domingo, 31 de agosto de 2014

Diário da saudade - Dia 02

Dia 02 - 28/08/14

*Para ler ao som de Minhas Lágrimas, do Caetano Veloso, e depois Here Comes The Sun, na voz da Nina Simone.








Primeiro dia sem você aqui. Tive muita dificuldade para dormir só de imaginar você 15 horas dentro de um avião sobrevoando o oceano na madrugada escura. Eu sou paranóica com aviões, eu sei. Falamos sobre isso na primeira vez em que saímos, lembra? Eu te contei que fiquei com trauma depois de cobrir a queda do avião da Gol quando fazia estágio na Globo. Lembro de ter desembestado a falar de grooving na pista, reverso pinado, tubos de pitot e outros detalhes que devem ter feito eu parecer uma doida aos seus olhos. Mas você resistiu. Lembro de você falar com doçura que voar, para você, era muito tranquilo. Então tentei ficar tranquila também, o que só aconteceu, de fato, depois que você mandou a primeira mensagem do aeroporto de Doha.

Acordei cedo sem a ajuda do despertador. Acho que o convívio com você tem me dado esse condicionamento - logo eu, que sempre odiei as manhãs e que acordava ao meio-dia se deixassem. Fiquei um longo tempo ainda na cama, sem energia para levantar. O sentimento era de uma falta de motivação tremenda. Tristeza mesmo. Olhei em volta, fiz uma festinha sem graça com o Orfeu e voltei a fechar os olhos.

Me senti como o Caetano Veloso na música: nada serve de chão onde caiam minhas lágrimas.

Uns desertos ilhados por um Pacífico turvo. Todas as imagens dessa música me cabiam. Todas cabiam em mim. Foi quase uma hora em que fiquei deitada, pensando, pensando, acarinhando a tristeza em vez de brigar com ela. Soledad, aqui están mis credenciales - como naquela outra música, do Drexler.

Foi assim, entre músicas e recuerdos, que vi um filete de sol ultrapassar a barreira da cortina. O quarto estava ainda bastante escuro, eu havia fechado todo o blackout, mas o sol já impunha sua força. Pensei imediatamente em como você, para mim, é associado ao Sol - com maiúscula mesmo. O cara que gosta de acordar cedo para correr, de caminhar no Eixão, de pegar praia, de ir para a rua... para a vida!

O Sol, João, representa toda essa sua energia yang, para mim. Alegre, divertido, luminoso. E então, guiada por esse insight, resolvi sair do mergulho lunar em que eu estava. Achei que você ficaria feliz vendo que eu e Lipe fomos para o Sol. Abri a cortina, deixei a luz entrar, tomei um café da manhã cheio de frutas e, pasme, fui malhar. É isso mesmo que você leu: ma-lhar. De manhã. Dá pra acreditar?

Percebi que o melhor antídoto para a melancolia é me aproximar das imagens que me são você.

Feito o Sol.

Ao lado dele, seguimos.





sábado, 30 de agosto de 2014

Diário da saudade - Dia 01






Dia 01 - 27/08/14

*Para ler ao som de Mother, John Lennon.

Pela manhã, te ajudei com as malas e os últimos preparativos para a viagem. De tarde fui trabalhar e tentei mergulhar nas demandas de imprensa para não pensar que, dali a algumas horas, eu precisaria me despedir de você. Fomos juntos até o aeroporto. Você falava sobre sua ansiedade e também sobre a coragem necessária para ir até o outro lado do mundo. Eu ouvia tudo do banco do carona, fazia sinal com a cabeça de que sim, você é muito corajoso, e mais corajosos somos nós dois juntos de irmos dar à luz nosso filhote nas Filipinas.

