenvolver uma alergia sobrenatural nesses dois meses aqui.
A primeira crise na Ásia
No início, parecia uma gripe com muita irritação na garganta e tosse. Só que a suposta gripe não ia embora nunca e eu passei a desconfiar que a rinite poderia estar de volta. Diante dessa suspeita, o que fazer? Tomar antialérgico na gravidez me parecia um sacrilégio. Resolvi, antes, tentar a vida sem ar condicionado (eu já desconfiava que ele fosse o vilão).
Capitulei no primeiro dia. Quer dizer, na primeira noite. Dormi com a janela aberta e fui atacada por pernilongos asiáticos indóceis. E, eu asseguro, eles são da pior espécie. Deve ter sido a noite mais mal dormida dos últimos tempos. Tive de escolher entre morrer de calor ou devorada pelos mosquitos. Como também tenho alergia a picada de pernilongo, fechei a porta da varanda e escolhi morrer de calor.
Mas é claro que a coisa sempre pode ficar pior: um pernilongo maledetto ficou preso no quarto e, só de raiva, não parou de zumbizar no meu ouvido. A solução, no desespero, foi cobrir meu corpo todo, inclusive a cabeça. No calor de rachar sem ar condicionado, lá estava eu, feito uma múmia, toda enrolada a me proteger no pernilongo. E tossindo. E espirrando. João, é claro, já havia ido dormir no outro quarto há muito tempo, que ele não é besta.
Acordei decidida a marcar uma consulta com a obstetra. Eu precisava de ajuda. Ela me examinou e disse que tinha toda a cara de ser mesmo uma crise alérgica. Começou a preencher o receituário e, de repente, eu reconheci: loratadine! Não contive meu sorriso. Ela não só estava permitindo que eu tomasse remédio, como estava indicando o que eu já conheço e sei que funciona! Perguntei se era seguro para o bebê e ela disse que sim, que era um remédio baby friendly.
Bom, acho que nenhum remédio deve ser 100% baby friendly, mas a gente precisa deixar os radicalismos de lado e pensar no que é melhor. Eu já estava há mais de duas semanas sofrendo, sem querer tomar remédio. Havia chegado no meu limite. Acho que meu filho prefere me ver bem e feliz, dormindo bem, de bom humor, do que tossindo e espirrando o dia todo.
Vi que não adiantaria brigar com todo o sistema de ar condicionado das Filipinas e resolvi aceitar a medicação. Combinei com a médica de fazermos o teste por uma semana. Se os sintomas sumirem, teremos certeza de que é realmente só uma crise alérgica.
Tudo isso me faz pensar que o processo de se mudar, além de toda a questão emocional/cultural da adaptação, envolve também a parte corporal, fisiológica. Adaptar o corpo a novos ares, novos hábitos, adquirir outros anticorpos. O processo é muito mais complexo do que a gente imagina. A regência do verbo diz muito. Não é "mudar", apenas. É "se mudar". Mudar a si mesmo, o tempo todo, diante do contato com o outro - seja o outro um espaço ou uma pessoa.
Penso que fazer isso grávida é duplamente desafiador. Amplia a outridade. Enquanto espero o almoço no restaurante que fica dentro do hospital, peço desculpas ao meu filhote por não ser valente o suficiente para aguentar sem remédios. Depois penso que valentia é encarar esse duplo twist carpado cultural com ele na barriga. Você já nascerá sob este signo, meu gatinho. O da tolerância e dos mergulhos no desconhecido. Para além do grande mergulho que já é nascer.
Penso sempre em você, a cada segundo do meu dia. Agora vou deixar o café onde escrevo essas linhas para fazer um ultrassom e ver sua carinha. Dra. Henson, toda vez que escuta seu coração, diz que você é um bebê muito alegre. Eu sinto gratidão por você manter sua alegria mesmo quando eu estou um caco. Sinto gratidão simplesmente porque você existe!
Vamos nos curar da alergia, porque cada tosse deve ser um terremoto aí para você. E eu quero você bem bonitinho e faceiro!
Amo você, coisa miúda!
Se viajava e ficava hospedada numa pousada mais rústica, logo o nariz começava a coçar loucamente, o olho lacrimejava e tinha início a sessão de espirros intermináveis. Tudo me sensibilizava: mofo, poeira, lençol um pouco mais antigo, jornal, mosquiteiros, carpete, pelo de gato, perfume floral, mudança de temperatura. Mudar de ambiente, por sinal, era sempre tenso. Era sair da sombra e ir pro sol para começar a espirrar. Já cheguei a parar o caro no acostamento para ter minha sessão de espirros em segurança.
Na infância, a lembrança que tenho é a da minha mãe dando como primeiras instruções para as diaristas: tirar a poeira do quarto da Dany. Não sei dizer em que momento a coisa começou a melhorar. Acho que foi na vida adulta mesmo, saindo de casa, quando a gente começa a não conseguir limpar tudo com o mesmo cuidado de mãe, risos. Acho que meu organismo teve que criar vergonha na cara na marra. Aí resolvi barbarizar e arrumei dois gatos. Numa kit. O primeiro mês foi o inferno. Tomei Desalex todo santo dia, até que um dia eu melhorei.
Brinco que apostei na medicina medieval de insistir no contato até o organismo parar de entrar em colapso. Mas claro que busquei outras coisas. Fiz, por exemplo, a cirurgia de desvio de septo, que melhorou bastante minha respiração, sobre a qual eu já falei aqui. Não foi só esperar a cura cair do céu.
Tudo estava lindo, até eu me mudar para as Filipinas. O combo poluição + ar condicionado me nocauteou. Aqui faz muito calor e todo lugar tem ar condicionado sapecando no máximo. Ou mínimo. Sei lá. Só sei que você sai de um bafo de calor na rua e entra no Pólo Norte a cada ambiente interno em que resolva entrar. O ar é onipresente, inclusive em casa. Às vezes, só é possível dormir com o bicho ligado. E aí, sem perceber, comecei a desenvolver uma alergia sobrenatural nesses dois meses aqui.
A primeira crise na Ásia
No início, parecia uma gripe com muita irritação na garganta e tosse. Só que a suposta gripe não ia embora nunca e eu passei a desconfiar que a rinite poderia estar de volta. Diante dessa suspeita, o que fazer? Tomar antialérgico na gravidez me parecia um sacrilégio. Resolvi, antes, tentar a vida sem ar condicionado (eu já desconfiava que ele fosse o vilão).
Capitulei no primeiro dia. Quer dizer, na primeira noite. Dormi com a janela aberta e fui atacada por pernilongos asiáticos indóceis. E, eu asseguro, eles são da pior espécie. Deve ter sido a noite mais mal dormida dos últimos tempos. Tive de escolher entre morrer de calor ou devorada pelos mosquitos. Como também tenho alergia a picada de pernilongo, fechei a porta da varanda e escolhi morrer de calor.
Mas é claro que a coisa sempre pode ficar pior: um pernilongo maledetto ficou preso no quarto e, só de raiva, não parou de zumbizar no meu ouvido. A solução, no desespero, foi cobrir meu corpo todo, inclusive a cabeça. No calor de rachar sem ar condicionado, lá estava eu, feito uma múmia, toda enrolada a me proteger no pernilongo. E tossindo. E espirrando. João, é claro, já havia ido dormir no outro quarto há muito tempo, que ele não é besta.
Acordei decidida a marcar uma consulta com a obstetra. Eu precisava de ajuda. Ela me examinou e disse que tinha toda a cara de ser mesmo uma crise alérgica. Começou a preencher o receituário e, de repente, eu reconheci: loratadine! Não contive meu sorriso. Ela não só estava permitindo que eu tomasse remédio, como estava indicando o que eu já conheço e sei que funciona! Perguntei se era seguro para o bebê e ela disse que sim, que era um remédio baby friendly.
Bom, acho que nenhum remédio deve ser 100% baby friendly, mas a gente precisa deixar os radicalismos de lado e pensar no que é melhor. Eu já estava há mais de duas semanas sofrendo, sem querer tomar remédio. Havia chegado no meu limite. Acho que meu filho prefere me ver bem e feliz, dormindo bem, de bom humor, do que tossindo e espirrando o dia todo.
Vi que não adiantaria brigar com todo o sistema de ar condicionado das Filipinas e resolvi aceitar a medicação. Combinei com a médica de fazermos o teste por uma semana. Se os sintomas sumirem, teremos certeza de que é realmente só uma crise alérgica.
Tudo isso me faz pensar que o processo de se mudar, além de toda a questão emocional/cultural da adaptação, envolve também a parte corporal, fisiológica. Adaptar o corpo a novos ares, novos hábitos, adquirir outros anticorpos. O processo é muito mais complexo do que a gente imagina. A regência do verbo diz muito. Não é "mudar", apenas. É "se mudar". Mudar a si mesmo, o tempo todo, diante do contato com o outro - seja o outro um espaço ou uma pessoa.
Penso que fazer isso grávida é duplamente desafiador. Amplia a outridade. Enquanto espero o almoço no restaurante que fica dentro do hospital, peço desculpas ao meu filhote por não ser valente o suficiente para aguentar sem remédios. Depois penso que valentia é encarar esse duplo twist carpado cultural com ele na barriga. Você já nascerá sob este signo, meu gatinho. O da tolerância e dos mergulhos no desconhecido. Para além do grande mergulho que já é nascer.
Penso sempre em você, a cada segundo do meu dia. Agora vou deixar o café onde escrevo essas linhas para fazer um ultrassom e ver sua carinha. Dra. Henson, toda vez que escuta seu coração, diz que você é um bebê muito alegre. Eu sinto gratidão por você manter sua alegria mesmo quando eu estou um caco. Sinto gratidão simplesmente porque você existe!
Vamos nos curar da alergia, porque cada tosse deve ser um terremoto aí para você. E eu quero você bem bonitinho e faceiro!
Amo você, coisa miúda!
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
A vida em Manila #2
Passado o susto inicial, começo a transitar pela cidade com mais leveza. Olhando para trás, vejo como fiquei intimidada pela nova paisagem de Manila. Minha postura corporal, outrora de defensiva, vai dando lugar a um corpo de quem mora na cidade. De quem, aos poucos, vai se sentindo em casa. Para isso, foi importante controlar a afobação e, sem pressa, encontrar pequenos respiros, confortos. Como o parque aqui perto de casa. O mercadinho de sábado. O restaurante italiano com manjericão colhido na hora e forno a lenha. O café, a mesa-de-que-mais-gosto, o salão de beleza para fazer as unhas. Lugares onde eu não sentisse medo, enfim, e pudesse simplesmente baixar a guarda.
Cada vez mais penso que parte importante do processo é sair da vibe turista e entrar no ritmo do lugar. O turista tem uma sede absurda de conhecer tudo, de apreender tudo, tem um ritmo frenético de capturar as coisas. Eu carrego comigo essa sede. Foi assim em quase todas as minhas viagens. Mas, aqui, senti diferente.
Demorei para conseguir tirar fotos e fiquei pensando o que poderia estar por trás dessa minha falta de intimidade com a câmera aqui - logo eu, que amo fotografar tudo! Percebi que eu me sentia invadindo um espaço - qual espaço? -, "roubando" momentos de algo que eu não havia ainda compreendido bem na alma. A fotografia, neste sentido, é uma arte tão relacional, não é? Não existe objeto que não exponha o fotógrafo, que não escancare esta relação que se estabelece. Claro, acho que tem gente que fotografa no automático e nem pensa nisso. Mas eu não dou conta. Achei péssimas todas as minhas fotos das primeiras semanas aqui. E é engraçado. São fotos feitas de longe, de quem não se coloca na cena.
Me lembrei de quando participei de uma vivência com os Kayapó, em 2006. As primeiras fotos que tirei, ainda sob o olhar do exótico, também traziam essa distância. Eram crianças brincando, e eu ainda tímida, de longe, sem saber como me colocar. O olhar delas para mim era de desconfiança. Ainda não havia se estabelecido a relação de que falo. Num dado momento, deixei a câmera de lado e passei a brincar com elas. De roda, de desenhar, de um bocado de coisas. Só depois, bem mais tarde, voltei a fotografar. As fotos ganharam outra potência. Ganharam proximidade, não no sentido de lente, zoom, nada disso. No sentido de afeto mesmo. Era como se eu pudesse me aproximar da pele daquelas crianças, pudesse dançar com elas. Elas deram abertura para que eu fosse uma delas. E eu dei abertura para vê-las, de fato, como crianças.
É neste sentido que ainda encontro alguma dificuldade para fotografar pessoas por aqui. Ainda estamos tateando. Nos olhando neste jogo de espelhos, de alteridades. Acho que é uma questão de tempo. E que bom, que privilégio, ter este tempo!
Buscando essa aproximação, achei que já era tempo e me matriculei num curso de travel and cultural documentary photography. As aulas começam nesta quinta-feira. Na verdade, é um workshop de três dias, com aula teórica, saída de campo para uma cidade próxima a ser escolhida pelo professor e posterior análise da nossa produção. Estou na maior ansiedade. Depois conto aqui como foi o curso.
Escrevo e Felipe chuta forte na barriga. Ele sempre chuta em sessões de cinema, escritos, programas culturais. Fico achando lindo. Na verdade, quem faz essa projeção sou eu, claro, rsrs. O bichinho está apenas crescendo. Logo entraremos no sétimo mês. O que me deixa especialmente emotiva, porque nasci prematura de 7 meses.
Como eu reagiria se ele nascesse agora? Falta tanto chão! Como eu construí, ao longo da minha vida, este chão que me faltou, este restinho de caminhada? Fico divagando, nessa jornada intensa e doida que é a maternidade, enquanto busco minhas maneiras de pertencer ao novo país que nos acolhe.