Serão dois meses até irmos te encontrar. Eu pensava nisso o tempo todo, mas evitava verbalizar para não transparecer minha tristeza adiantada. Vamos falar das coisas boas, das novidades que você vai ver, do trabalho, das pessoas, das paisagens! Ah, não adiantou. Você me conhece muito bem. Eu tentei disfarçar o choro enquanto via você tomar o Manhattan mais mal servido da sua vida no bar do aeroporto. Eu e Lipe não podemos beber, você sabe. Então ficamos ali, olhando você, sua ansiedade, sua preocupação em baixar as últimas músicas e carregar o telefone. Eu não podia me mexer direito, porque encostava o pé na tomada e dava mal contato. Você ficava bravo. Eu entendia: não é comigo; ele também está sofrendo, e essa é a maneira dele de botar pra fora. Sempre foi assim, não foi? Eu choro, canceriana que sou. Você explode, tão escorpiano. Aprendi a ter leveza nessa dança.

Tentei disfarçar o choro e tiramos uma última foto juntos antes de você embarcar. Faltavam 15 minutos. Você me beijou com saudade, com tristeza, com amor, com coragem, com sede de pertencermos juntos ao desconhecido. Nos levantamos e seguimos até o seu portão de embarque. Um silêncio cheio de palavras, essas coisas que falamos para encobrir os momentos em que só um abraço bastaria. Caminhamos. É, havia chegado a hora.

Você me disse para eu ficar bem e cuidar do nosso filho. “Cuida do meu filho”: foi exatamente o que você me disse. Você me abraçou e disse que logo estaríamos juntos, que você ia na frente para preparar o terreno para nós e que seríamos, nós três, muito felizes lá. Você pediu que eu prometesse que seríamos felizes. Eu, que quase não gosto de prometer nada, prometi.

Sempre acho que as promessas são um peso, porque o mundo é cheio de mistérios e parece uma prepotência prometer porque nada está totalmente sob o nosso controle.

Mas, ali, percebi: a beleza da promessa não é ter a garantia, mas empenhar todo o nosso desejo para que algo aconteça. Prometer é dizer: no que depender de mim, eu farei tudo para que isso aconteça.

Então prometemos, juntos, que seremos muito felizes em Manila.

Que assim seja, João.

Você respirou fundo, me deu um último beijo, um até daqui a pouco, entregou o bilhete para o rapaz do embarque e seguiu sem olhar pra trás. Quando você dobrou a esquina e saiu do meu campo de visão, não aguentei e chorei tudo o que estava guardado. Eu, a soluçar no aeroporto numa quarta-feira à noite, entre tantas chegadas e partidas. Senti vergonha por estar com o rosto totalmente inchado a esta altura. Aí me lembrei do que a Cristina me diria: deixa vir.

Minha tristeza era tanta naquele momento que virou uma dor física, aquele tal aperto no peito que nos acompanha nessas horas. Em vez de tentar controlar, resolvi me conectar a essa dor e comecei a olhar em volta. Não, não havia só pessoas segurando o choro no aeroporto. Em vários cantos vi pessoas com os olhos cheios de lágrimas. Sentadas num café com os olhos distantes, em pé na fila do estacionamento, ganhando um abraço de algum familiar. Lá estavam elas, as pessoas que ficam, lidando com sua saudade. Um aeroporto é mesmo um lugar peculiar: lá cabe a euforia da chegada e o coração apertado da partida.

E somos, afinal, feitos desses dois extremos. Conhecemos os dois estados, humanos que somos. O bom de sentir a tristeza é saber que ela passa e que a alegria do reencontro há de ser a próxima parada.

Até daqui a pouco, meu amor.

Infinito e além,

Dany

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Meditação diante do mar



As palavras têm sentido quando nos habitam.

Pensamento que me veio com a brisa do mar da Bahia, na chegada de carro até Trancoso. Sentada em frente ao mar, escrevi assim:

Por que eu voltei a Trancoso querendo encontrar o mar da minha infância? A mesma cor, as mesmas ondas (a mesma onda que eu furava com a minha mãe e não tinha medo). Só que a cor é outra. O mar é mexido. As ondas fazem outro movimento. Menos doce, mais agitado. E eu me agito junto porque esta não é a Trancoso que eu procurava. Falta o sol; falta a cachorra Xuxa correndo atrás dos caranguejos que se escondiam na areia; falta a ponte que era a travessia da casa para o infinito.

A ponte passava sobre o mangue. O mangue era feio e sujo, mas era passagem necessária, diária.

Certa vez, a chave do vizinho caiu dentro do mangue. O Raizero, que trabalhava na pousada, teve que mergulhar para procurar. Um homem na lama não em procura de caranguejos, mas de uma chave que não era dele.

Que é isso, procurar uma chave na sujeira infinita e pastosa do mangue? Que me foi isso?

O mangue é sujo ou é o ecossistema mais puro e sujo somos nós? Que não damos conta da travessia (a ponte!) e temos que deixar cair sobre ela a chave da nossa alma? Eu ia escrever "alma" e duvidei da palavra. Casa e alma se me confundem.

Diante do mar, vou perdendo o medo do ridículo, de baixar a guarda e, por um segundo, fazer uma escolha errada que vai me expor ao pra sempre do ridículo.  Um gesto, uma fala, um riso sem medida de uma coisa sem graça mas que pra mim é engraçada e eu posso rir mesmo que ninguém ria.

Eu senti falta da Trancoso da minha infância e me sentei de frente ao mar para meditar. Meus pés doeram, não encontrei conforto para minhas memórias tão caras e, então, resolvi escrever.

Ao fim desta página, percebo que meditei mais do que se tivesse apenas meditado como acho que devo achar que é meditar.

Chove. As palavras começam a borrar. Penso em levantar e voltar para o seco, o protegido. Mas também penso que é disso que estou falando aqui e pra onde esta meditação me chamou:

Deixar borrar

Então fico.




segunda-feira, 16 de junho de 2014

em todo canto do mundo há alguém a chorar

Enquanto estou aqui em Brasília, tomando meu Nespresso sabor baunilha, há uma mulher trancada no quarto em Bangladesh lamentando uma escolha errada e incurável. Em Santorini, um jovem olha as casas cobertas de sol e pensa no movimento dos barcos. Assim em Canoa Quebrada e também no branco de Punta Ballena, esse branco que por vezes encobre o que parece felicidade mas é quase uma fuga.

Em Argel, uma moça mergulhou na banheira até sumir de si mesma. A carta, que ela pensou nunca chegar, aportou dois dias depois debaixo de sua porta. Em Bucareste, sei de uma senhora que, cansada dos dias, resolveu colocar sua melhor saia e sair em busca dos sons mais antigos que ouvisse.

No Iraque, uma jovem se apaixona por um soldado mas já não importa porque ele vai embora e a cidade está em ruínas e há tantas forças e tantos lados que já não vale mais a pena sonhar um sonho que morre. Na Asa Norte, uma mulher em construção toma um café na janela ao lado de dois gatos enquanto pensa que a vida não tem rascunho. Ela corta o seu braço pra raiva passar e os machucados abertos lhe mostram que não há fundura que dê conta da nossa imperfeição. No Tennessee, um adolescente magro chora no banheiro enquanto o barulho da água abafa sua inadaptação.

Somos todos inadaptados ao mundo onde não se pode errar. Em todo canto do mundo, há alguém a chorar.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Eles voltam

J.,

Estou aqui no trabalho pensando em como aquele filme pernambucano - Eles Voltam - ficou ecoando em mim. Em geral, me tocam as obras que falam das jornadas alma adentro, esses caminhos que se fazem ao caminhar. E me parece assim a jornada da Cris, que saiu do condomínio fechado na Recife de classe média alta, de um colégio cheio de grupinhos fechados, de uma família com pensamentos fechados, para cair na aventura da estrada.