Eu, que sempre tive como temas obsessivos a tal coragem de pertencer ao desconhecido, a poética dos abismos, do salto no vazio...vejo que, sem perceber, me lancei exatamente na corporificação destas ideias.
Gerar e carregar um filho é pertencer ao desconhecido. O medo do parto é pertencer ao desconhecido. Parir é pertencer ao desconhecido. Criar um ser humano, com todos os seus melhores valores e suas sombras, é pertencer ao desconhecido. Tudo isso fisicamente longe da sua rede de afetos, daqueles que sempre foram o abrigo-quando-o-peito-aperta...isso é duplamente pertencer ao desconhecido! É descobrir novos caminhos, novos sentidos, a cada dia.
Sobretudo, é ver crescer o amor pelo companheiro que hoje é meu grande suporte. Porque somos só nos três aqui nesse arquipélago de sete mil ilhas, este punhado de terra cercado de água, tantas águas, um lar de câncer, escorpião e peixes. Como diz meu amigo Adriano Godoi: isso não é uma casa, é um tsunami! Verbo: eu sinto. Um explode, a outra guarda e remói, o outro ainda nos é mistério. Mas mergulhamos todos no grande mistério que é nascermos, juntos, desta nova experiência.
Cada vez mais penso que parte importante do processo é sair da vibe turista e entrar no ritmo do lugar. O turista tem uma sede absurda de conhecer tudo, de apreender tudo, tem um ritmo frenético de capturar as coisas. Eu carrego comigo essa sede. Foi assim em quase todas as minhas viagens. Mas, aqui, senti diferente.
Demorei para conseguir tirar fotos e fiquei pensando o que poderia estar por trás dessa minha falta de intimidade com a câmera aqui - logo eu, que amo fotografar tudo! Percebi que eu me sentia invadindo um espaço - qual espaço? -, "roubando" momentos de algo que eu não havia ainda compreendido bem na alma. A fotografia, neste sentido, é uma arte tão relacional, não é? Não existe objeto que não exponha o fotógrafo, que não escancare esta relação que se estabelece. Claro, acho que tem gente que fotografa no automático e nem pensa nisso. Mas eu não dou conta. Achei péssimas todas as minhas fotos das primeiras semanas aqui. E é engraçado. São fotos feitas de longe, de quem não se coloca na cena.
Me lembrei de quando participei de uma vivência com os Kayapó, em 2006. As primeiras fotos que tirei, ainda sob o olhar do exótico, também traziam essa distância. Eram crianças brincando, e eu ainda tímida, de longe, sem saber como me colocar. O olhar delas para mim era de desconfiança. Ainda não havia se estabelecido a relação de que falo. Num dado momento, deixei a câmera de lado e passei a brincar com elas. De roda, de desenhar, de um bocado de coisas. Só depois, bem mais tarde, voltei a fotografar. As fotos ganharam outra potência. Ganharam proximidade, não no sentido de lente, zoom, nada disso. No sentido de afeto mesmo. Era como se eu pudesse me aproximar da pele daquelas crianças, pudesse dançar com elas. Elas deram abertura para que eu fosse uma delas. E eu dei abertura para vê-las, de fato, como crianças.
É neste sentido que ainda encontro alguma dificuldade para fotografar pessoas por aqui. Ainda estamos tateando. Nos olhando neste jogo de espelhos, de alteridades. Acho que é uma questão de tempo. E que bom, que privilégio, ter este tempo!
Buscando essa aproximação, achei que já era tempo e me matriculei num curso de travel and cultural documentary photography. As aulas começam nesta quinta-feira. Na verdade, é um workshop de três dias, com aula teórica, saída de campo para uma cidade próxima a ser escolhida pelo professor e posterior análise da nossa produção. Estou na maior ansiedade. Depois conto aqui como foi o curso.
Escrevo e Felipe chuta forte na barriga. Ele sempre chuta em sessões de cinema, escritos, programas culturais. Fico achando lindo. Na verdade, quem faz essa projeção sou eu, claro, rsrs. O bichinho está apenas crescendo. Logo entraremos no sétimo mês. O que me deixa especialmente emotiva, porque nasci prematura de 7 meses.
Como eu reagiria se ele nascesse agora? Falta tanto chão! Como eu construí, ao longo da minha vida, este chão que me faltou, este restinho de caminhada? Fico divagando, nessa jornada intensa e doida que é a maternidade, enquanto busco minhas maneiras de pertencer ao novo país que nos acolhe.
Eu, que sempre tive como temas obsessivos a tal coragem de pertencer ao desconhecido, a poética dos abismos, do salto no vazio...vejo que, sem perceber, me lancei exatamente na corporificação destas ideias.
Gerar e carregar um filho é pertencer ao desconhecido. O medo do parto é pertencer ao desconhecido. Parir é pertencer ao desconhecido. Criar um ser humano, com todos os seus melhores valores e suas sombras, é pertencer ao desconhecido. Tudo isso fisicamente longe da sua rede de afetos, daqueles que sempre foram o abrigo-quando-o-peito-aperta...isso é duplamente pertencer ao desconhecido! É descobrir novos caminhos, novos sentidos, a cada dia.
Sobretudo, é ver crescer o amor pelo companheiro que hoje é meu grande suporte. Porque somos só nos três aqui nesse arquipélago de sete mil ilhas, este punhado de terra cercado de água, tantas águas, um lar de câncer, escorpião e peixes. Como diz meu amigo Adriano Godoi: isso não é uma casa, é um tsunami! Verbo: eu sinto. Um explode, a outra guarda e remói, o outro ainda nos é mistério. Mas mergulhamos todos no grande mistério que é nascermos, juntos, desta nova experiência.
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| Frangipanis em Manila: flores perto das quais me sinto em casa |
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
A Vida em Manila #1
Nesta semana, completarei quase um mês em terras filipinas, precisamente na capital, Manila. Parece bastante tempo, mas não é nada quando se trata de dar um duplo twist carpado geográfico e cultural. Sim, porque a pessoa aqui só tinha saído do Guará para o Plano Piloto - cria fortíssima e arraigada de Brasília! De modo que viver na Ásia me tem sido, sem dúvidas, uma grande aventura. Vou tentar compartilhar com vocês um pouco do que tenho visto por aqui.
A primeira impressão - Família Buscapé vai à cidade grande
Cheguei num sábado, dia 25 de outubro. Logo na descida do avião, uma placa enorme avisava: "it's more fun in the Philippines!". Este é o slogan oficial do Departamento de Turismo deles, então prepare-se para encontrar o mote aqui e ali :) João foi me buscar no aeroporto e, no caminho pra casa, me chamou a atenção como a paisagem muda rapidamente - bairros que me lembravam as cidades-satélites no início dos anos 90 logo davam lugar a um grande centro comercial, no melhor estilo Avenida Paulista. É neste centrão com cara de cidade-a-mil-por-hora que moramos.