A estrada é sempre uma bela metáfora, poderosa, não é? Gosto de todas as figuras arquetípicas que falam da estrada. Hermes. Exu. Os mensageiros. Porque nas asas que movimentam os pés reside a coragem de pertencer ao desconhecido.

Aí damos de cara com a Cris, enclausurada no Ipod, desconfiada, sem querer muito contato com o que lhe é diferente. Confesso que demorei a ter por ela alguma empatia. Acho que só aconteceu quando ela se sentou à beira da praia com a outra adolescente e trocou algumas ideias de forma mais desarmada. Mas, sobretudo, comecei a ter empatia por ela quando ela se deslocou. Vejo que este deslocamento aconteceu na cena em que ela vê o sexo despudorado do casal na piscina da casa. Ela não foge. Ela quer ver o que não quer ver. Lembra de como ela tinha um quase sorriso, um quase prazer? Um quase, não. Um prazer.

Houve uma cena em que ela mergulhou na piscina e a água ainda era um grande útero. Mais ao fim do filme, ela não mais mergulha. Ela boia. É que já nasceu. E agora está acima das águas, um outro organismo.

Não mais ela sendo o mundo. Mas sendo ela e o mundo, exterior.

Gostei de ver o nascimento desta menina, tão próxima de nós. Como nós tivemos que nascer, em algum momento. Em tantos momentos, e ainda nascemos, a cada dia. Um eterno e constante separarmo-nos.

Você se lembra de algum dia em que você nasceu?

Entre essas perguntas todas, me lembrei deste poema do grego Kaváfis. Um clichê até para falar das jornadas de autoconhecimento:

ÍTACA 
Konstantinos Kaváfis
(Trad. Haroldo de Campos)
Quando , de volta , viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os sucitar diante de si.
Roga que sua rota seja longa,
que, mútiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar sua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.



Assim é que vejo o filme: um grande caminho para Ítaca. Minimalista, sem grandes arroubos de estilo. Abusa dos planos longos, é bem verdade. No começo, isso me irritou. Mas agora penso que faz parte do olhar da protagonista, deste vagar que era estar ainda tateando outros lugares de estar.

A carta era pra compartilhar contigo as impressões.

A vida é pra compartilhar contigo os caminhos. As Ítacas.


Amor, 


D.

Florbela

Às vezes penso que gostaria de morrer para renascer outra. Mas a verdade é que a gente nunca renasce, por mais que existam as grandes e profundas transformações. Carregamos sempre a condição de sermos aquilo que somos. Morremos, mas continuamos sempre um pouco dos mesmos. Há algo de dor que nunca se vai. Este é o grande peso a carregar. Como Sísifo com sua pedra, a rolar, a rolar, eternamente. Prisão perpétua.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Querô


Não entendo de análise literária, mas Querô, do Plínio Marcos, tem uma estrutura super interessante. Fiquei pensando em termos de montagem cinematográfica não-linear o tempo todo.

Dá vontade de jogar a peça numa timeline do Premiere e ir montando os planos. Na verdade, Querô já vem montado numa ordem delírica. Nesse sentido, achei o texto mais radical que o outro que li dele, O Abajur Lilás.

Gosto também das imagens que Plínio Marcos nos apresenta nas rubricas. Por exemplo, quando descreve as personagens cercando Querô "num grande balé obsessor". Que imagem mais bela e forte! Quanto de vida cabe neste "balé"...!