João ri da minha cara e diz que eu não vi nada ainda do que é uma cidade-a-mil-por-hora, que eu preciso ir a Hong Kong e tal. Eu sei da minha experiência: para quem tinha uma palmeira com passarinhos bem diante da janela, com um grande campo verde onde descansar os olhos, estar diante de arranha-céus e morar num prédio de 40 andares é realmente uma grande mudança.
Passei os primeiros dias meio assustada com o trânsito caótico e com a grande quantidade de gente andando nas ruas. Sobre o trânsito, cabem mais algumas palavras. O engarrafamento nosso de cada dia de Brasília não é nada perto do que rola por aqui. São muitos carros na rua e eles parecem gostar de dirigir perigosamente. Buzinar é coisa corriqueira. Sabe aquele orgulho brasiliense de "aqui evitamos buzinar", estampado em placas na entrada da cidade? Pois esqueçam. Aqui buzinar é o esquema. Os carros viram de todos os lados, tem triciclo, tem jeepneys com luzes piscando (o meio de transporte mais popular, que nada mais é do que um jeep herdado da 2a Guerra Mundial e adaptado para virar meio de transporte coletivo), tem taxis fechando uns aos outros. Uma coisa de louco para quem chega. Nós optamos por não termos carro aqui e fazermos, na medida do possível, tudo a pé. Neste sentido, temos sorte, pois a nossa vizinhança é super bem servida!
Com esse tanto de carro, é de imaginar que a poluição seja um problema. Eu estranhei bastante. É comum ver pessoas de máscaras andando pela rua ao fim do dia, na hora do rush - ainda não sei em qual medida é por causa da poluição ou pela preocupação com contaminação (gripe etc) em lugares de grande movimento. Talvez um pouco dos dois. Eu, com minha rinite, sou a rainha dos espirros quando saio na rua. O povo falta pular da escada no metrô!
Agora, um mês depois, já estou mais habituada a esse cenário de cidade grande. Mas confesso que a falta de horizonte e de céu ainda me incomoda. O que dá um conforto é você ir encontrando seus pequenos oásis no meio do caos - como o Salcedo Market, vulgo mercadinho de sábado bem em frente a nossa casa, onde produtores de toda a cidade vêm vender frutas, verduras, hortaliças e afins - tudo fresquinho, muita coisa orgânica e saudável :)
O povo filipino
O que torna a adaptação mais fácil é, sem dúvidas, a cordialidade das pessoas. Os filipinos são muito amáveis. Fazem questão de cumprimentar com bom dia, boa tarde, boa noite e um sorrisão. Nos primeiros dias, também estranhei um pouco isso de todo mundo falar com você, mas logo me acostumei.
Aqui onde moramos, todo mundo fala inglês, além do tagalog (filipino). Pegar o sotaque deles também exige um pouco de tempo. De fato, o American accent é o mais comum por aqui - eles foram colônia dos Estados Unidos, o que se reflete na influência cultural notada em praticamente tudo. Antes, as Filipinas também foram colônia da Espanha, daí o nome das ruas em espanhol (Tordesillas, San Augustin, Dela Costa, Villar etc) e sobrenomes como Garcia, Miranda e Reyes. Apesar disso, eles não falam espanhol. Falam o inglês, língua franca ensinada na escola.
O que percebi até agora sobre a questão do idioma (impressões, ok? Nem de longe tenho a pretensão de qualquer análise mais aprofundada): as gerações mais antigas falam um inglês bem ruim, em geral. Às vezes, sinto que eles estão sofrendo para se fazerem entender. Já para os mais jovens, é algo natural. Aqui, o fator sócio-econômico também pesa: quanto mais caminhamos para os rumos de Makati (onde moramos), mais o inglês flui com sotaque americano. Vi que algumas escolas de inglês por aqui, inclusive, têm cursos específicos para trabalhar o sotaque. Ou seja: American accent é sinal de status.
Essa influência está em toda parte e fica muito clara quando olhamos a quantidade de shoppings espalhados pela cidade. É uma coisa de maluco. Aqui perto de casa, fica o complexo Greenbelt-Glorietta. Cada um deve ter uns cinco prédios. Para dar uma dimensão, é como se todos os shoppings de Brasília ficassem juntos, colados, formando um complexo só. E esse é apenas UM dos malls da região. As grandes marcas internacionais estão todas por aqui. Em termos de comida, dá-lhe Burger King, Wendy's, KFC, Mc Donald's, Donuts e outras redes. Franquias de café como Starbucks e The Coffee Bean estão em cada esquina.
Nessa lógica, a maioria dos cinemas está, é claro, nos multiplex dentro dos shoppings. Aparentemente, não há cinemas de arte por aqui - se há, estão muito bem escondidos! Então a experiência de ir ao cinema aqui não tem sido muito rica. Em cartaz, sempre há filmes em inglês e outros em tagalog, sem legenda. Daqueles em inglês, 100% são blockbusters. Já vimos John Wick, Insterstellar e Fury. Isso garimpando o que de melhor havia na programação. Tem muita coisa de terror também, mas eu passo longe, porque sou medrosa mesmo e odeio filme de gente possuída :P
Massagens baratas
Aqui é muito fácil encontrar massagens boas e bem em conta. Somente aqui pertinho de casa, já encontrei uns três espaços. Há todo tipo de técnicas, com preponderância, pelo que notei, para a thai massage. Meia hora de massagem nos pés, por exemplo, sai pela bagatela de 200 pesos filipinos, o que corresponde a mais ou menos R$ 11, 00. Além disso, o conceito de pé, aqui, é bastante flexível: a massagem começa na mão, vai para os pés, passa pela canela até o joelho e termina nas costas. Uma delícia! Sem contar que a massagista coloca uma toalha quente em volta do seu pescoço, com algumas sementes aquecidas (pelo cheirinho, parece camomila). Aromaterapia de brinde, rapaz!
Para terem uma ideia do quanto é em conta, um café invocadinho na Starbucks daqui custa 170 pesos. Ou seja: toda vez que penso em tomar um vanilla latte ou meu chai, imediatamente converto no fator massagem e concluo que o café, na verdade, é que está caro.
Comida
Vocês devem estar se perguntando onde entra a cozinha asiática, certo? Se olharmos só para as grandes redes, é quase possível esquecer que estamos na Ásia. Mas nós estamos. E aí um novo mundo se abre, com cozinha filipina, tailandesa, vietnamita, coreana, japonesa, chinesa e por aí vai. Confesso que a gastronomia filipina ainda não conquistou meu coração, rs. Estamos nos aproximando. Os pratos mais comuns que vi por aqui são o lechon, o pancit (macarrão que é sempre servido nos aniversários, como o nosso brigadeiro!) e o tal do frango adobo. Nada que tenha me enchido os olhos. Ainda não provei a sobremesa típica deles, o halo-halo, mas conto assim que experimentar.