Por fim, me arrebata o texto terminar com uma repetição da fala do Repórter. Pungente, em tempos de justiceiros:

"Era de tardezinha, quando os homens, com suas armas, encontraram o Querô. Mas já não era necessário despejarem o veneno de suas metralhadoras no corpo inanimado. Querô já estava caído pra sempre. Assim mesmo, despejaram ódios no pequeno bandido. E ele ficou lá caído para sempre. Ou caído até o dia em que, animado pela virilidade espiritual transformadora, ele e outros como ele se ergam das cinzas onde se sufocam, das chamas onde se ardem, das fomes onde se desesperam, dos cubículos onde são empilhados, espremidos, esmagados de corpo e alma, nos sórdidos recantos onde se degeneram e venham cobrar de nós, cidadãos contribuintes, as ofensas todas que em nome de nossos tesouros, de nossos privilégios, de nosso conforto, fizemos à dignidade humana".

domingo, 26 de janeiro de 2014

Epifania - ou reflexões sobre ansiedade, pânico e o medo da morte

Era como se eu estivesse fora do meu corpo, fora da realidade como a conhecemos. Era isso: eu estava em estado bruto, antes da linguagem - uma super consciência do mundo. De repente entendi tudo, a essência das coisas, e ficou claro que tudo se resume à oposição entre viver e morrer. E eis que voltei ao  momento do meu nascimento. Eu nasci. Eu nasço. Mas sabendo que morreria em instantes. Ou eu já estava morta? Morta e não vi? Morta e nasci.

Eu habitava o espaço entre uma coisa e outra, um lugar tão tênue que era entre a linguagem. E, num momento, desaprendi a falar. Inventei uma nova língua, feita de memórias. E ela me impregnava a pele. Cada sílaba era uma imagem.

Cortar o fio quase invisível que ainda me mantinha presa à vida, um fio que saia da minha nuca (e que era o tecer do tempo). De modo que permanecer viva era exercitar a entrega.

[ Isso tudo foi uma epifania seguida de uma crise de pânico.]

Entendi: é que, quando pareço tocar a totalidade do mundo, tento voltar ao controle.

E não há como voltar ao controle.

Por isso, morro.

O medo de morrer é o medo do prazer que há nesse lugar onde não sabemos, onde não há proteção.

A floresta de Pan. A travessia noturna, solitária. Faunos, sombras, assombros.

O pânico fala de tudo o que nos assusta, mas que é nosso. Vida e morte. Vida e morte. Vida e morte.

A angústia de não conseguir respirar é o medo desse ar, de deixar conter. Eu vou morrer, porque, se eu permanecer viva, não vou dar conta de todo esse conteúdo, dessa vida, desse turbilhão - que sou eu! Então travo, endureço, fecho o caminho do fluir dos ares.

A revelação é que a gente não morre. Só nos resta a vida - a travessia. Caminhos de floresta. Peço licença a esse deus Pan. Teremos que caminhar juntos. Da próxima vez, dançaremos. Com as musas, no equilíbrio entre o terror e a leveza.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Do amor e da fotografia

Há dois amores que nasceram simultaneamente na minha vida: a fotografia e a Luisa, minha afilhada. Luluca nasceu quando entrei na universidade, em 2002. Foi lá também que comecei a ter aulas de fotografia. Enquanto eu aprendia a perceber as nuances da luz e a operar uma câmera analógica, aprendia também muito sobre as possibilidades de amor que uma criança traz. A chegada da Luluca iluminou tudo. E essa luz foi fundamental para me ensinar a fotografar.

Lembro que eu fugia para a casa dela a cada intervalo entre as aulas. Como eu não tinha carro, ia de ônibus, com minha câmera a tiracolo. Ficava lá, observando cada gesto da minha pequena, sem pressa. Descobri assim que as boas fotografias se dão pela relação estabelecida com o objeto fotografado. Quando esse objeto se desdobra em afeto, entra na alquimia outro ingrediente que talvez, no meu caso, me mostre o caminho para o tal punctum de que fala Barthes. O que nos punge. No caso, o que me pungia era o que havia de solar no meu amor pela Luisa. A nossa cumplicidade.


Eu a fotografava e era como se eu pudesse tocar a pele dela com a câmera, acarinhar. Ela se mostrava a mim como quem estava em casa. Assim fomos experimentando, tateando, aprendendo novas linguagens juntas. Perdi as contas de quantos filmes destinei a ela. Aprendi o que era baixa velocidade ao borrar seus movimentos engatinhados. O que era profundidade de campo ao destacar seus dedos equilibrando meus anéis de adolescente hippie, os cabelos ruivos diante de uma paisagem qualquer.


Meu projeto final de fotografia, na faculdade, foi sobre a infância. Mas o que eu queria era fotografar Luisa. Eternizar cada segundo ao lado dela. Fotografar o invisível das brincadeiras que inventamos, a dona aranha subindo pela parede e sendo derrubada pela chuva forte, fotografar as primeiras palavras, as danças.


Se eu pudesse fotografar minha alma fotografando Luluca, ela seria o sol.



Porque assim é Luisa para mim.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Um esboço sobre a questão das cotas

Sobre cotas para negros, vou tentar esboçar aqui o que eu penso:

Quando o assunto começou a surgir na minha vida, lá atrás, eu estava no ensino médio prestes a fazer o vestibular e minha primeira reação foi ser contrária. Porque tudo o que a gente pensa é na concorrência. Meritocracia! Afinal, eu estudava feito um cão, sempre fui ultra CDF e tirava as melhores notas. Imagina alguém entrar sem o mesmo esforço e pegar a vaga que poderia ser minha?

Fiquei um tempo em cima do muro em relação ao assunto até entrar na UnB, em 2002. Passei pelo PAS para o curso de jornalismo. Se me lembro bem, não havia um negro sequer na minha turma.

Aliás, os abismos eram bem mais do que sociais – me lembro que foi ali que senti, pela primeira vez, que era diferente por morar no Guará, andar de ônibus e nunca ter feito intercâmbio para o exterior nem uma super viagem bacana pra gringa.

Senti o baque, por exemplo, ao ter que negociar com minha mãe a compra de uma régua de metal para a disciplina Planejamento Gráfico. Também ao ter que entrar no revezamento para usar uma das raríssimas câmeras coletivas na aula de fotografia. 

Devo dizer que eu estava longe de me considerar classe baixa. Com todo o sacrifício da minha mãe, estudei em escolas particulares (sempre com bolsa), fiz curso de inglês, viajei nas férias. Eu, que já estava numa parcela privilegiada, senti o baque da desigualdade ao entrar na UnB. Ali, sim, foi o meu microcosmos do universo.

E como foi estranho perceber que, nas aulas na Ala Norte, eu não via negros - a não ser os intercambistas da África! Mas, quando pegava disciplinas mais para os rumos da Ala Sul (Letras, Artes, Pedagogia), eu os via. E via também muita gente que, como eu, morava em cidades satélites e andava de ônibus. 

Mudei minha concepção sobre as cotas aí, por querer ver uma composição mais próxima da realidade em todos os cursos. As cotas começaram a ser implementadas enquanto eu estava na faculdade, acho que em 2003 ou 2004. Me formei em 2006, então tive pouco tempo para sentir as mudanças na prática.

Em 2007, passei num concurso público para Comunicação Social num órgão do Executivo. Aqui na assessoria de imprensa, há apenas um jornalista negro. Não me lembro de ter visto nenhum negro aqui no meu andar, em todos esses anos de ministério. Ah, claro: tirando os garçons, o pessoal da limpeza e de serviços gerais.

Este é o problema, na minha opinião, que faz meu alerta vermelho acender: quando os negros aparecem apenas em posições subalternas, é sinal de que algo está errado.

Fiquei chocada ao visitar Morro de São Paulo, na Bahia, pela primeira vez. Fui pra lá em 2012, depois de passar alguns dias em Salvador. A capital baiana tem, sabidamente, a maior população negra do país. Morro de São Paulo também tem uma grande população negra. Mas ali, diferentemente de Salvador, eu só vi negros na posição de servir os turistas. Algo do tipo: todos os nativos que conheci eram negros e todos trabalhavam como carregadores de mala, garçons etc.