O interessante é que há um acesso muito fácil à cozinha internacional, de modo que restaurantes espanhóis, árabes e italianos estão a um pulo. De toda a oferta por aqui, tenho curtido especialmente o indiano, o persa e o tailandês :)
Ainda sobre a influência estadunidense, confesso que esse paladar meio bagaceira me incomoda um pouco. Pizza, hamburguer, cookies, frango frito, donuts, nutella. Se bobear, lá está você comendo besteira com a maior facilidade, pois são as coisas mais fáceis de encontrar.
Outro fenômeno curioso aqui são os comerciais de comida. Tem um do Mc Donald's que me faz morrer de rir toda vez. Uma mulher lindíssima vem andando em câmera lenta, com os cabelos esvoaçantes. Num primeiro momento, achei que fosse propaganda de xampoo. Pois que a câmera revela uma caixinha de Mc Chicken, na direção da qual a modelo segue toda faceira. Quando você acha que já viu tudo nessa vida, vem uma modelo sensualizar enquanto come uma coxa de frango frita! Surreal. Ah, e tem também uma supermodel fazendo propaganda dum sanduíche chamado "baconator" (imaginem a bomba). Do tipo: "esse é meu sanduíche favorito; só como baconator!". Sim, daquele mesmo jeito que a Xuxa usa Monange e a Sandy a-d-o-r-a o óleo de amêndoas Paixão.
Para não dizer que não há coisas saudáveis, as frutas aqui são uma beleza. Os filipinos adoram manga e a deles é mesmo incrível! Descobri um novo amor, o calamansi, que é um limãozinho miúdo delícia! João apareceu aqui para fazer um adendo e dizer que também descobriu um novo amor: o mangostim. Estamos quites, então, nos amores frugais.
A média de altura - uma terra onde sou maioria :P
Os filipinos são baixinhos. Bem baixinhos. Tipo eu. De forma que eu ando na multidão e fico na média de altura das mulheres. Várias são mais baixas. Sério. Nunca antes na minha história, rs! Estou encantada com isso, porque, vejam bem, há várias vantagens: pela primeira vez na vida, eu encontro roupas com facilidade, sem precisar de ajustes. Fazer barra, punho e afins eram coisas corriqueiras, quase uma extensão do ato de comprar roupas. Agora a mágica se fez: é bater o olho, vestir e ficar certinha! Com a grande diferença de que elas são mais franzinas (trocando em miúdos, não têm muito peito nem bunda), então tenho sempre que comprar um tamanho maior. Fora isso, tudo lindo!
Outra vantagem, para ilustrar. Dia desses, andei de jeepney pela primeira vez. O João ficou todo encurvado lá dentro, coitado. Já eu fui linda e faceira, sem nenhum desconforto por causa da altura. Ah, finalmente ter vantagens! Não tem preço! Tudo bem que a parte obscura da viagem foi que pegamos o jeepney errado e fomos parar numa quebrada que até hoje não sabemos onde era, mas tudo bem. Esses percalços fazem parte da aventura :)
A primeira impressão - Família Buscapé vai à cidade grande
Cheguei num sábado, dia 25 de outubro. Logo na descida do avião, uma placa enorme avisava: "it's more fun in the Philippines!". Este é o slogan oficial do Departamento de Turismo deles, então prepare-se para encontrar o mote aqui e ali :) João foi me buscar no aeroporto e, no caminho pra casa, me chamou a atenção como a paisagem muda rapidamente - bairros que me lembravam as cidades-satélites no início dos anos 90 logo davam lugar a um grande centro comercial, no melhor estilo Avenida Paulista. É neste centrão com cara de cidade-a-mil-por-hora que moramos.
João ri da minha cara e diz que eu não vi nada ainda do que é uma cidade-a-mil-por-hora, que eu preciso ir a Hong Kong e tal. Eu sei da minha experiência: para quem tinha uma palmeira com passarinhos bem diante da janela, com um grande campo verde onde descansar os olhos, estar diante de arranha-céus e morar num prédio de 40 andares é realmente uma grande mudança.
| Ayala Avenue, a minha nova Avenida Paulista |
Passei os primeiros dias meio assustada com o trânsito caótico e com a grande quantidade de gente andando nas ruas. Sobre o trânsito, cabem mais algumas palavras. O engarrafamento nosso de cada dia de Brasília não é nada perto do que rola por aqui. São muitos carros na rua e eles parecem gostar de dirigir perigosamente. Buzinar é coisa corriqueira. Sabe aquele orgulho brasiliense de "aqui evitamos buzinar", estampado em placas na entrada da cidade? Pois esqueçam. Aqui buzinar é o esquema. Os carros viram de todos os lados, tem triciclo, tem jeepneys com luzes piscando (o meio de transporte mais popular, que nada mais é do que um jeep herdado da 2a Guerra Mundial e adaptado para virar meio de transporte coletivo), tem taxis fechando uns aos outros. Uma coisa de louco para quem chega. Nós optamos por não termos carro aqui e fazermos, na medida do possível, tudo a pé. Neste sentido, temos sorte, pois a nossa vizinhança é super bem servida!
Com esse tanto de carro, é de imaginar que a poluição seja um problema. Eu estranhei bastante. É comum ver pessoas de máscaras andando pela rua ao fim do dia, na hora do rush - ainda não sei em qual medida é por causa da poluição ou pela preocupação com contaminação (gripe etc) em lugares de grande movimento. Talvez um pouco dos dois. Eu, com minha rinite, sou a rainha dos espirros quando saio na rua. O povo falta pular da escada no metrô!
Agora, um mês depois, já estou mais habituada a esse cenário de cidade grande. Mas confesso que a falta de horizonte e de céu ainda me incomoda. O que dá um conforto é você ir encontrando seus pequenos oásis no meio do caos - como o Salcedo Market, vulgo mercadinho de sábado bem em frente a nossa casa, onde produtores de toda a cidade vêm vender frutas, verduras, hortaliças e afins - tudo fresquinho, muita coisa orgânica e saudável :)
| Jeepney, carro e triciclo: tudo ao mesmo tempo agora |
| O pitoresco jeepney, uma verdadeira instituição filipina |
O povo filipino
O que torna a adaptação mais fácil é, sem dúvidas, a cordialidade das pessoas. Os filipinos são muito amáveis. Fazem questão de cumprimentar com bom dia, boa tarde, boa noite e um sorrisão. Nos primeiros dias, também estranhei um pouco isso de todo mundo falar com você, mas logo me acostumei.
Aqui onde moramos, todo mundo fala inglês, além do tagalog (filipino). Pegar o sotaque deles também exige um pouco de tempo. De fato, o American accent é o mais comum por aqui - eles foram colônia dos Estados Unidos, o que se reflete na influência cultural notada em praticamente tudo. Antes, as Filipinas também foram colônia da Espanha, daí o nome das ruas em espanhol (Tordesillas, San Augustin, Dela Costa, Villar etc) e sobrenomes como Garcia, Miranda e Reyes. Apesar disso, eles não falam espanhol. Falam o inglês, língua franca ensinada na escola.