Dentro do resort em que fiquei hospedada, só havia hóspedes brancos. E negros trabalhando para nos servir. Chegou um ponto em que isso começou a me doer demais, a incomodar mesmo. Porque eu queria vê-los desfrutando aquele lugar, que é deles! Conversando com um rapaz, ele me falou que todos os resorts são de estrangeiros. Eles compram as propriedades dos nativos por uma bagatela, mas que é dinheiro suficiente pra mudar a realidade imediata das famílias. As famílias vendem. E acabam trabalhando no mesmo local que antes pertencia a eles, vendo os novos proprietários lucrarem absurdamente enquanto trabalham por uma ninharia.

Isso não é nenhuma novidade. Acontece o tempo todo no nordeste, é a roda do capitalismo girando, a vida é dura e tal - podem dizer alguns. Mas, para mim, foi difícil ver isso e ficar numa boa. Assim como é difícil ver que quase não tive colegas negros na escola, na faculdade e continuo não tendo no trabalho.

Onde estão essas pessoas?


Eu quero que elas estejam ao meu lado, e não me servindo. Por isso sou a favor das cotas. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Carta de aniversário para Fulô





12 de outubro é um dia triplamente especial para mim. Dia das Crianças, dia de Nossa Senhora Aparecida e aniversário da minha amiga-irmã-comparsa Moema Dourado. Penso que não é por acaso que todas essas celebrações caiam no mesmo dia. Porque a nossa amizade, Fulô, perpassa todas essas dimensões. É a base dela. Percebe isso? Nos amamos pela criança que há em nós, pela fé, pelo sagrado, o mistério. É como se fosse uma constelação. Se alguém desenhasse nossas estrelas, ligasse os pontos, tenho certeza de que haveria um para o lúdico, outro para o sagrado.

E veja: é Nossa Senhora Aparecida que enfeita o seu dia. Não é uma santa qualquer. É a padroeira do Brasil, a santa do povo, negra, encontrada por pescadores no fundo de um rio. Sua bondade infinita foi capaz de multiplicar os peixes. Desde então, ela olha pelo povo. Não do alto. Mas do fundo do rio, da alma, das águas. E dentro de nós passa um rio...tanto!

Uma vez escrevi que o que define minha família, os Neves, é o amor por pássaros, oratórios e pequenezas. Somos feitos de rio, de pés no chão, dos afetos bordados na relação com o outro. Hoje vejo, Fulô, que você é parte da minha família. Dizem isso, não é? Que os amigos são a família que a gente escolhe. Você é a família que sempre foi e eu pude reencontrar nessa jornada. Nos encontramos dançando frevo, vejo só! Dança colorida, com a alegria explosiva e genuína das crianças, frevo dos pés no chão, da capoeira dos escravos...olha o nosso universo se conectando de novo.

Estou certa de que viemos juntas desde antes, antes da barriga, antes do tempo, de outros abismos. Juntas para compartilhar a alma de Fulô, para adorar essa Nossa Senhora colorida do Galeno, sem rosto, envolta por pipas e carretéis coloridos.

Estou escrevendo tudo isso no meio de um shopping, enquanto espero meu horário na terapia. Escrevo e meus olhos se enchem de água. Tentei te ligar para dar os parabéns e dizer que te amo, mas você não atendeu. Deve estar aí em Piri, curtindo seu dia na paz das cachoeiras. Está em boas mãos, minha amiga, no abraço da sua mãe Oxum. Pedi a ela para te abraçar ainda mais forte por mim. Hoje e todos os dias.

Te amo!

Da sua Fulô,

Dany


18 dias no Japão

Foram 18 dias de sonho e muitas caminhadas pelo Japão. Começamos por Tokyo, onde ficamos por 4 dias. A ideia era entrarmos em contato com c...