O que percebi até agora sobre a questão do idioma (impressões, ok? Nem de longe tenho a pretensão de qualquer análise mais aprofundada): as gerações mais antigas falam um inglês bem ruim, em geral. Às vezes, sinto que eles estão sofrendo para se fazerem entender. Já para os mais jovens, é algo natural. Aqui, o fator sócio-econômico também pesa: quanto mais caminhamos para os rumos de Makati (onde moramos), mais o inglês flui com sotaque americano. Vi que algumas escolas de inglês por aqui, inclusive, têm cursos específicos para trabalhar o sotaque. Ou seja: American accent é sinal de status.
Essa influência está em toda parte e fica muito clara quando olhamos a quantidade de shoppings espalhados pela cidade. É uma coisa de maluco. Aqui perto de casa, fica o complexo Greenbelt-Glorietta. Cada um deve ter uns cinco prédios. Para dar uma dimensão, é como se todos os shoppings de Brasília ficassem juntos, colados, formando um complexo só. E esse é apenas UM dos malls da região. As grandes marcas internacionais estão todas por aqui. Em termos de comida, dá-lhe Burger King, Wendy's, KFC, Mc Donald's, Donuts e outras redes. Franquias de café como Starbucks e The Coffee Bean estão em cada esquina.
Nessa lógica, a maioria dos cinemas está, é claro, nos multiplex dentro dos shoppings. Aparentemente, não há cinemas de arte por aqui - se há, estão muito bem escondidos! Então a experiência de ir ao cinema aqui não tem sido muito rica. Em cartaz, sempre há filmes em inglês e outros em tagalog, sem legenda. Daqueles em inglês, 100% são blockbusters. Já vimos John Wick, Insterstellar e Fury. Isso garimpando o que de melhor havia na programação. Tem muita coisa de terror também, mas eu passo longe, porque sou medrosa mesmo e odeio filme de gente possuída :P
Massagens baratas
Aqui é muito fácil encontrar massagens boas e bem em conta. Somente aqui pertinho de casa, já encontrei uns três espaços. Há todo tipo de técnicas, com preponderância, pelo que notei, para a thai massage. Meia hora de massagem nos pés, por exemplo, sai pela bagatela de 200 pesos filipinos, o que corresponde a mais ou menos R$ 11, 00. Além disso, o conceito de pé, aqui, é bastante flexível: a massagem começa na mão, vai para os pés, passa pela canela até o joelho e termina nas costas. Uma delícia! Sem contar que a massagista coloca uma toalha quente em volta do seu pescoço, com algumas sementes aquecidas (pelo cheirinho, parece camomila). Aromaterapia de brinde, rapaz!
Para terem uma ideia do quanto é em conta, um café invocadinho na Starbucks daqui custa 170 pesos. Ou seja: toda vez que penso em tomar um vanilla latte ou meu chai, imediatamente converto no fator massagem e concluo que o café, na verdade, é que está caro.
Vocês devem estar se perguntando onde entra a cozinha asiática, certo? Se olharmos só para as grandes redes, é quase possível esquecer que estamos na Ásia. Mas nós estamos. E aí um novo mundo se abre, com cozinha filipina, tailandesa, vietnamita, coreana, japonesa, chinesa e por aí vai. Confesso que a gastronomia filipina ainda não conquistou meu coração, rs. Estamos nos aproximando. Os pratos mais comuns que vi por aqui são o lechon, o pancit (macarrão que é sempre servido nos aniversários, como o nosso brigadeiro!) e o tal do frango adobo. Nada que tenha me enchido os olhos. Ainda não provei a sobremesa típica deles, o halo-halo, mas conto assim que experimentar.
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| Pancit (primeira foto) e o famoso lechon: tipicamente filipinos |
O interessante é que há um acesso muito fácil à cozinha internacional, de modo que restaurantes espanhóis, árabes e italianos estão a um pulo. De toda a oferta por aqui, tenho curtido especialmente o indiano, o persa e o tailandês :)
Ainda sobre a influência estadunidense, confesso que esse paladar meio bagaceira me incomoda um pouco. Pizza, hamburguer, cookies, frango frito, donuts, nutella. Se bobear, lá está você comendo besteira com a maior facilidade, pois são as coisas mais fáceis de encontrar.
Outro fenômeno curioso aqui são os comerciais de comida. Tem um do Mc Donald's que me faz morrer de rir toda vez. Uma mulher lindíssima vem andando em câmera lenta, com os cabelos esvoaçantes. Num primeiro momento, achei que fosse propaganda de xampoo. Pois que a câmera revela uma caixinha de Mc Chicken, na direção da qual a modelo segue toda faceira. Quando você acha que já viu tudo nessa vida, vem uma modelo sensualizar enquanto come uma coxa de frango frita! Surreal. Ah, e tem também uma supermodel fazendo propaganda dum sanduíche chamado "baconator" (imaginem a bomba). Do tipo: "esse é meu sanduíche favorito; só como baconator!". Sim, daquele mesmo jeito que a Xuxa usa Monange e a Sandy a-d-o-r-a o óleo de amêndoas Paixão.
Para não dizer que não há coisas saudáveis, as frutas aqui são uma beleza. Os filipinos adoram manga e a deles é mesmo incrível! Descobri um novo amor, o calamansi, que é um limãozinho miúdo delícia! João apareceu aqui para fazer um adendo e dizer que também descobriu um novo amor: o mangostim. Estamos quites, então, nos amores frugais.
| Suco de calamansi e omelete feita por João: jantar perfeito |
![]() |
| Mangostim, a nova fruta favorita do João |
A média de altura - uma terra onde sou maioria :P
Os filipinos são baixinhos. Bem baixinhos. Tipo eu. De forma que eu ando na multidão e fico na média de altura das mulheres. Várias são mais baixas. Sério. Nunca antes na minha história, rs! Estou encantada com isso, porque, vejam bem, há várias vantagens: pela primeira vez na vida, eu encontro roupas com facilidade, sem precisar de ajustes. Fazer barra, punho e afins eram coisas corriqueiras, quase uma extensão do ato de comprar roupas. Agora a mágica se fez: é bater o olho, vestir e ficar certinha! Com a grande diferença de que elas são mais franzinas (trocando em miúdos, não têm muito peito nem bunda), então tenho sempre que comprar um tamanho maior. Fora isso, tudo lindo!
Outra vantagem, para ilustrar. Dia desses, andei de jeepney pela primeira vez. O João ficou todo encurvado lá dentro, coitado. Já eu fui linda e faceira, sem nenhum desconforto por causa da altura. Ah, finalmente ter vantagens! Não tem preço! Tudo bem que a parte obscura da viagem foi que pegamos o jeepney errado e fomos parar numa quebrada que até hoje não sabemos onde era, mas tudo bem. Esses percalços fazem parte da aventura :)
| Eu e os ancestrais filipinos no Ayala Museum |
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
hoje eu quero fazer tudo por você
Chega trompete, chega tripé. A câmera veio antes. O sons são da cidade. Seus livros de história e relações internacionais ganham a estante que outrora abrigava minhas pequenezas e enfeites de viagens. Meus orixás, patuás, minha proteção. Meus livros de cinema ganham a estante central da sala, onde eu sempre imaginei suas coisas. Na verdade, tudo se entrelaça, agora que aprendemos o verdadeiro sentido de compartilhar.
Não são só os seus livros que abraçam os meus – economia ao lado dos quadrinhos do Liniers e Mafalda. É você que me acolhe nesta vida nômade, e eu acolho você ao deixar minha quietude brasiliense para aquietar você em todos os momentos de destempero.
Enquanto escrevo, você confere se todas as caixas foram entregues, conversa algo em inglês com os funcionários filipinos e dá uma última assinatura. Eu sou tomada por uma súbita doçura e penso como é bom poder alternar também os papeis na vida – poder baixar a guarda de quando em vez, enquanto você assume as providências práticas, sendo que momentos atrás era eu quem cuidava da parte chata enquanto você fazia outra coisa que precisava ser feita. Alternamos o passo tranquilamente nessa dança, sem fazer disso uma questão, e isso é lindo.
Os filipinos recolhem as caixas vazias e vão embora. O apartamento torna-se subitamente vazio e cheio de objetos e sonhos. Você me abraça, orgulhoso, e me chama para um café. Eu te chamo para um cafuné. E assim Manila nos dá, definitivamente, as boas-vindas numa manhã ensolarada de quinta-feira.
sábado, 20 de setembro de 2014
Diário da saudade - Dias 24 e 25
Dias 24 e 25 - 19 e 20/09
Para ler ouvindo o silêncio.
Minha saudade é tanta que me sinto monotemática. Me sinto também um pouco triste e um pouco assustada com a perspectiva de ir embora. Outubro vai chegando. Metade da nossa jornada longe um do outro já foi. Enfrentamos. Falta a outra metade. Agora acabou o ensaio e é pra fazer valendo: arrumar as coisas, desocupar a minha casa, dar até logo para os amigos, a família, os meus gatos. Eu deixarei em Brasília tudo o que foi minha referência e minha identidade ao longo de uma vida. Você já é mais acostumado a mudanças. Minha máxima mudança foi sair da casa da minha mãe.
Agora, atravessar um oceano por amor. Com algumas coisas identitárias na bagagem. Um quadro da Giulietta Masina, minha câmera fotográfica, uma Nossa Senhora Aparecida feita de palha, minhas guias, talvez uma das minhas bonecas. Roupas, minhas e do bebê. O que levar para uma nova vida? O que já não cabe mais? O que ainda faz sentido, mas não é possível e prático levar? Como se desfazer desses objetos que nos denotam?
Há coisas das quais não nos desfazemos. Que seguem conosco seja lá qual for o destino. Quais são as suas coisas identitárias? O exercício que tenho feito, e que é bonito, é desconstruir esses objetos até perceber qual é a essência que eles carregam, até ver que essa essência é minha. Que teve a forma de uma boneca negra, de um espírito-santo de fuxico e chita, de um quadro. Os objetos são o que são pela carga de afeto que depositamos neles, não é?
A cada processo de mudança em que tenho que entrar em contato com o apego, revisito Bacherlard e sua poética. Juntos, passeamos pela casa. Os cantos, as miniaturas, as imagens do profundo. O que há nesses objetos que eu amo? Arrisco: fé, cultura popular, poesia, brasilidade. Amor, oratórios, passarinhos e pequenezas.
Um coração feito de rio e da leveza (e força) das águas.
Escrevo para você e, pensando agora em identidade, me lembrei de um poema maravilhoso da Viviane Mosé. Acho que li para você um dia, quando acordamos. Acho, até, que reforcei que era um poema que falava muito de mim. Diz assim:
Eu poderia chorar coisas assim:
Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.
Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber.
Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso, pensei
Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,
Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.
Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,
Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados
Em minha pele.
Meu rosto tem muita simpatia por ventos,
Reconhece certos humores próprios a vento.
Gosto de coisas que se movem.
Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.
E árvores.
Se bem que tenho enorme ternura por bois
Fincados no pasto como palavras no papel.
Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.
Entender cada imagem desse poema é entender quem eu sou. Para além do retrato, sabe? O más alla, alma adentro. E eu quero que você acesse este lugar.
Sejam sempre bem-vindo, J., a esse coração de rio.
Um beijo com todo o amor que houver nessa vida,
D.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Diário da saudade - Dia 21
Dia 21 - 16/09/14
*Para ler ao som de Estou Triste, do Caetano, e de todo o Abraçaço.
Hoje tem repeteco de dias. Intervalos, interseções, danças. E a interseção (e a secção) é a minha ciclotimia. De Peanuts ao abraçaço de Caetano, ao meu quarto como o lugar mais frio não do Rio, mas dessa Brasília quente que é o próprio deserto. Hoje deve ter sido o dia mais quente do ano. Me senti mal o dia inteiro. A vontade é de simplesmente virar vento. E chover na cidade. A poeira precisa de chuvas. Os ipês brancos chegaram. Eles são os últimos do espetáculo e costumam anunciar o fim da seca. O Festival de Cinema, que começa hoje, também costuma anunciar o fim da seca. É tradição na cidade: a chuva (a)guardada, choros de tantos brasilienses, cai durante a abertura do festival. O que é isso, uma cidade que chora? Eu sempre cheia de perguntas.
Sei que está difícil aqui, longe, com a saudade. As coisas ganham proporções distorcidas. De repente, me sinto tola. Apago caminhos, impulsos, mas não há o que apagar. Tudo é tentativa de encontrar nossa voz no mundo. Viventes. Às vezes, eu queria mesmo é voltar ao silêncio de antes de antes de antes de antes. O silêncio da barriga. Será a minha barriga silenciosa pro pequeno? Eu, com tanto caos, caórdica? Será que passo o quê? Que música toca pelo fone que é esse cordão, esse coração que nos une?
Eu queria que ele não sentisse a minha agitação. A minha ansiedade. Queria que ele soubesse esperar o que eu não soube. Que ele respire fundo. Que possa ver a graça de cada segundo, de cada fase de peixe, nesse mar de memórias e referências que não são dele mas que também são porque são nossas e ele e nós somos uma coisa só, até que um dia o cordão se corte. Filho, saiba ver como cada tempo é bom. Saiba ver o tempo.
Por muitos anos, me gabei por ter nascido apressada, porque eu "quis logo ver o mundo", "era curiosa", "quis chegar e abalar". Não, meu amor. Fica aí, que ainda há muito tempo de ficar. De esperar. Veja os ipês brancos: são os últimos e, para muita gente, os mais belos da trilogia dos ipês de Brasília. Eles esperam os rosas e os amarelos entrarem em cena e arrebatarem as retinas de quem vê. Só então eles aparecem. Delicados como cerejeiras orientais.
O céu de Brasília vai ficando cheio de tsurus. Não seria um sonho lindo? Ipês brancos e revoadas de pássaros de papel, de todas as cores, diante de um céu azul infinito.
*Para ler ao som de Estou Triste, do Caetano, e de todo o Abraçaço.
Hoje tem repeteco de dias. Intervalos, interseções, danças. E a interseção (e a secção) é a minha ciclotimia. De Peanuts ao abraçaço de Caetano, ao meu quarto como o lugar mais frio não do Rio, mas dessa Brasília quente que é o próprio deserto. Hoje deve ter sido o dia mais quente do ano. Me senti mal o dia inteiro. A vontade é de simplesmente virar vento. E chover na cidade. A poeira precisa de chuvas. Os ipês brancos chegaram. Eles são os últimos do espetáculo e costumam anunciar o fim da seca. O Festival de Cinema, que começa hoje, também costuma anunciar o fim da seca. É tradição na cidade: a chuva (a)guardada, choros de tantos brasilienses, cai durante a abertura do festival. O que é isso, uma cidade que chora? Eu sempre cheia de perguntas.
Sei que está difícil aqui, longe, com a saudade. As coisas ganham proporções distorcidas. De repente, me sinto tola. Apago caminhos, impulsos, mas não há o que apagar. Tudo é tentativa de encontrar nossa voz no mundo. Viventes. Às vezes, eu queria mesmo é voltar ao silêncio de antes de antes de antes de antes. O silêncio da barriga. Será a minha barriga silenciosa pro pequeno? Eu, com tanto caos, caórdica? Será que passo o quê? Que música toca pelo fone que é esse cordão, esse coração que nos une?
Eu queria que ele não sentisse a minha agitação. A minha ansiedade. Queria que ele soubesse esperar o que eu não soube. Que ele respire fundo. Que possa ver a graça de cada segundo, de cada fase de peixe, nesse mar de memórias e referências que não são dele mas que também são porque são nossas e ele e nós somos uma coisa só, até que um dia o cordão se corte. Filho, saiba ver como cada tempo é bom. Saiba ver o tempo.
Por muitos anos, me gabei por ter nascido apressada, porque eu "quis logo ver o mundo", "era curiosa", "quis chegar e abalar". Não, meu amor. Fica aí, que ainda há muito tempo de ficar. De esperar. Veja os ipês brancos: são os últimos e, para muita gente, os mais belos da trilogia dos ipês de Brasília. Eles esperam os rosas e os amarelos entrarem em cena e arrebatarem as retinas de quem vê. Só então eles aparecem. Delicados como cerejeiras orientais.
O céu de Brasília vai ficando cheio de tsurus. Não seria um sonho lindo? Ipês brancos e revoadas de pássaros de papel, de todas as cores, diante de um céu azul infinito.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Diário da saudade - Dias 20 e 21
Dias 20 e 21 - 15 e 16/09
*Para ler ouvindo the Peanuts original theme.
Meu gatinho,
Voltei do trabalho doida pra chegar em casa e falar com você. Acho que ainda é muito cedo por aí e você provavelmente ainda dorme. Então aproveito para te contar logo que tive uma ideia super supimpa pro chá de bebê do Lipe! Eu estava naquela de pensar em alguns temas, aí uma imagem foi puxando a outra. Brainstorm mesmo. Primeiro pensei num avião. Depois num mundo. Porque, afinal, nosso pequeno vai ser meio ciganinho, né? Un piccolo zingaro!
Estava eu mergulhada nesses temas quando me veio uma imagem perfeita, que resume tudo: o Snoopy de aviador! Claro! Como eu não tinha pensado nisso antes? Tudo fez click. O Snoopy faz parte da minha vida desde sempre, quando eu assistia na TV com minha mãe e com a Di. Quando a Di foi servir em Roma, ela me mandava milhares de cartões musicais do Snoopy, e esse ficou sendo um código nosso, algo que nos unia. O Snoopy e a turma do Charlie Brown passaram a ter uma carga infinita de afeto pra mim.
Depois, já adulta, tive meus momentos de regressão infantil ao comprar cadernos, agendas, caixinhas e outros badulaques. Mas a glória mesmo foi quando fui trabalhar no JB e, um dia, cheguei com uma echarpe vermelha que eu adoro. Uma colega bateu o olho em mim e falou que eu estava a cara do Snoopy de aviador. Depois desse dia, segui ainda mais identificada com ele, rsrs.
E agora decidi que quero fazer o chá do Lipe com esse tema. Quero saber o que você acha. Minha defesa foi boa? Espero ter conseguido te convencer! ;)
Hoje o pequeno e eu passamos o dia muito conectados, vibrando juntos no orgulho que sentimos de você. Esperamos que o seu début diante das plateias filipinas tenha sido lindo. Lipe falou que você estava muito elegante na festa e que ele quer ser igualzinho a você quando ele crescer.
Te amamos muito!
Saudade sem fim,
Dany
*Para ler ouvindo the Peanuts original theme.
Meu gatinho,
Voltei do trabalho doida pra chegar em casa e falar com você. Acho que ainda é muito cedo por aí e você provavelmente ainda dorme. Então aproveito para te contar logo que tive uma ideia super supimpa pro chá de bebê do Lipe! Eu estava naquela de pensar em alguns temas, aí uma imagem foi puxando a outra. Brainstorm mesmo. Primeiro pensei num avião. Depois num mundo. Porque, afinal, nosso pequeno vai ser meio ciganinho, né? Un piccolo zingaro!
Estava eu mergulhada nesses temas quando me veio uma imagem perfeita, que resume tudo: o Snoopy de aviador! Claro! Como eu não tinha pensado nisso antes? Tudo fez click. O Snoopy faz parte da minha vida desde sempre, quando eu assistia na TV com minha mãe e com a Di. Quando a Di foi servir em Roma, ela me mandava milhares de cartões musicais do Snoopy, e esse ficou sendo um código nosso, algo que nos unia. O Snoopy e a turma do Charlie Brown passaram a ter uma carga infinita de afeto pra mim.
Depois, já adulta, tive meus momentos de regressão infantil ao comprar cadernos, agendas, caixinhas e outros badulaques. Mas a glória mesmo foi quando fui trabalhar no JB e, um dia, cheguei com uma echarpe vermelha que eu adoro. Uma colega bateu o olho em mim e falou que eu estava a cara do Snoopy de aviador. Depois desse dia, segui ainda mais identificada com ele, rsrs.
E agora decidi que quero fazer o chá do Lipe com esse tema. Quero saber o que você acha. Minha defesa foi boa? Espero ter conseguido te convencer! ;)
Hoje o pequeno e eu passamos o dia muito conectados, vibrando juntos no orgulho que sentimos de você. Esperamos que o seu début diante das plateias filipinas tenha sido lindo. Lipe falou que você estava muito elegante na festa e que ele quer ser igualzinho a você quando ele crescer.
Te amamos muito!
Saudade sem fim,
Dany
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